Cartas para a pandemia

Durante o primeiro ano da Pandemia, em 2020, muitas questões surgiram para mim. Medos, angústias, dúvidas…, naquele momento onde estávamos isolados precisei externalizar aqueles sentimentos. Foi então que decidi começar a criar as “cartas para a Pandemia”.

Essas cartas são recortes meus, são minhas narrativas durante aquele período isolada. A partir de mim e da minha história criei e me (re)criei através de uma escrita intuitiva, assim como as pinturas que também fiz naquele período. As palavras que escrevo nessas cartas, além de retratar esses sentimentos, também falam da minha espiritualidade. Sem dúvidas, a arte da pintura, da escrita e da espiritualidade estiveram em todo momento ao meu lado.

Por isso nunca me senti sozinha, mesmo estando isolada.


Um tempo longe de mim

Sempre ou quase sempre me senti desconhecida a mim mesma. Aí me achei, me encontrei, me cuidei, me respeitei, me permiti e mergulhei. No começo eu me assustei, pois o mergulho foi profundo e, em alguns momentos, resisti em ter que pegar ar. Sou muito desconfiada, e estava desconfiando até de mim, se seria capaz de mergulhar em mim. Enfim: mergulhei, me afoguei e finalmente me encontrei. E então foi um dos encontros mais
lindos que vi, vivi e senti. Foi maravilhoso estar comigo! Fiquei tão encantada, que não
queria mais sair de lá.

Aprendi a viver debaixo d’água. Logo eu, tão racional e “mercuriana”. Não à toa sempre sonhei muito com água e animais marinhos. Meu inconsciente, sempre tão generoso comigo, estava querendo me mostrar e me apresentar o meu fundo do mar. O mergulho foi tão bom que de lá surgiram tantas criações e recriações!


Nudez artística através de palavras

Nem sei muito bem o que aqui faço e escrevo. Vão ser palavras soltas e talvez perguntas sem respostas. Usarei esse momento para vomitar palavras provavelmente sem muitas vírgulas. Cinquenta dias de isolamento social: pessoas, milhares morrendo. Não sei o que está acontecendo.

Mas aí eu pinto. Nem sei dizer por que eu pinto, desenho, escrevo. Meu corpo matéria não suporta tantas sensações, são muitas: são ondas de sentimentos que não param. Uma onda atrás da outra. Afogo-me em mim mesma e nos meus sentimentos e pensamentos. Nem sei por que pinto, mas é aqui o momento em que me encontro, em que me esqueço do racional, em que me esqueço do que tem lá fora e me observo.

A arte me transmite paz, me proporciona calma, aconchego, silêncio. A minha companhia enquanto pinto é a minha melhor sensação. Estar com a Renata que desenha, pinta e escreve é a minha alma crua e nua! É uma transparência.


Sinto e Pinto

Às vezes acho que não sei por que pinto, mas parece que venho compreendendo cada vez
mais: pinto e crio porque é aqui o meu lugar, são encontros comigo mesma. Sou eu aqui. Sou eu com todos os sentimentos que uma alma humana possui. Possuo-me artisticamente. É aqui o mais profundo do meu ser, Ser. Minhas máscaras caem. O mais louco? Que ninguém, absolutamente ninguém me conhece assim. Apenas eu me conheço dessa forma. É o todo de mim que aqui está. Conheço-me, me recrio, me encontro, me sinto através da arte. É por isso a arte! Nem sei como cheguei até aqui. Cá estou por completo nua e crua!

Não sei muito bem por que pinto. Apenas sinto. Meu Ser pede a arte. Apenas expresso. Pinto por respeito a mim e aos meus. Encontro na arte aconchego.


Eparrey!

Obs.: texto realizado junto à criação de uma pintura após um momento meditativo em que a
angústia estava “tomando conta de mim”.

O barco, quando está no mar, aos poucos encontra o eixo, a corrente para seguir. Porém, algumas vezes o ar sopra, mudando o eixo e fazendo com que o marinheiro precise reencontrar o caminho.

Pode ser difícil, cansativo ter que se reorganizar. Mas é necessário. Iansã não sopra à toa. Às vezes achamos que o melhor caminho é esse.

E aí Ela ajuda a rainha das águas a mostrar que talvez outro caminho seja melhor ou que é necessário mesmo dar uma “assopradinha”.

O marinheiro nunca tem ponto de chegada. Ele tem pontos de passagens. E se, em algum momento, tiver um ponto de chegada definitivo é porque o trabalho do marinheiro encerra ali.

Por isso nunca trabalhe apenas com o objetivo de finalizar, porque o trabalho deve continuar, é sempre passageiro, tudo muda. Uma hora tudo muda.

É necessário mudar de eixo e ter paciência quando a ventania mudar a direção, porque nunca é à toa quando a rainha dos ventos se junta com a rainha do mar.

Odoyá! Eparrey!

  • Título da pintura: Eparrey!
  • Artista: Renata Mota
  • Ano: 2020

Escrito por Renata Mota


Renata Mota

Psicóloga junguiana, pesquisadora e artista. Minhas pesquisas envolvem arte, processo criativo e narrativas como meio de criação-compreensão de si mesmo. Minhas pinturas surgem de um lugar muito íntimo, que eu conheço como inconsciente, e também por meio da minha espiritualidade.

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: