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Uma pausa para o café

Todo dia é a mesma coisa: reuniões, tarefas complexas, colegas chatos, chefe incompreensível, problemas pessoais, cobranças internas. Tudo isso compõe a realidade caótica da psique de um trabalhador contemporâneo de classe média. A tecnocracia parece nos tirar aos poucos nossa humanidade. O negócio é competir com o outro. Acumular mais. Ter mais. Ser mais. Sob o pretexto de sair do lugar comum e encarar os desafios, nos pedem para vestir a camisa, colocar sangue nos olhos e mitigar qualquer obstáculo.

Enquanto subimos a escada infinita do sucesso, parecemos esquecer quem somos, de
onde viemos, a natureza ao nosso redor. Esquecemos de beber água, anos depois de
aprender que somos feitos majoritariamente de, olha só, água. Esquecemos de ligar para
quem a gente gosta só para perguntar se está tudo bem. É aniversário de fulano? Publica
no instagram uma foto de vocês dois, faz um elogio genérico, marca o arroba e pronto.
Somos a melhor pessoa do mundo.

E sobre a natureza ao nosso redor, perdemos o interesse por coisas naturais mínimas. E
por “natureza” — com muitas aspas — entenda qualquer resquício de vida sem intervenção
humana direta. E essa natureza está bem aí, na sua frente. Basta olhar, sentir, ouvir. A
centopéia que ousa atravessar o chão polido da sala e que sobreviveu ao robô-aspirador
da marca chinesa famosa. O gafanhoto que está pregado na porta de vidro mas que
pode morrer sufocado pelo vidrex. Os saguis que brincam ingenuamente nos fios de alta
tensão. As abelhas que visitam aquele jardim vertical da varanda. E o cantos dos
pássaros? Experimente desligar o ar-condicionado para ouvir o canto dos pássaros.

Mas a nossa pausa é para o café. O famoso cafezinho da firma. Geralmente horrível.
Quase sempre forte (afinal, o patrão quer mais cafeína para sermos – adivinhem só – mais
produtivos). Mas se nossa vida fosse um filme e decidíssemos pausá-lo? E se
usássemos essa pausa para tentar desvendar a natureza ao nosso redor?

Fico pensando em que momento da vida eu perdi o interesse de subir em árvores.
Também fico querendo saber o porquê de termos — eu e meus amigos — parado de fazer
piquenique no parque. Também amo fazer trilhas na mata. Ou pedalar por aí. Como meus
amigos não vão, não quero ir. O pessoal só se diverte se tiver bebida alcoólica e se o
encontro for em algum bar da moda. Mas eu poderia ir sozinho.

Passo quase todo dia em frente ao mar porque moro perto da praia e lamento o fato de
ter ido poucas vezes sentar na areia para curtir o pôr do sol. Ou dar um mergulho. Ou
simplesmente, observar a natureza. Qualquer dia desses, depois de sair do trabalho e
antes de chegar em casa, vou me permitir tirar o sapato, pôr os pés na areia e sentir cada
grãozinho enquanto caminho até a água. Não me importarei se molhar a barra da calça.
Ela já ia ser lavada mesmo. Afinal, natureza não é sujeira. Faço parte dela.


Gustavo Augusto-Vieira

Jornalista profissional e bacharel em Sistemas de Informação. Sobrevivente do genocídio do povo negro e indígena. Contador de histórias. Testemunha ocular do caos urbano. Terráqueo. Espiritualista. Ainda tem um pouco de fé na humanidade.

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Ancestralidade

A conexão com a nossa ancestralidade está intimamente relacionada com a nossa vida neste plano material, e em como trilhamos os nossos caminhos nesta Terra. Não é possível falar sobre espiritualidade, ou sobre qualquer assunto que perpassa a nossa existência, sem falarmos dela. 

Nossa ancestralidade são as nossas “raízes”, é o que nos sustenta neste plano terreno. A conexão com a ancestralidade nos dá vitalidade, força, determinação, bravura e coragem para desbravarmos e trilharmos os caminhos desse plano de existência. 

Se não temos a consciência dessa conexão ancestral, se temos pendências, questões mal resolvidas ou mal elaboradas internamente, traumas, bloqueios, rancores, remorsos, ressentimentos, mágoas com nossos progenitores, cuidadores ou com a nossa ancestralidade no modo geral, perdemos a nossa vitalidade, a força, a garra, a coragem e bravura, a determinação de caminhar nesta terra. Ficamos apáticos ou alheios a vida e a nossa existência. Não conseguiremos ter objetividade, finalizar ciclos, projetos, materializar ideias nesse plano físico. 

No fundo, ter algum tipo de bloqueio ou algum nível de negação para com a nossa ancestralidade é, também, de forma inconsciente negar nosso DNA, células e o nosso corpo físico, portanto, negar a nossa própria existência nesse plano terreno.

Não é à toa, por exemplo, que o processo de aculturação sofrido pelos negros escravizados em que lhes foram apartados de seus territórios, rompidos ou fragilizados em suas identidades, linguagens, religiosidades e ancestralidade africana, facilitou a sua submissão e escravização pelos homens brancos.

Muitas tradições nativas e ancestrais tinham consciência da importância que a ancestralidade exercia sobre sua caminhada aqui na terra. Muitas culturas nativas tinham e ainda tem como prática rezar as sete gerações passadas e as sete gerações futuras, entendendo que a sua existência é um fluxo no contínuo espaço/tempo adimensional e atemporal em que passado, presente e futuro se condensam e se manifestam no aqui e agora. Tudo o que se faz aqui e agora, reverbera em nosso passado e em nosso futuro.

Contudo, precisamos entender o tempo para além de uma perspectiva ocidental, onde ele é estabelecido e medido e narrado de forma linear: passado, presente e futuro. Aos poucos a ciência vem compreendendo uma nova perspectiva sobre o tempo. Para outras tradições nativas e ancestrais principalmente, a sua relação com o tempo não se dá de uma forma linear, mas em um fluxo contínuo, cíclico, onde o presente, passado e futuro se entrelaçam, interagindo e se manifestando no agora. E que a sua própria existência foi e está sendo rezada há sete gerações “passadas” pelo seus ancestrais.   

Essa potência energética ancestral está condensada, não à toa, em nosso chakra raiz, na base da nossa coluna vertebral. É por este chakra que nos conectamos com nossos ancestrais, com nossas raízes. É por ele também que nos conectamos à Mãe Terra e toda a sua sabedoria. Com os cristais e elementos inorgânicos que constituem nosso corpo físico.

Costumo dizer que todo processo de cura, iniciação, desenvolvimento espiritual ou expansão da consciência, ou até mesmo a concretização de um projeto material que tenhamos idealizado se passa primeiramente, querendo ou não, por nossas raízes. Como ela está, como está sendo nutrida e cuidada. 

Estar bem resolvido com nossas raízes, com nossa ancestralidade, no entanto, não quer dizer uma submissão alienada aos nossos ancestrais como sinônimo de respeito, uma plena concordância com suas atitudes e características que por motivos diversos, não concordamos. Mas sim, ter em nós um espaço interno para elaboração de memórias mal resolvidas, de ressentimentos, traumas, bloqueios, rancores, por meio de práticas diversas como terapias, práticas espirituais, meditação e autoconhecimento, nos possibilitando assim, ter acesso a esses conteúdos acima mencionado que quase sempre estão à margem da nossa consciência, armazenados em nosso inconsciente.

O processo de autoconhecimento, por meio de diversos caminhos possíveis, possibilita a liberação de crenças limitantes, bloqueios, traumas, rancores, ressentimentos dentro das condições do indivíduo e consequentemente nos conectando com a nossa força ancestral e sua sabedoria. 

Honrando nossa ancestralidade estaremos honrando nossa vida e nossa existência. Potencializando nossas capacidades, abrindo, assim, nossos caminhos para manifestarmos nossa essência e nosso propósito divino neste plano de existência. Para subirmos aos mais altos céus, precisamos ter raízes profundas e bem firmadas.

Escrito por José Sandino


José Sandino

Meu nome é José Sandino, sou terapeuta ThetaHealing há 11 anos. Amante das filosofias kemética, budista e da filosofia e espiritualidade xamânica ameríndias. Descendente de Quilombolas e Ciganos. Estudante do calendário Maya Tzolkin. Ecologista, atuante na área da agroecologia. Membro e atuante do movimento Ciclovida e do movimento artístico cultural de teatro, música e poesia Caricultura. Graduando em Humanidades.

“Sou um Viajante das Estrelas e um Navegante dos Grandes Mistérios”.

