Corpo

Conheci o que era enxaqueca recentemente. Até então eu só tinha tido dores de cabeça comuns, daquelas que um analgésico, meia hora de olho fechado e um copo d’água resolvem. Mas aí eu tive uma enxaqueca, e hoje sei que se trata de um extremo desconforto na região da cabeça acompanhada de náusea e a sensação de ‘’o que está rolando aqui, eu não estou entendendo nada, alguém me ajude’’, uma perda total de qualquer tipo de controle.

Acontece que há meses tenho tido dias muito parecidos, pouco ritualizados, corridos, cheios de preocupação, com o agravante de não ter a amenidade gostosa de encontrar amigos, tomar um sorvete ou uma cerveja depois do expediente, ir à praia, nadar, brincar de pegar jacaré em onda, ir para a academia ou qualquer atividade amena que seja, que antes estavam presentes com facilidade no meu dia a dia.

“Mas isso aconteceu por uma boa causa, na busca por autonomia”, eu dizia para mim mesma como se eu pudesse me enganar. O problema é que eu tinha entendido tudo errado, achava que a via de satisfação mais genuína no meio desse caos que foi o ano de 2020 e o primeiro semestre de 2021 viria através da exploração do meu potencial criativo. Eu realmente usava essa expressão – eu preciso explorar o meu potencial criativo! Isso significava que eu ia passar muito tempo do meu dia na frente do meu computador navegando em softwares de criação, trabalhando muito, ouvindo podcasts dentro do recorte temático da minha área de atuação, buscando referências, lendo sobre criatividade, buscando cursos e etc., ‘’afinal, existem muitas formas de aprender as coisas’’.

Parece legal explorar, desbravar, conhecer o seu lado profissional e as coisas que se gosta muito de estudar, mas esquecer da manutenção diária dos pequenos rituais do corpo físico que abrem espaço nos nossos corpos sutis pode ser muito doloroso, principalmente quando se vive uma pandemia de covid-19 em um país onde o presidente manda que comprem fuzis aos que cobram por comida e saúde.

Por mais que eu tenha acendido uma vela ou outra, rezado quase todos os dias, meditado antes de dormir, o meu corpo não estava dançando, nem se alongando, muito menos correndo, levantando peso, brincando, brindando…

Comecei e vou retornar para minha enxaqueca:

  • Notei que gosto muito de falar das minhas dores. É como se elas diminuíssem.
  • Muito me intriga o fato de que a dor pode ser uma via de contato com o corpo, como se ele chamasse atenção.
  • Ultrapassar a linha da superfície da dor e procurar outros estímulos virou a minha prioridade.

Percebi que o corpo monotemático, corpo entediado, corpo sem criatividade, corpo que não tem tesão pelas coisas que antes sentia desejo é um corpo fácil de manipular, um corpo facilmente adaptável ao que se impõe. Corpo que não sabe buscar outras formas de existir, senão aquela da obrigação. Afinal, ele está com dor, cansado, sonolento, sem capacidade de concentração e articulação das próprias potências.

Várias queixas, vários incômodos. E eu não conseguia romper a linha do que já estava no script. O meu corpo precisou de outros estímulos, o meu corpo pediu, brutalmente através da enxaqueca, para que eu voltasse a fazer o que eu gostava e até descobrisse que gostava de outras coisas. A carta do ‘’Pendurado’’ no Tarot me perseguiu por uma semana. Em vários dias seguidos ela surgia e eu senti o que Tarot queria me falar. Foi igual quando fiz a minha primeira aula de Kundalini Yoga e consegui ver a varanda da minha casa de cabeça pra baixo. Algo muito sutil dentro de mim gritou: É ISSO! Desde então tenho tentado, quase todos os dias, mexer o meu corpo.

Seja através do Yoga, seja numa caminhada, ou uma pausa que eu tiro para pular corda ou ir ali encontrar uns amigos para tomar um banho de mar ou fazer um aerohit na frente da televisão… parar, respirar, mover meu corpo porque ele pede nem que seja um pouquinho – para além da competição e do mundo fitness – tem aberto um espaço que eu já reivindico há muito tempo. O espaço das coisas materiais. O espaço do dia a dia.

Uma vez uma colega da turma de Tarot disse que – às vezes parece que a gente está tão fissurada pelo plano das ideias, que esquece que o nosso lugar de atuação é o eixo material. Existe a vida, existem as pessoas ao redor que quase nunca estão na mesma frequência mental que você, não tem as mesmas ideologias e isso deixa o espaço material um pouco mais denso.

É como se as nossas ideias não acompanhassem o ritmo da Terra, do espaço físico. E eu tomei isso como um insight para o corpo. A atenção para com esse corpo material é urgente. Ele é a principal via de conexão com as nossas potências mais sutis. A ativação é real, os yoguis sabiam disso e a gente precisa saber também. Não para que todo mundo vire yogui, mas para que a gente saiba abrir espaço dentro de si de acordo com as nossas ferramentas. Sejam elas a dança, a caminhada, o banho de mar, a arte marcial, o muay thai, a pedalada, a escalada, o alongamento, a subida e descida de escada, que seja.

Talvez pareça estranho um texto que beira um manifesto da liberação corporal num blog de espiritualidade, mas acredito que a nossa ligação principal com as camadas mais sutis da nossa consciência vem através do movimento corporal presente, da respiração ritmada e da percepção dos nossos pulsos vitais. Na Umbanda a gente dança, gira, engata o corpo num fluxo de movimento que eu posso chamar de meditativo, outras religiões fazem isso também, eu tenho certeza que vocês lembraram de um ou outro trabalho ritualístico em diferentes templos onde o movimento do corpo é quem dita o Tempo de entrada e saída das coisas.

As casas de feitura mais tradicionais e menos exploratórias, sejam elas de farinha, melado ou beberagem, tem no ritmo dos trabalhadores o compasso perfeito para criação, a meditação coletiva necessária para gerar a alquimia exata do ponto, do sabor, da textura. O nosso corpo sabe disso, a gente esquece e, por isso, às vezes adoece. Adoece tentando abrir um espaço mental com mais coisas mentais, adoece porque esquece de respirar, adoece porque oferece sempre os mesmos estímulos com pouca circulação, pouca abertura e pouca elasticidade e quase nada de suor. O suor, eu gosto muito dele, lembra de banho de mar, lembra descarrego, lembra transe.

Que assim como o nosso espírito, o nosso corpo possa ser lembrado, valorizado, nutrido, amado, respeitado e principalmente movimentado para que a gente não precise descobrir o que significa enxaqueca, derrame, olhos tremendo, coluna fraca e outras mazelas tão comuns em pessoas cada vez mais jovens. Precisamos estar fortes e movimentados para fazer as nossas pequenas revoluções do dia a dia e lutarmos para exercer a nossa individualidade e nossa potência inclusive espiritual neste mundo.

Axé.


Beatriz Câmara

Graduada em arquitetura, tenho o design como ferramenta para desenvolvimento de projetos de identidade e comunicação visual. Além disso, me considero estudante da imagem e busco no desenho das coisas uma maneira de falar e me projetar no mundo. Como isso não é suficiente, gosto de dizer que eu também sou o meu corpo e a reverberação das coisas que ele pede pra eu fazer.

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

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