O cidadão comum

Às quatro da manhã o despertador toca. Não foi tempo suficiente para que pudesse descansar, mas mesmo assim levantou-se prontamente da cama. Beijou sua esposa na testa enquanto ela dormia, passou a mão suavemente nos seus cabelos e sentiu seu cheiro já imaginando a hora em que voltaria para casa. Abriu as cortinas da janelaContinuar lendo “O cidadão comum”

Privado

“Onde estava com a cabeça quando quis ser um bendito professor?!” — se perguntou naquela manhã do dia 15 de outubro. Ficou por alguns segundos pensando enquanto escrevia no quadro. Nas primeiras cadeiras, alguns poucos alunos copiavam avidamente o que era escrito por ele, mas a maioria, para seu desânimo, conversava em voz alta aoContinuar lendo “Privado”

É primavera o ano inteiro

Sentaram-se próximos ao fim da ponte e podiam sentir os respingos da água do mar que se chocava contra as pedras. Ela deitou-se de costas e apoiou a cabeça em seu colo. Os dedos grossos acariciavam seus cabelos como se a penteasse lentamente. Ela fechou os olhos e ele olhou para o horizonte, lembrou-se deContinuar lendo “É primavera o ano inteiro”

O paraíso é aqui

Quando observadas de longe, as dunas lembravam o formato das costas de um jacaré com a boca aberta, uma das lendas que deu à vila seu nome peculiar. Talvez fosse possível vê-lo melhor do mar pelos pescadores, mas ele via da caçamba de um “pau de arara”, segurando as malas para não caírem pela traseiraContinuar lendo “O paraíso é aqui”

Foi o quando ele me falou

Devido à rotina, virou costume chegar tarde a casa. Dirigiu-se à estante de mármore e pegou um uísque 12 anos — seu ano favorito. Desconsiderava o fato de ter sido diagnosticado socialmente como hipocondríaco. — Não é verdade. — Pensou enquanto tomava seu décimo comprimido de Benflogim e se servia com uma dose, embalado aoContinuar lendo “Foi o quando ele me falou”

A reflexão da despedida

Repetia em sua mente as palavras de Charles Baudelaire: “É preciso estar sempre embriagado. Eis aí tudo: é a única questão. Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo que rompe os vossos ombros e vos inclina para o chão, é preciso embriagar-vos sem trégua.”, e andando vagarosamente, previsto que seu tempo acabou, mudou seuContinuar lendo “A reflexão da despedida”

Os vagões da linha 777

Quando deu por si, estava de pé em uma estação de trem. Seu corpo estava dormente, mas ainda era possível senti-lo. Percebeu que estava ao lado de pessoas de todos os tipos com aquele estranho espectro esbranquiçado que emana a alma humana. Sabia disso porque pôde notar outras vezes quando teve contato com alguns parentesContinuar lendo “Os vagões da linha 777”