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A cura da depressão

Resolvi escrever este texto por sugestão de uma leitora, que me fez o seguinte questionamento: a espiritualidade pode auxiliar na saúde mental e curar, por exemplo, a depressão? 

Essa é uma boa questão por dois fatores: o primeiro é que a espiritualidade pode auxiliar no tratamento da enfermidade, junto à vontade do indivíduo ao qual se manifesta. O segundo é que por trazer a possibilidade de uma “cura”, pessoas mal intencionadas podem se valer disso para enganar e extorquir seus portadores. Mas antes de começar a falar sobre o tema de fato, devo alguns esclarecimentos a você, querido leitor.

O primeiro é que estou ciente de que existem alguns locais que não me cabem a fala, como por exemplo, o lugar de quem tem depressão. Outro lugar do qual não posso falar é o ocupado por profissionais da área, que tão habilmente lidam com essas questões, como psicólogos e psiquiatras. Por isso, peço desde já desculpas se cometer algum equívoco ao me expressar e agradeço gentilmente se quiserem deixar nos comentários as devidas correções ao meu texto — se houver.

Reconhecer esses dois lugares me coloca no meu lugar de fala, o de alguém que crê que a espiritualidade pode operar grandes transformações, tão impressionantes que não é incomum chamá-las de milagre. Mesmo assim, por mais incríveis que pareçam, não mudam a primeira resposta, ao meu ver, para essa questão: a espiritualidade não cura a depressão. 

A depressão é uma doença que não tem uma causa orgânica conhecida, como a diabetes, a hipertensão, ou mesmo uma tão simples gripe. Além disso, apesar dos seus portadores apresentarem características semelhantes (sentimentos de tristeza e/ou perda de interesse em atividades que em momentos anteriores traziam prazer, falta de libido, falta de amor próprio, falta do desejo de viver, etc.), não existe um ponto de partida em comum para cada indivíduo. Ou seja, cada pessoa tem seus gatilhos, ou melhor, um conjunto de condições e questões que podem desencadear uma crise depressiva.

Falando nisso, existe uma diferença entre tristeza e a depressão de fato. Segundo o Psicanalista André Luiz (@andreluiz.psi):

“Esses dois conceitos, mesmo que aparentemente muito parecidos, têm diferenças essenciais: primeiro que, quando se está triste, se tem duas coisas: um sentimento e um foco. A tristeza tem um objeto definido. Se está triste por uma perda, uma relação ou uma situação danosa. Na depressão não se sente nada, tristeza ou alegria. E o objeto da depressão é a identificação com o vazio. A pessoa, por não conseguir se ligar a nada emocionalmente, se sente vazia tanto de sentimentos quanto dela mesma.

Ainda sobre a depressão, podemos dividir em dois momentos: crises depressivas e depressão estrutural. Uma crise depressiva pode acontecer com qualquer pessoa exposta a um trauma muito grande. A depressão estrutural é uma organização psíquica, a pessoa organiza sua vida ao redor desse vazio que sente. A forma como lida com o mundo, com as outras pessoas e mesmo consigo é pautada por esse vazio.”

É justamente e tão somente por essa breve explanação da doença que não podemos afirmar que para todo aquele que sofre de depressão, a solução ou a cura é a espiritualidade ou a crença em uma divindade. Na realidade, a depressão nada tem a ver com crer ou não em um propósito específico ou a ausência dele, bem como a falta de algo material (carro, casa, relacionamento, estabilidade familiar, dinheiro, trabalho). 

A visão otimista da cura

É importante, entretanto, lembrar que estamos falando de uma população que é formada por indivíduos. Então, se para um indivíduo específico que espontaneamente procurou um auxílio espiritual — como o oferecido em um terreiro — e nele, junto às práticas, ao ritual, à comunidade, à teologia, organizou-se de tal forma que a doença permaneça controlada, e este considerar o controle como uma cura, nada tenho a questionar a respeito desta opinião. 

Manter a doença equilibrada, na perspectiva dos mais radicais, pode não significar que o indivíduo se curou dela, mas se aquele que sofre entender que está curado a partir do autocontrole, ciente de que é preciso estar vigilante para que ela não ressurja ainda mais forte, eu considero para esse indivíduo o que ele alega sobre si. 

A espiritualidade para casos de saúde mental ajuda outros campos que são da sua competência, como, por exemplo: restabelecer o equilíbrio energético, propor mudanças de hábitos, de pensamentos, auxiliar na edificação de valores, repensar formas de pensamento aprisionadoras etc. Isso, claro, em paralelo ao tratamento médico competente à área da saúde. Nenhum indivíduo deve abandonar qualquer acompanhamento orientado por um profissional de saúde para seguir uma possível “orientação espiritual”.

É sabido que a ciência e a espiritualidade devem caminhar juntas, mas independentes. A espiritualidade, nestes casos, surge como mais uma possibilidade de reorganização e reestruturação para o indivíduo. Mais uma ferramenta que pode o auxiliar. Nenhum culto, ritual, trabalho, obrigação, cura depressão.

Se você que me lê neste momento sofre com essa doença, peço que não se desanime com minhas palavras. Lidar com sobriedade sobre essa questão e as inúmeras outras questões da vida, vem se mostrando ao longo do tempo como uma escolha assertiva. Espero que você se sinta acolhido dentro da espiritualidade que não habita os templos, mas sim dentro de você. E me disponho a ajudar. Estamos juntos e ninguém solta a mão de ninguém.

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A Grande Obra

Acredito que desde que a raça humana inaugurou o modo racional de pensar em si e no mundo ao seu redor, surgiu com esse momento sublime uma das grandes inquietações do ser humano consciente: por que eu estou aqui?

Nossos parentes primitivos modernos, como o homo sapiens sapiens (o homem que sabe que sabe), jamais puderam imaginar que a partir dali herdaríamos questionamentos ainda mais profundos e que ficarão sem respostas para muitos.

À medida que fomos evoluindo, chegamos ao ponto onde pensar sobre uma missão de vida, a razão para uma existência, pode tornar-se um exercício frustrante. Afinal, o que é de fato que norteia, define ou quem avalia se levamos uma vida de verdade ou não?

Diante disso, diremos a nós que somos nossos próprios mestres, mas ao colocar a cabeça no travesseiro à noite, no centro profundo do nosso subconsciente, perguntamos do Eu para o Eu: “será que sou mesmo?”

Durante a busca, batemos em várias portas, indo e voltando por vários caminhos, esperando que algo aconteça. É como se precisássemos dominar alguma técnica secreta perdida em manuscritos de uma civilização antiga, ou de um divisor de águas que mudasse tudo de uma hora para outra. Ansiamos o momento de dizermos aliviados: “Agora eu sei o que sou.”

Não são incomuns — quando nos vemos presos ao looping incessante de pensamentos relacionados ao propósito de vida — as crises de ansiedade, angústia, raiva e até depressão. E quando não falamos de espiritualidade, estamos pensando assim do nosso emprego, da nossa família, da comida que comemos, da política que fazemos, e aí já se vai uma longa lista manchada de suor e lágrimas que a qualquer momento pode nos estrangular.

Com essa questão latente, pensei no que dava aos grandes homens e mulheres como Chico Xavier, Sidarta Gautama, Madre Teresa de Calcutá, Mahatma Gandhi, e tantos outros(as) mestres da ciência, da arte, da filosofia etc., o título de mestres. Pensei não somente em como suas existências contribuíram com o mundo de hoje, mas como eles realizaram as suas Grandes Obras. E, então, lendo-os e conhecendo suas histórias, sinto-me capaz de traçar um caminho coerente que não visa responder, e sim dar mais sentido à inquietação: “por que eu estou aqui?”.

Não é meu intuito fazer comparações rasas a ponto de: “jamais serei igual a eles” ou “quero ser igual a eles” por exemplo, mas podemos nos espelhar nas suas histórias e colocá-las em prática nas nossas vidas com as ferramentas que temos. Entender que a Grande Obra a qual ansiamos, já está sendo realizada e acontece a cada dia que você vive a sua vida.

Esse caminho começa no momento presente. Olhamos para o futuro com tanta vontade, ludibriados pela ótica dos sonhos, que criamos um hiato entre o hoje e o que queremos amanhã. E na pressa de chegar, saboreamos o amargor do tempo e das oscilações naturais da vida. Existe um caminho longo entre querer ser e ser.

