Uma pausa para o café

Todo dia é a mesma coisa: reuniões, tarefas complexas, colegas chatos, chefe incompreensível, problemas pessoais, cobranças internas. Tudo isso compõe a realidade caótica da psique de um trabalhador contemporâneo de classe média. A tecnocracia parece nos tirar aos poucos nossa humanidade. O negócio é competir com o outro. Acumular mais. Ter mais. Ser mais. Sob o pretexto de sair do lugar comum e encarar os desafios, nos pedem para vestir a camisa, colocar sangue nos olhos e mitigar qualquer obstáculo.

Enquanto subimos a escada infinita do sucesso, parecemos esquecer quem somos, de
onde viemos, a natureza ao nosso redor. Esquecemos de beber água, anos depois de
aprender que somos feitos majoritariamente de, olha só, água. Esquecemos de ligar para
quem a gente gosta só para perguntar se está tudo bem. É aniversário de fulano? Publica
no instagram uma foto de vocês dois, faz um elogio genérico, marca o arroba e pronto.
Somos a melhor pessoa do mundo.

E sobre a natureza ao nosso redor, perdemos o interesse por coisas naturais mínimas. E
por “natureza” — com muitas aspas — entenda qualquer resquício de vida sem intervenção
humana direta. E essa natureza está bem aí, na sua frente. Basta olhar, sentir, ouvir. A
centopéia que ousa atravessar o chão polido da sala e que sobreviveu ao robô-aspirador
da marca chinesa famosa. O gafanhoto que está pregado na porta de vidro mas que
pode morrer sufocado pelo vidrex. Os saguis que brincam ingenuamente nos fios de alta
tensão. As abelhas que visitam aquele jardim vertical da varanda. E o cantos dos
pássaros? Experimente desligar o ar-condicionado para ouvir o canto dos pássaros.

Mas a nossa pausa é para o café. O famoso cafezinho da firma. Geralmente horrível.
Quase sempre forte (afinal, o patrão quer mais cafeína para sermos – adivinhem só – mais
produtivos). Mas se nossa vida fosse um filme e decidíssemos pausá-lo? E se
usássemos essa pausa para tentar desvendar a natureza ao nosso redor?

Fico pensando em que momento da vida eu perdi o interesse de subir em árvores.
Também fico querendo saber o porquê de termos — eu e meus amigos — parado de fazer
piquenique no parque. Também amo fazer trilhas na mata. Ou pedalar por aí. Como meus
amigos não vão, não quero ir. O pessoal só se diverte se tiver bebida alcoólica e se o
encontro for em algum bar da moda. Mas eu poderia ir sozinho.

Passo quase todo dia em frente ao mar porque moro perto da praia e lamento o fato de
ter ido poucas vezes sentar na areia para curtir o pôr do sol. Ou dar um mergulho. Ou
simplesmente, observar a natureza. Qualquer dia desses, depois de sair do trabalho e
antes de chegar em casa, vou me permitir tirar o sapato, pôr os pés na areia e sentir cada
grãozinho enquanto caminho até a água. Não me importarei se molhar a barra da calça.
Ela já ia ser lavada mesmo. Afinal, natureza não é sujeira. Faço parte dela.


Gustavo Augusto-Vieira

Jornalista profissional e bacharel em Sistemas de Informação. Sobrevivente do genocídio do povo negro e indígena. Contador de histórias. Testemunha ocular do caos urbano. Terráqueo. Espiritualista. Ainda tem um pouco de fé na humanidade.

Publicado por Nivartan

Considero-me um observador cuidadoso, otimista racional, de humor volátil, mas que vem trabalhando o amor em todas as suas possibilidades, buscando sempre ser honrado, justo e valente.

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