Nossa percepção de trabalho x realização encontra-se tão distorcida, que falamos hoje desses homens e mulheres como se tivessem nascidos prontos e não como quem dedicou uma vida inteira ao que acreditavam ser o certo, mesmo que não tomassem consciência da notoriedade histórica que alcançariam. 

Muitas vezes, fazemos o pensamento inverso: nos vemos como grandes mestres em potencial, mas não nos comportamos como grandes mestres hoje. Queremos ser reconhecidos, lembrados e seguidos por nossas boas escolhas sem fazemos nossas boas escolhas diárias, que vão desde a forma como desejamos um simples “bom dia” — se é verdadeiro ou se é no “modo automático” — às decisões que tomamos quando o que está em jogo é o nosso caráter.

Não percebemos que a grande realização das nossas vidas acontece neste instante, eu e você aqui, conversando, fazendo nossa história. A Grande Obra está a acontecer nesse minuto em que seu coração bate, em que seus pensamentos fervilham em busca de realização. Você nasceu como todos, mas o que te diferencia de todos é exatamente o que você faz no seu momento presente.

Portanto, precisamos — com prudência, claro — parar de desejar o futuro que ainda não nos pertence e que é incerto. Parar de consultar demasiadamente os oráculos, os nossos guias, e pedir —  no lugar de respostas — a habilidade para entender as mensagens que constantemente nos são dadas e ignoradas pela nossa falta de maturidade espiritual. 

O que deve nos interessar neste momento é realizar todos os dias a nossa Grande Obra de Vida, garantindo que as sementes sejam plantadas com toda dedicação e, principalmente, amor.

O poder dos grandes mestres está na capacidade de realização das suas convicções, quando feitas de maneira prudente, justa e sem a intenção de prejudicar o que consideramos o outro. Está na fé absoluta no amor e nos valores que nos engrandecem enquanto seres humanos. Está em trabalhar todos os dias sem dar ouvidos ao pessimismo próprio e o externo. Está em ser aqui, agora, verdadeiramente, seu próprio mestre.

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Mirror

Sempre fui o tipo de pessoa que acredita que para observar melhor alguma questão de si, é preciso se distanciar dela. Por exemplo, se algum problema me parecia grande demais ou difícil demais para ser enfrentado, eu simplesmente me distanciava, abstraía e conseguia resolver com o tempo que acreditava ser hábil para a questão. Não desconsidero essa maneira de lidar com as coisas, aliás, tenho percebido que a vida se torna mais leve para quem contorna os problemas com criatividade, otimismo e, claro, fé.

Mas como tudo na vida, por sermos indivíduos únicos protagonistas de nossas próprias histórias, não existem formas prontas de se precaver à criatividade do universo quando decide nos testar. E nem sempre, mesmo que queiramos, temos o controle que nos permite sair de nossas próprias problemáticas e observar-nos de fora. Então, mudei a estratégia: mergulhei dentro de mim.

Pode parecer, e talvez seja, o clichê do “conhece-te a ti mesmo”, mas se déssemos a importância que essa afirmação merece, sofreríamos menos com as oscilações que a vida horizontal nos oferece de forma abundante. Se formos críticos, perceberemos que o universo não nos testa, mas nós nos provamos à medida que domamos um leão de cada vez.

Acontece que, na maioria dos casos, quem lida com o problema como se esse acontecesse em um corpo estranho, vivente de uma realidade distante da real, torna-se uma marionete da forte alienação do próprio ego que o arrasta para a zona de conforto, e constrói toda a narrativa com desculpas e não talvez assumindo, curando e libertando.

Em um exemplo claro, quando algum ponto que atinge o nosso ego é apontado e sentimos — porque o ego sempre sente —, nos distanciamos com afirmações que justificam nossos pensamentos, palavras e ações: “isso é inveja”, “essa é a minha personalidade”, “não se atira pedra em árvore que não dá fruto”, “prego que se sobressai sempre leva martelada”.

Não que essas afirmações dentro de outros contextos estejam erradas, mas neste específico é uma clara artimanha do ego para preservar a nossa zona de conforto. Como afirma a escritora e jornalista Jout Jout, “Bateu, doeu, pega que é teu”. Então, por que não refletir e quem sabe assumir uma parcela, ou a total responsabilidade neste julgamento? 

Se digo que você é frágil, por exemplo, por que não entender o que te torna frágil sobre a minha perspectiva, observar-se com clareza dentro desse contexto e ter certeza que essa questão é apenas minha opinião ou, de fato, a realidade? Análogo à feitiçaria — para não dizer que não falei de macumba neste texto, rs —, os feiticeiros costumam usar técnicas que ocultam o trabalho realizado, e até mesmo a própria identidade do mesmo. Sabe por quê? Porque uma vez que se sabe qual trabalho foi feito e quem o fez, pode-se desfazer com facilidade. 

Da mesma forma, quando conhecemos a fundo nossos defeitos e qualidades, quando internalizamos de maneira saudável as críticas que recebemos, ou situações que somos colocados mesmo que contra nossa vontade, o caminho se abre mais rápido para ser resolvido. Uma vez que se conhece o monstro que atormenta você, mais rápido será possível curá-lo e transformá-lo em um aliado.

Distanciar-se é mais fácil porque podemos dar exatamente o peso que achamos devido à mão que nos pune, mergulhar em si é mais difícil porque sentimos o justo peso possível do açoite. Se distanciar é estar na ilusão do controle. Mergulhar em si é guiar por uns instantes sem as mãos. Se distanciar de si para se observar é dizer: ele é. Mergulhar em si é dizer: eu sou.

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Controle Mediúnico

No começo do desenvolvimento da incorporação, é muito comum que o desenvolvente se valha de alguns artifícios — até mesmo de forma inconsciente — que o ajude a se entregar ao transe mediúnico.

Isso acontece devido à natural insegurança do médium iniciante que, por não ter a plena consciência de como a incorporação atua na relação íntima entre ele e a entidade que o acompanha, desconhece que não é necessário força ou potência. Isso é o que causa as sensações físicas “fora do seu controle”. Só assim, depois de várias “preparações” desnecessárias, após a liberação do transe, sente-se mais próximo do que seria estar devidamente incorporado.

Nesse estágio do desenvolvimento, podemos perfeitamente entender como naturais os possíveis excessos. Entretanto, quando esses trejeitos tornam-se hábitos de médiuns já não tão iniciantes, ou mesmo experientes, vejo alguns pontos que precisamos discutir sobre o controle mediúnico. Aqui não falarei sobre como acontece a incorporação, pois muitos já fizeram profundos estudos sobre o assunto. Eu acredito que cada médium tem um processo íntimo e extremamente particular que o faz sentir-se em uma incorporação plena.

Obs.: vale ressaltar que não me refiro à resposta física provocada no momento em que médium e entidade se ligam, ou aos trejeitos após a incorporação, esses que são conhecidos como “mutetos” ou “características próprias” de cada entidade. Tampouco me refiro aos gestos que a entidade faz para energizar os chakras ou descarregar o médium (como bater no peito, bradar, girar etc.). Falo do que antecede a incorporação, ações que estão no controle do médium.

Caras e bocas

Nos rituais de Umbanda — que no caso são os únicos que me sinto confortável em comentar —, existem pontos específicos, determinados pelo Babalorixá daquele Terreiro, que permitem que o médium de atendimento, ou passista,  se prepare e depois libere o transe mediúnico. Quem não conhece o ritual — é possível que até Médiuns da Corrente não saibam — pensa que é o ponto que faz as entidades incorporarem, e não é.

O ponto consagrado à pré-incorporação avisa aos médiuns que se preparem e concentrem para dar passagem à entidade. Somente ao ouvir o ponto consagrado na casa que autoriza a chegada das entidades através de seus cavalos, é que o médium deve liberar o seu transe mediúnico. Ainda, como acontece em algumas casas, os médiuns só estão autorizados quando a Entidade Chefe do Terreiro incorpora no seu Babalorixá. 

É aí que estão as caras e bocas.

Quando os tambores começam a tocar o ponto de pré-incorporação, ou do Orixá correspondente à linha daquela entidade, o médium responde com um franzir de testa, uma tontura, um arrepio, um entortar de boca etc., os quais em uma primeira interpretação fazem parecer que a entidade está bem próxima ao médium, “forçando a incorporação” devido a sua potência e força, e o médium tem que fazer um esforço para que ela não incorpore.

No tocante à mediunidade, parto de um ponto de vista onde trata-se de um claro descontrole mediúnico, ou falta de maturidade mediúnica, pois, nenhuma entidade que se diga de Lei, ou de luz, incorpora no médium sem a autorização do dirigente espiritual, sem que o próprio médium permita, ou sem que haja necessidade de um trabalho plausível a ser realizado, em um ambiente devidamente preparado e controlado.

Quando vemos um médium se contorcendo todo antes da incorporação, isso reforça duas principais mistificações que precisamos combater com esclarecimento

1 – Que mediunidade é provação. 

2 – Que a incorporação é um processo 100% isento da matéria, impossível de controlar pelo médium. 

Mediunidade e provação

Acreditar que a mediunidade é uma espécie de prova dada por Deus para que possamos pagar nossos pecados, é acreditar em um Deus sádico e vingativo. A mediunidade é uma ferramenta pela qual podemos ajudar e sermos ajudados, pela  qual podemos ouvir a sabedoria daqueles que há muito tempo se dedicam, também, à evolução moral e espiritual da nossa condição de encarnados.

Com a exceção de casos onde a mediunidade está fora do controle do médium, expondo-o aos joguetes de entidades de baixo padrão vibracional, nenhuma mediunidade causa dor, ou sofrimento antes, durante e depois.

Isso não quer dizer que para médiuns videntes, por exemplo, seja fácil lidar com a perturbação causada por visões espontâneas de espíritos, ou, em casos de empatas, que não sintam os baques das oscilações energéticas ao seu redor. Todavia, quando há o empenho do médium de conhecer, trabalhar e controlar, esses efeitos são amenizados. Além de um exercício constante para fortalecer o campo mental e o campo magnético pessoal, existem os preparos com ervas e amuletos, talismãs, patuás, rezas etc. que ajudam o médium a se manter menos suscetível e mais equilibrado.

Obs.: aliás, depois que a internet descobriu os “empatas”, é comum as pessoas usarem para justificar suas fragilidades emocionais. Lembro, ao ver esse fenômeno dos “empatas” diagnosticados pela internet, de pessoas que diziam-se sofridas pois tudo as afetavam involuntariamente dada a essa condição. Para esses, lembro da seguinte afirmação:

“— Um dia você perceberá que todo o universo pode ser encontrado dentro de você, e nesse dia você será um mago. O mago não vive no mundo; o mundo vive nele.”

Deepak Chopra

Incorporação: um processo independente da matéria?

Apesar de reconhecer a existência, sou reticente em relação às incorporações onde o médium apaga completamente. Eu vejo constantemente esse discurso sendo usado por uma necessidade do médium de afirmar sua incorporação como verdadeira, incapaz de ser influenciada por ele mesmo. Se a presença de consciência do médium invalida a mediunidade, deveríamos então dar nosso descrédito aos médiuns psicógrafos intuitivos, que em nenhum momento perdem a consciência durante a psicografia e mesmo assim transmitem mensagens de seres desencarnados? 

Durante o transe, a mente consciente está presente, mas em um estado mental diferente do habitual. Esse estado, inclusive, pode ser induzido sem a incorporação, mas desaconselho à prática por mera curiosidade. O médium, em muitos momentos estando incorporado, pode ver, ouvir, sentir, tal como se estivesse desincorporado. O que vai qualificar é o nível de comprometimento do médium para com a própria mediunidade (concentração, entrega, respeito etc.). 

Um médium que trabalha para ser exemplar, busca entregar-se à entidade, ouvindo mais o que ela tem a dizer do que pensando no que ela está dizendo. Se existe um apagão, ele é consentido. O médium se entrega e deixa que a entidade tome a frente nas palavras, ações, falas, gestos, e tão logo que perceba qualquer interferência sua, volta-se para o centro da entrega que é estar em comunhão com seu Guia. Ao desincorporar, o médium lembra de flashes como quando acordamos e tentamos lembrar de um sonho não nítido.

Quando não há essa entrega voluntária, vemos o animismo nas incorporações. Entidades falando absurdos, se envolvendo em assuntos menores, etc. E isso é mais comum do que se possa imaginar. Por isso, cabe ao médium controlar seus desejos, seus julgamentos e o desnecessário interesse na vida do consulente, durante a incorporação, para que a entidade seja ela própria através dele.

Então, não fique confuso se no seu começo vier aquela famosa dúvida “sou eu ou é o Guia?”, porque a resposta para ela é simples: se essa dúvida estiver presente, você estará presente. Quando você confiar em si, trabalhar o seu controle mediúnico e acreditar no trabalho que sua entidade tem a desenvolver com e através de você, aí será seu Guia. Você verá os feitos na vida de cada um que por ela passar, e o testemunho dessas pessoas comprovará a fidedignidade da sua incorporação. 

“Ninguém vem até a mim que eu não acolha o pranto, e que não saia com um sorriso de esperança.”

Caboclo Urubatão da Guia

Mais um pouco sobre incorporação 100% inconsciente

Eu acredito que é preciso perceber que estamos lidando com outro tipo de médiuns, incluindo os de incorporação. Os médiuns hoje não são mais de natureza simples, de pouco acesso à informação, como eram os primeiros médiuns de Umbanda por exemplo, muito menos os assistentes.

No começo da Umbanda, entidades andavam, incorporadas em seus médiuns, sob cacos de vidro sem cortá-lo, caminhavam sobre brasas, perfuravam o braço do médium com agulhas para comprovar que o mesmo não sangraria e nem sentiria dor, passavam a chama da vela no corpo sem queimar, desafiando o fogo… tudo para provar que ali era o espírito, algo sobrenatural e não natural. Eu entendo a importância desses movimentos para a época, mas hoje julgo desnecessário tais fenômenos.

Fazemos parte de uma geração amplamente informatizada, que será ainda mais no futuro. Em um mundo globalizado, isso amplia a consciência do que é o “aqui” e “agora”, a consciência do corpo, da mediunidade, da espiritualidade etc. Mesmo que em muitos casos os ditos sacerdotes pops na internet promovam um desserviço, basta uma pesquisa para saber “tudo” o que antes era preciso 21 dias recluso e uma vida dedicada ao sacerdócio para ser conhecedor do Sagrado.

Não se pode encaixar novas massas em velhos moldes, pois a nossa natureza é dinâmica. Há muito mais a se conhecer, mediunidades incríveis a serem descobertas e exploradas.

Conclusão

A mediunidade requer compromisso do médium em conhecê-la e trabalhá-la para o seu objetivo principal: ajudar aos que sofrem.

Como uma ambulância ajudaria no transporte de um enfermo se ela fosse instável e incontrolável? Você confiaria a sua vida à esse transporte, se percebesse isso? O mesmo serve para a mediunidade. E quanto mais o médium se desprende do misticismo, das alegorias e compreende o que acontece entre ele e os Guias que o acompanham, mais genuínos são os resultados na vida dos encarnados ou desencarnados.

Precisamos entender que não existe um mundo paranormal, ou seja, tudo está dentro da normalidade. Quando admitimos a espiritualidade nas nossas vidas, menos nos vemos reféns desses caprichos que mais buscam fidelizar seguidores e fazer o médium acreditar que está incorporado do que o comprometimento com a missão espiritual.

Há muito do seu guia em você e muito de você no seu guia, você já parou para pensar nisso? 

Nossa responsabilidade espiritual vai muito além do que achamos que podemos ir, e começa exatamente onde estamos neste momento.

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Aos que ficaram

Esses dias, pensei sobre o que deveria escrever do meu irmão Wagner Alencar, que desencarnou no último dia 09, vítima da COVID-19. Enquanto eu administrava a tristeza e a saudade, sabia que deveria essa homenagem a uma amizade ímpar que evoluiu, ao longo de 12 anos, para uma irmandade.

Textos assim não são fáceis. Embora consciente de que a morte não existe, o luto verdugo existe. Não esperava escrever no hoje sobre ele póstumo. Wagner conheceu o Gabriel aos 16 anos e foi, sem dúvida, o maior incentivador do Nivartan. Ainda quando minha missão espiritual não se expressava através de um nome — e práticas —, nem em um caminho certo; ainda quando eu cometia meus primeiros pequenos e grandes erros, ele dizia que me via como um iluminado — diante, claro, da minha feição de desaprovação —, e que por isso me amava.

O Professor, mesmo nos bares onde mais nos encontrávamos, onde nos despíamos das nossas funções sociais de emprego, família, religião, onde éramos apenas Wagner e Gabriel, me respeitava como espiritualista antes que eu desenvolvesse o entendimento e respeito pelo que isso significava. Esteve comigo nos momentos mais delicados da minha vida, como a morte do meu pai. Esteve no meu TCC, nos meus aniversários, natais, virada de ano, quando adoeci, quando sorri e quando chorei.

Mas enquanto pensava em tudo isso, e no ser humano que conheci, de personalidade forte, gentil, educado e generoso por natureza, vi que me ater apenas à tristeza e à indignação da partida seria ver somente um lado da moeda. Estando onde estou hoje, não posso retroceder ao deixar de acreditar que tudo tem uma explicação aos olhos de Deus, mesmo que eu não entenda.

Por isso, decidi que minha forma de homenageá-lo seria escrevendo não sobre ele somente, mas em função dele e do que sua vida e morte me ensinou.

Sua vida me ensinou que há pessoas que cruzam nossos caminhos não simplesmente para se tornarem conhecidos, ou amigos por quem desenvolvemos uma afeição. São verdadeiros mestres e protetores dos nossos sonhos ainda embrionários, assim como foi um dia minha condição de escritor e minha vida dedicada à espiritualidade. Tenho certeza que Wagner e eu já somos amigos de outras encarnações, como já lhe confessei algumas vezes em vida, e olhando bem toda nossa história vejo o quão cruciais foram suas palavras, atos e silêncios nos momentos delicados da minha caminhada.

Sua morte repentina me aproximou de mim. Fez-me despedir do último homem que conhecia o que eu sou sem as vestes do tempo. Me lembrou de que sou o único representante das minhas convicções e da crença em mim mesmo. Me fez lembrar que a única testemunha destes 12 anos passados, onde conheci a fonte para qual Nivartan sempre volta para tomar água pura, sou eu.

E com isso, quero dizer a todo aquele que por ventura esteja lendo esse texto: a vida continua para nós e para ele. A nossa neste plano desafiador, a dele em outro plano do qual não lembramos hoje, mas que inevitavelmente um dia retornaremos. Direcionarei para ele, assim como todos devem fazer, a gratidão, o amor, o respeito em forma de oração. Honraremos seus cuidados e sua história cuidando de nós mesmos, e daqueles que precisarem de uma palavra amiga como o Wagner nunca negou.

Devemos, não só por ele, mas pelas milhares de pessoas comprovadamente honradas que desencarnaram neste período, vítimas da COVID-19 ou não, nossos mais sinceros votos de gratidão. Tenho certeza que eles receberão, tenho certeza que quando o Wagner despertar ficará muito feliz ao ver que só existe vida, na memória, na saudade, na gratidão.

Meu amigo, meu irmão, quando você cantava a música “Medo da Chuva” do Raul Seixas ao me ver chegar com o violão no bar, hoje eu entendo e por isso também te agradeço.

Eu perdi o meu medo da chuva.

In memoriam de Wagner Alencar

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Adeus, a Deus

Escrevo para todos aqueles que — indiferente de quando ou de onde — escolheram partir para um destino incerto, embora tenham certeza dos motivos que os levaram a partir. Sei que após o fim de uma história vivida o futuro assusta, pois a maior parte do que conhecemos de nós mesmos fica no que equivocadamente nomeamos “passado”, e nos perguntamos: para onde vai o que nem sabemos que podemos ser?

Passei por isso há alguns anos, não por escolha, pelo menos não enquanto encarnado. Hoje, compreendo minha partida e divido essa compreensão não como quem chegou a algum lugar, mas como alguém que entende que todo fim é o começo de um novo amanhã possível.

Devo graças ao preto-velho Pai Cipriano de Angola, cujas falas serenas afagaram meu coração e motivaram meus passos à época. Inspirado nesse que foi e continua sendo meu Guia, decidi dividir com você, que agora caminha com seus próprios pés, o que vim a ter de alguém que torcia por mim: a bênção.

Que seu corpo seja o Templo, movido pela honra dos seus valores e princípios. Que você possa alicerçar suas colunas sob as bases sólidas do amor. Que entenda o que é necessário carregar do que foi vivido para fazê-lo sempre presente: os sorrisos, os abraços, as alegrias e as trocas. Já o que considerar ruim, que seja o seu material de estudo para que nada disso possa ser reproduzido por você, com quem por ventura desejar descansar sobre o seu teto.

Que sua mente seja o seu Altar, onde repousarão as imagens dos teus santos e santas, encarnados e desencarnados. Onde acenderá a luz de uma vela eterna que ficará cada vez mais forte, até iluminar teus passos nos momentos de escuridão. Que seu altar seja alimentado com coragem, com esperança e com a crença de que quando se é nobre, nenhum trabalho é em vão.

Que seu coração seja a morada da Justiça e do Perdão àqueles que não te entenderão. Que você possa dar o peso correto a tudo que lhe chega, mesmo que não solicitado, sobre “o melhor caminho”. Que você jamais esqueça de fazer justiça a você mesmo(a) e a perdoar-se para que possa recomeçar e fazer melhor.

Por fim, que suas mãos construam o que é bom e seus pés te guiem para o bem. Que suas mãos sejam caridosas, trabalhadoras e principalmente jamais usadas para agredir — inclusive a você mesmo(a). Que seus pés estejam alinhados com seus valores e princípios, porque uma vez que se assume “mestre de si” ninguém mais é responsável pelo que tocam suas mãos ou por onde caminham seus pés, se não você mesmo(a).

Aos zeladores de suas histórias sagradas, adeus, pessoal. A Deus os teus novos caminhos.

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Dia de Ogum e São Jorge

Hoje, 23 de abril, comemora-se o dia de São Jorge, santo Católico sincretizado com Ogum, o Orixá das guerras, do aço e da tecnologia. Ambos são distintos nas histórias que alimentam sua devoção e têm suas origens em povos diferentes também. São Jorge é cultuado pelos Cristãos, Ogum pelos povos de nações africanas e por religiões que foram influenciadas por suas matrizes, como a Umbanda e o Candomblé. E o que têm em comum? O sincretismo e a fé do povo brasileiro.

São Jorge é Ogum?

Para que possamos conhecer melhor São Jorge, o Santo Católico, tomamos por base um breve resumo dos relatos de sua vida no século III, onde logo na adolescência, iniciou a carreira militar e logo foi promovido a capitão do exército romano. Aos 23 anos passou a fazer parte da corte imperial, exercendo a função de Tribuno Militar. Ao ter conhecimento dos planos do imperador Diocleciano de matar todos os cristãos, revoltou-se.

Jorge distribuiu toda a sua riqueza aos pobres e permaneceu fiel a fé cristã. O imperador mandou matá-lo no dia 23 de abril de 303. Os relatos de seu martírio contam que mesmo torturado e forçado a caminhar sobre brasas, Jorge não sentia dor e que não se importou em ser enterrado vivo. A última ação dos soldados foi a de degolá-lo. Dizem ainda que diante de tamanha resistência, a mulher do próprio imperador teria se convertido ao cristianismo.

Ogum, na religião iorubá, é citado como o primeiro orixá a descer ao reino de Ile Aiye (“Terra”), com o objetivo de encontrar uma habitação adequada para a futura vida humana e, consequentemente, recebe o nome de Oriki ou Osin Imole, que significa o “primeiro orixá a vir para a Terra.” Foi provavelmente a primeira divindade cultuada pelos iorubás.

Considerado senhor do ferro, da guerra, da agricultura e da tecnologia, Ogum era o filho mais velho de Odudua. Este último era o rei fundador da cidade de Ifé, e Ogum assume o título de rei regente da cidade quando seu pai perde momentaneamente a visão.

Sincretismo Religioso

Quando os primeiros povos africanos chegaram ao Brasil, trouxeram consigo as crenças nas suas divindades, os Orixás. O catolicismo impunha sua doutrina religiosa, e aqueles que não aderissem ao cristianismo e abrissem mão de suas crenças, eram severamente punidos ou mortos. Por conta disso, os escravizados se ajoelhavam para imagens católicas, despistando a atenção dos escravistas, mas em suas mentes rezavam para o seu Orixá. São Jorge, pela sua história de guerreiro incansável, batalhador, que possui uma espada e uma lança, facilmente foi associado a Ogum.

Dessa forma, Ogum pôde estar no altar do escravizado vestido com as armas de São Jorge.

A maior parte dos terreiros de Umbanda, sendo uma religião que tem grande influência das duas matrizes (cristã e africana), adota o sincretismo. Por isso, é comum nos terreiros observarmos no altar a figura do Santo Católico.

Vale lembrar também que não é só por conta do sincretismo, mas que, para serem aceitos na época em que os terreiros eram invadidos pela polícia, seus assentamentos depredados e os Babalorixás presos sob acusação de praticar feitiçaria, ter imagens de Santos Católicos eu seus altares, assim como o nome “Tenda Espírita” e o nome de Santos Católicos para registrar o terreiro (Ex.: o terreiro da Mãe Elza, que se chamava Tenta Espírita Maria da Conceição do Mar) tentava uma tolerância para existirem (e resistirem) às elites brancas, que em grande parte eram cristãs.

A quem devemos culto?

Devemos, acima de tudo, respeitar as tradições de cada indivíduo, para não violarmos o direito universal  que cada um tem de manifestar, como queira, a sua fé. Ter consciência de que uma divindade não é a outra, ou mesmo que se tratam de verdades relativas e não a luz primordial da questão, não anula o direito de sentir-se representado por Ogum, através de São Jorge e vice e versa. O mais importante hoje é a manifestação da fé. A esperança de que esses grandes guerreiros nos ajudem nas batalhas que precisamos vencer.

Cultuem seu Ogum, seu São Jorge, cultuem a fé nos dias melhores, cultuem essa grande força, esse caminho que leva nossos pedidos até Deus. Que São Jorge nos ajude a vencer o Dragão do Ego e da Ignorância, que Ogum nos ajude a vencer as demandas!

Salve São Jorge! Ogunhê meu pai! Patacorí Ogum! Salve a fé!

Corpo

Conheci o que era enxaqueca recentemente. Até então eu só tinha tido dores de cabeça comuns, daquelas que um analgésico, meia hora de olho fechado e um copo d’água resolvem. Mas aí eu tive uma enxaqueca, e hoje sei que se trata de um extremo desconforto na região da cabeça acompanhada de náusea e a sensação de ‘’o que está rolando aqui, eu não estou entendendo nada, alguém me ajude’’, uma perda total de qualquer tipo de controle.

Acontece que há meses tenho tido dias muito parecidos, pouco ritualizados, corridos, cheios de preocupação, com o agravante de não ter a amenidade gostosa de encontrar amigos, tomar um sorvete ou uma cerveja depois do expediente, ir à praia, nadar, brincar de pegar jacaré em onda, ir para a academia ou qualquer atividade amena que seja, que antes estavam presentes com facilidade no meu dia a dia.

“Mas isso aconteceu por uma boa causa, na busca por autonomia”, eu dizia para mim mesma como se eu pudesse me enganar. O problema é que eu tinha entendido tudo errado, achava que a via de satisfação mais genuína no meio desse caos que foi o ano de 2020 e o primeiro semestre de 2021 viria através da exploração do meu potencial criativo. Eu realmente usava essa expressão – eu preciso explorar o meu potencial criativo! Isso significava que eu ia passar muito tempo do meu dia na frente do meu computador navegando em softwares de criação, trabalhando muito, ouvindo podcasts dentro do recorte temático da minha área de atuação, buscando referências, lendo sobre criatividade, buscando cursos e etc., ‘’afinal, existem muitas formas de aprender as coisas’’.

Parece legal explorar, desbravar, conhecer o seu lado profissional e as coisas que se gosta muito de estudar, mas esquecer da manutenção diária dos pequenos rituais do corpo físico que abrem espaço nos nossos corpos sutis pode ser muito doloroso, principalmente quando se vive uma pandemia de covid-19 em um país onde o presidente manda que comprem fuzis aos que cobram por comida e saúde.

Por mais que eu tenha acendido uma vela ou outra, rezado quase todos os dias, meditado antes de dormir, o meu corpo não estava dançando, nem se alongando, muito menos correndo, levantando peso, brincando, brindando…

Comecei e vou retornar para minha enxaqueca:

  • Notei que gosto muito de falar das minhas dores. É como se elas diminuíssem.
  • Muito me intriga o fato de que a dor pode ser uma via de contato com o corpo, como se ele chamasse atenção.
  • Ultrapassar a linha da superfície da dor e procurar outros estímulos virou a minha prioridade.

Percebi que o corpo monotemático, corpo entediado, corpo sem criatividade, corpo que não tem tesão pelas coisas que antes sentia desejo é um corpo fácil de manipular, um corpo facilmente adaptável ao que se impõe. Corpo que não sabe buscar outras formas de existir, senão aquela da obrigação. Afinal, ele está com dor, cansado, sonolento, sem capacidade de concentração e articulação das próprias potências.

Várias queixas, vários incômodos. E eu não conseguia romper a linha do que já estava no script. O meu corpo precisou de outros estímulos, o meu corpo pediu, brutalmente através da enxaqueca, para que eu voltasse a fazer o que eu gostava e até descobrisse que gostava de outras coisas. A carta do ‘’Pendurado’’ no Tarot me perseguiu por uma semana. Em vários dias seguidos ela surgia e eu senti o que Tarot queria me falar. Foi igual quando fiz a minha primeira aula de Kundalini Yoga e consegui ver a varanda da minha casa de cabeça pra baixo. Algo muito sutil dentro de mim gritou: É ISSO! Desde então tenho tentado, quase todos os dias, mexer o meu corpo.

Seja através do Yoga, seja numa caminhada, ou uma pausa que eu tiro para pular corda ou ir ali encontrar uns amigos para tomar um banho de mar ou fazer um aerohit na frente da televisão… parar, respirar, mover meu corpo porque ele pede nem que seja um pouquinho – para além da competição e do mundo fitness – tem aberto um espaço que eu já reivindico há muito tempo. O espaço das coisas materiais. O espaço do dia a dia.

Uma vez uma colega da turma de Tarot disse que – às vezes parece que a gente está tão fissurada pelo plano das ideias, que esquece que o nosso lugar de atuação é o eixo material. Existe a vida, existem as pessoas ao redor que quase nunca estão na mesma frequência mental que você, não tem as mesmas ideologias e isso deixa o espaço material um pouco mais denso.

É como se as nossas ideias não acompanhassem o ritmo da Terra, do espaço físico. E eu tomei isso como um insight para o corpo. A atenção para com esse corpo material é urgente. Ele é a principal via de conexão com as nossas potências mais sutis. A ativação é real, os yoguis sabiam disso e a gente precisa saber também. Não para que todo mundo vire yogui, mas para que a gente saiba abrir espaço dentro de si de acordo com as nossas ferramentas. Sejam elas a dança, a caminhada, o banho de mar, a arte marcial, o muay thai, a pedalada, a escalada, o alongamento, a subida e descida de escada, que seja.

Talvez pareça estranho um texto que beira um manifesto da liberação corporal num blog de espiritualidade, mas acredito que a nossa ligação principal com as camadas mais sutis da nossa consciência vem através do movimento corporal presente, da respiração ritmada e da percepção dos nossos pulsos vitais. Na Umbanda a gente dança, gira, engata o corpo num fluxo de movimento que eu posso chamar de meditativo, outras religiões fazem isso também, eu tenho certeza que vocês lembraram de um ou outro trabalho ritualístico em diferentes templos onde o movimento do corpo é quem dita o Tempo de entrada e saída das coisas.

As casas de feitura mais tradicionais e menos exploratórias, sejam elas de farinha, melado ou beberagem, tem no ritmo dos trabalhadores o compasso perfeito para criação, a meditação coletiva necessária para gerar a alquimia exata do ponto, do sabor, da textura. O nosso corpo sabe disso, a gente esquece e, por isso, às vezes adoece. Adoece tentando abrir um espaço mental com mais coisas mentais, adoece porque esquece de respirar, adoece porque oferece sempre os mesmos estímulos com pouca circulação, pouca abertura e pouca elasticidade e quase nada de suor. O suor, eu gosto muito dele, lembra de banho de mar, lembra descarrego, lembra transe.

Que assim como o nosso espírito, o nosso corpo possa ser lembrado, valorizado, nutrido, amado, respeitado e principalmente movimentado para que a gente não precise descobrir o que significa enxaqueca, derrame, olhos tremendo, coluna fraca e outras mazelas tão comuns em pessoas cada vez mais jovens. Precisamos estar fortes e movimentados para fazer as nossas pequenas revoluções do dia a dia e lutarmos para exercer a nossa individualidade e nossa potência inclusive espiritual neste mundo.

Axé.


Beatriz Câmara

Graduada em arquitetura, tenho o design como ferramenta para desenvolvimento de projetos de identidade e comunicação visual. Além disso, me considero estudante da imagem e busco no desenho das coisas uma maneira de falar e me projetar no mundo. Como isso não é suficiente, gosto de dizer que eu também sou o meu corpo e a reverberação das coisas que ele pede pra eu fazer.

Cartas para a pandemia

Durante o primeiro ano da Pandemia, em 2020, muitas questões surgiram para mim. Medos, angústias, dúvidas…, naquele momento onde estávamos isolados precisei externalizar aqueles sentimentos. Foi então que decidi começar a criar as “cartas para a Pandemia”.

Essas cartas são recortes meus, são minhas narrativas durante aquele período isolada. A partir de mim e da minha história criei e me (re)criei através de uma escrita intuitiva, assim como as pinturas que também fiz naquele período. As palavras que escrevo nessas cartas, além de retratar esses sentimentos, também falam da minha espiritualidade. Sem dúvidas, a arte da pintura, da escrita e da espiritualidade estiveram em todo momento ao meu lado.

Por isso nunca me senti sozinha, mesmo estando isolada.


Um tempo longe de mim

Sempre ou quase sempre me senti desconhecida a mim mesma. Aí me achei, me encontrei, me cuidei, me respeitei, me permiti e mergulhei. No começo eu me assustei, pois o mergulho foi profundo e, em alguns momentos, resisti em ter que pegar ar. Sou muito desconfiada, e estava desconfiando até de mim, se seria capaz de mergulhar em mim. Enfim: mergulhei, me afoguei e finalmente me encontrei. E então foi um dos encontros mais
lindos que vi, vivi e senti. Foi maravilhoso estar comigo! Fiquei tão encantada, que não
queria mais sair de lá.

Aprendi a viver debaixo d’água. Logo eu, tão racional e “mercuriana”. Não à toa sempre sonhei muito com água e animais marinhos. Meu inconsciente, sempre tão generoso comigo, estava querendo me mostrar e me apresentar o meu fundo do mar. O mergulho foi tão bom que de lá surgiram tantas criações e recriações!


Nudez artística através de palavras

Nem sei muito bem o que aqui faço e escrevo. Vão ser palavras soltas e talvez perguntas sem respostas. Usarei esse momento para vomitar palavras provavelmente sem muitas vírgulas. Cinquenta dias de isolamento social: pessoas, milhares morrendo. Não sei o que está acontecendo.

Mas aí eu pinto. Nem sei dizer por que eu pinto, desenho, escrevo. Meu corpo matéria não suporta tantas sensações, são muitas: são ondas de sentimentos que não param. Uma onda atrás da outra. Afogo-me em mim mesma e nos meus sentimentos e pensamentos. Nem sei por que pinto, mas é aqui o momento em que me encontro, em que me esqueço do racional, em que me esqueço do que tem lá fora e me observo.

A arte me transmite paz, me proporciona calma, aconchego, silêncio. A minha companhia enquanto pinto é a minha melhor sensação. Estar com a Renata que desenha, pinta e escreve é a minha alma crua e nua! É uma transparência.


Sinto e Pinto

Às vezes acho que não sei por que pinto, mas parece que venho compreendendo cada vez
mais: pinto e crio porque é aqui o meu lugar, são encontros comigo mesma. Sou eu aqui. Sou eu com todos os sentimentos que uma alma humana possui. Possuo-me artisticamente. É aqui o mais profundo do meu ser, Ser. Minhas máscaras caem. O mais louco? Que ninguém, absolutamente ninguém me conhece assim. Apenas eu me conheço dessa forma. É o todo de mim que aqui está. Conheço-me, me recrio, me encontro, me sinto através da arte. É por isso a arte! Nem sei como cheguei até aqui. Cá estou por completo nua e crua!

Não sei muito bem por que pinto. Apenas sinto. Meu Ser pede a arte. Apenas expresso. Pinto por respeito a mim e aos meus. Encontro na arte aconchego.


Eparrey!

Obs.: texto realizado junto à criação de uma pintura após um momento meditativo em que a
angústia estava “tomando conta de mim”.

O barco, quando está no mar, aos poucos encontra o eixo, a corrente para seguir. Porém, algumas vezes o ar sopra, mudando o eixo e fazendo com que o marinheiro precise reencontrar o caminho.

Pode ser difícil, cansativo ter que se reorganizar. Mas é necessário. Iansã não sopra à toa. Às vezes achamos que o melhor caminho é esse.

E aí Ela ajuda a rainha das águas a mostrar que talvez outro caminho seja melhor ou que é necessário mesmo dar uma “assopradinha”.

O marinheiro nunca tem ponto de chegada. Ele tem pontos de passagens. E se, em algum momento, tiver um ponto de chegada definitivo é porque o trabalho do marinheiro encerra ali.

Por isso nunca trabalhe apenas com o objetivo de finalizar, porque o trabalho deve continuar, é sempre passageiro, tudo muda. Uma hora tudo muda.

É necessário mudar de eixo e ter paciência quando a ventania mudar a direção, porque nunca é à toa quando a rainha dos ventos se junta com a rainha do mar.

Odoyá! Eparrey!

  • Título da pintura: Eparrey!
  • Artista: Renata Mota
  • Ano: 2020

Escrito por Renata Mota


Renata Mota

Psicóloga junguiana, pesquisadora e artista. Minhas pesquisas envolvem arte, processo criativo e narrativas como meio de criação-compreensão de si mesmo. Minhas pinturas surgem de um lugar muito íntimo, que eu conheço como inconsciente, e também por meio da minha espiritualidade.

Tarot

Há algum tempo penso em escrever sobre o Tarot, essa magnífica ferramenta que nos possibilita não somente a comunicação entre o plano material e imaterial da existência, como também provoca a expansão da consciência para aquele que consulta seus arquétipos. 

Pensei — assim como muitos de vocês sobre esse texto quando se depararam com o título — em trazer sua história, iconografia, modelos de baralhos, significados dos Arcanos e possíveis métodos. Porém, basta uma busca na internet para que essas dúvidas sejam amplamente esclarecidas. Venho, como em quase todo conteúdo do meu blog, dar a minha perspectiva sobre o Oráculo a você que dedica um pouco do seu tempo à leitura dos meus textos e ao estudo do Esoterismo.

Tarot ou Rota


O Tarot, tradicionalmente, é um jogo que reúne 78 cartas que podem ser divididas entre os Arcanos Menores (Naipes de Espadas, Copas, Ouros e Paus) e os Arcanos Maiores (do 0 – O Louco ao 21 – O Mundo). Os Arcanos Menores trazem em sua essência uma visão horizontal da consulta, das coisas humanas, visto que é fundamentado nos quatro principais elementos da matéria: Fogo – Paus,Terra – Ouros, Água – Copas, Ar – Espadas. Os Arcanos Maiores, por sua vez, essencialmente buscam a comunicação vertical, ou seja, lidam com os aspectos diretamente relacionados à expansão da consciência.

O Oráculo possibilita escolher onde se aprofundar, se somente nos Arcanos Menores ou somente nos Maiores, embora muitos acreditem que dominar o jogo com as 78 cartas seja o ideal para uma visão completa. Eu acredito que cabe ao oraculista escolher, com base na sua afinidade, em quais Arcanos se aprofundar, e isso vai depender de inúmeros aspectos que formam o oraculista. Apesar de conhecer as 78 cartas, me aprofundei no estudo dos Arcanos Maiores por afinidade e por ser esse o método utilizado pelo meu mentor.

Na tradição do Terreiro onde fui iniciado, a Seara de Oxalá – Casa de Xangô, sob a direção do Babalorixá Pai Orion de Xangô, o Professor Orion, que praticava a Umbanda Esotérica, um bom oraculista era formado com base em uma profunda reflexão em cima de cada Arcano, assim como um rito de iniciação. Nos seus fundamentos, a leitura correta exigia estudo e prática supervisionada por um oraculista experiente, como discípulo e Mestre, até que o neófito se sentisse seguro para consultar sozinho.

Hoje, 13 anos após a minha iniciação, compreendo o privilégio que foi ter como mentor um oraculista renomado, com mais de 30 anos de experiência. Entendo e tenho um profundo respeito pelos motivos que o levaram a crer em seus fundamentos, mas com o tempo decorrido, considero a iniciação no Tarot opcional, uma vez que a relação criada entre o Tarot e o oraculista transcende a religiosidade ou um mestre físico. Muitos conhecem o tarot de forma aleatória e com base no próprio desenvolvimento de si ao lado das cartas, torna-se excelente em sua leitura. O Tarot é o amigo dos Grandes Magistas, das Grandes Bruxas, não pertence às religiões, e por isso é um oráculo tão eficaz.

O Tarot e a Adivinhação

O Tarot é, em uma linguagem esotérica, um conjunto de símbolos que possibilitam ao oraculista, dentro do contexto consultado, refletir, investigar, sentir e, por fim, interpretar a mensagem correta revelada pelo Arcano. Durante uma consulta, as inúmeras energias que circulam o Oráculo, o oraculista e o consulente, são captadas pelo Tarot a fim de que o Arcano puxado do baralho seja exatamente aquele que inspira e conduz à elucidação das questões.

Devemos lembrar que existem, também, espíritos que são Guardiões ou Regentes da magia e suas práticas. Por isso, é possível que para cada Oraculista, durante sua dedicação ao estudo e prática do Tarot, sendo comprovada sua habilidade mediúnica, aproxime-se por afinidade um mentor do mundo espiritual disposto a ajudar na leitura e na compreensão do Tarot. 

Portanto, o Tarot não é um jogo de acaso, onde cada carta traz um significado genérico que pode ser aplicado em qualquer circunstância da pergunta, mas uma chave para abrir as portas do inconsciente, transpondo às limitações da racionalidade humana. Crer que seu uso aplica-se unicamente à adivinhação é defender uma visão limitada. Usá-lo para a adivinhação é profaná-lo.

É por isso leitor, que divido seus praticantes entre Tarólogos, Cartomante e Adivinhos, e Oraculistas.

Tarólogo

O tarólogo — ou Taróloga —, simplesmente é aquele que consulta o Tarot. Sabe seu significado com base na ampla literatura literária disponível. Conhece cada arcano como quem decora páginas de um livro de poemas. Portanto, toda vez que o Arcano 12, O Pendurado, sai na jogada, ele sabe que representa sacrifícios. E assim se conduz o seu jogo com respostas simplesmente reproduzidas.

Cartomante ou Adivinho

Esse, ao meu ver, é o tipo mais comum e prejudicial para imagem do Tarot, porque perpetua ao vulgo a ideia de que trata-se de uma farsa para extorquir dinheiro de pessoas fragilizadas ou emocionalmente abaladas. Uma simples leitura do tipo de consulente (se chega em um carro do ano, que tipo de roupa veste, se é uma mulher bonita, se é um homem com aliança) define a leitura que será realizada.

Tem em seu repertório perguntas vagas, como: 

— “Eu vejo aqui que você está desestabilizado/a”. 

Ora, se a pessoa procurou uma/um cartomante, em grande parte dos casos algo não está bem, concorda? 

Outra frase comum é: 

— “Vejo conflitos familiares”. 

Mais uma vez pergunto: quem vive em plena harmonia com seus familiares? Quem, em tempo integral, não se aborrece com o convívio tão estreito como é em família?

Com perguntas assim, esses charlatões induzem o consulente a acreditar na leitura, que é infinitamente rasa e criminosa.

Outra falácia comum é: 

— “Essa informação pode servir para o passado, para o presente ou para o seu futuro”.

Então, nesse exemplo, para quê serve a consulta? Procura-se um oraculista porque se quer ouvir o que o Tarot tem a dizer. Não é o consulente quem deve encaixar a leitura das cartas à própria vida, seja em qual momento for. 

Desta forma, consultas e trabalhos cada vez mais caros são recomendados para sanar o problema apresentado pelo adivinho. Por fim, o consulente lesado, após a realização dos trabalhos, sai muito satisfeito achando que sua vida melhorou, quando na verdade ela nunca esteve ruim. A/o cartomante resolveu um problema que nunca existiu, por isso ela/ele é tão bom. 

São casos assim que me tornam resistente a novos baralhos que trazem, na minha concepção, símbolos e significados rasos. Em um deles, que tive acesso recentemente, vi um “arcano” chamado “A chave”. Sua explicação óbvia se encaixa em qualquer circunstância: “é preciso encontrar a chave que destranca essa fechadura / Você tem a chave para destrancar a fechadura”. 

Vamos à prática:

Consulente: — “Minha vida não tá indo pra frente. Tudo que eu tento não tenho sucesso. 

Pode ver no “tarot” o que pode ser?”

Cartomante: — Olha, A Chave diz que sim, está trancado, mas você tem a chave para destrancar a fechadura.

Consulente: — Mas eu já tentei de tudo!

Cartomante: — Nós podemos realizar um trabalho simples, eu não cobro caro, porque pelo que vejo aqui, o quanto antes é preciso encontrar a chave que destranca essa fechadura.

Ou seja, se você tivesse lido essa interpretação em um biscoito da sorte, ainda teria mais proveito, já que apreciaria o saboroso biscoito.

Para aqueles que acreditam que o Tarot prevê o futuro, sinto muito dizer que ele não o faz. O futuro pertence a uma malha de infinitos caminhos, é impossível prever. O que se pode, claro, é sondar as pistas dessa malha e buscar ler o que o Arcano diz a respeito do futuro, são situações diferentes. Isso abordarei em outro texto.

Oraculista

O/a oraculista é aquele que acima de tudo respeita seus princípios internos, o Tarot e seu consulente. É quem compreende que o consulente muitas vezes está fragilizado e que nele vê a possibilidade de uma ajuda, de uma orientação, e que por isso não espera ser molestado. 

É quem sabe que o Tarot é infinito em suas leituras e que por isso pode se apresentar de inúmeras formas dentro da consulta, mas seu método, embasado em amplo estudo e na sensibilidade mediúnica, o faz responder as perguntas com base no que o Tarot diz, independente se a mensagem faz sentido ou não naquele momento, já que não há o compromisso de agradar, converter, manipular ou fidelizar clientela.

O/a Oraculista fala com as cartas, não é ele quem conduz a conversa. É o Tarot, o tempo todo. A habilidade do oraculista conduz ao esclarecimento, não ao aprisionamento do medo. Ninguém consulta um oráculo para ficar mais confuso do que antes de consultá-lo.

O oraculista é alguém comprometido com uma leitura clara e objetiva. Conhece que o Arcano 12, O Pendurado, simboliza possivelmente sofrimento, mas sabe orientar e dizer que há no número 12 um Arcano oculto, proveniente da soma 1+2, que é o 3, A Imperatriz. Com isso, lembra que a mulher sofre dores terríveis no parto para gerar a luz do sorriso de uma criança. Portanto, o sofrimento é passageiro se visto sobre novas perspectivas, e um amanhã virá certamente cheio de ternura em caminhos férteis. 

Por fim, o Oráculo faz o Sacerdócio do/da oraculista quando ele zela por seus fundamentos.

Todos podem ler o Tarot?

Hoje, pergunto-me o que seria de mim sem o Tarot no momento de transição entre a morte do meu primeiro Babalorixá até o Templo Guaracy. Foi justamente nesse período, onde me encontrava extremamente desestabilizado emocionalmente e impossibilitado — dada a minha fragilidade — à comunicação clara com meus Guias Espirituais, que me aprofundei no uso do Tarot para autoconhecimento. Antes de tudo, o Tarot foi meu Guia e a ele peço benção.

Nas cartas, nunca adivinhei nada do que viria. À época, muitas vezes saiu nas leituras o Arcano 9 – O Eremita, arcano também regente do ano de 2016 (2 + 0 + 1 + 6 = 9). Refletindo sobre todas as vezes que o Eremita me visitava, percebi que aquele ano seria de encerramento de muitos ciclos (fim de um namoro, a morte do meu pai e Pai de Santo, a demissão no trabalho, o encerramento da Seara de Oxalá etc… tudo aconteceu em 2016, o ano 9), que seria preciso cobrir-me com o manto do Eremita, apoiar-me no cajado da fé e seguir com a lanterna iluminando meus pequenos passos em meio à escuridão. Só assim, ao se encerrar esses ciclos, novos caminhos puderam ser trilhados por mim.

Como dito anteriormente, a leitura requer interesse, estudo, prática e quem conseguir fazer com amor certamente será um/uma grande oraculista. Cabe aos seus interesses dizer como o Tarot se revelará para você. Isso porque se você é uma pessoa voluntariamente limitada, a abertura do Tarot também será limitada aos seus interesses. Assim nascem os/as adivinhos.

Entretanto, se você se compromete com a espiritualidade, entende o Tarot como uma poderosa ferramenta de auxílio a sua caminhada espiritual, usa-o para questões transcendentais resistindo a tentação de perguntar sobre suas paixões terrenas, zela por ela filtrando seu uso para novas possibilidades, digo a você: assim nasce um/uma oraculista.

Indico fortemente o estudo do Tarot e o que ele tem a oferecer. Uma grande amizade pode se formar entre você e os 22 caminhos do destino, e quem sabe você não possa ajudar também alguém em um futuro breve?