Adeus, a Deus

Escrevo para todos aqueles que — indiferente de quando ou de onde — escolheram partir para um destino incerto, embora tenham certeza dos motivos que os levaram a partir. Sei que após o fim de uma história vivida o futuro assusta, pois a maior parte do que conhecemos de nós mesmos fica no que equivocadamente nomeamos “passado”, e nos perguntamos: para onde vai o que nem sabemos que podemos ser?

Passei por isso há alguns anos, não por escolha, pelo menos não enquanto encarnado. Hoje, compreendo minha partida e divido essa compreensão não como quem chegou a algum lugar, mas como alguém que entende que todo fim é o começo de um novo amanhã possível.

Devo graças ao preto-velho Pai Cipriano de Angola, cujas falas serenas afagaram meu coração e motivaram meus passos à época. Inspirado nesse que foi e continua sendo meu Guia, decidi dividir com você, que agora caminha com seus próprios pés, o que vim a ter de alguém que torcia por mim: a bênção.

Que seu corpo seja o Templo, movido pela honra dos seus valores e princípios. Que você possa alicerçar suas colunas sob as bases sólidas do amor. Que entenda o que é necessário carregar do que foi vivido para fazê-lo sempre presente: os sorrisos, os abraços, as alegrias e as trocas. Já o que considerar ruim, que seja o seu material de estudo para que nada disso possa ser reproduzido por você, com quem por ventura desejar descansar sobre o seu teto.

Que sua mente seja o seu Altar, onde repousarão as imagens dos teus santos e santas, encarnados e desencarnados. Onde acenderá a luz de uma vela eterna que ficará cada vez mais forte, até iluminar teus passos nos momentos de escuridão. Que seu altar seja alimentado com coragem, com esperança e com a crença de que quando se é nobre, nenhum trabalho é em vão.

Que seu coração seja a morada da Justiça e do Perdão àqueles que não te entenderão. Que você possa dar o peso correto a tudo que lhe chega, mesmo que não solicitado, sobre “o melhor caminho”. Que você jamais esqueça de fazer justiça a você mesmo(a) e a perdoar-se para que possa recomeçar e fazer melhor.

Por fim, que suas mãos construam o que é bom e seus pés te guiem para o bem. Que suas mãos sejam caridosas, trabalhadoras e principalmente jamais usadas para agredir — inclusive a você mesmo(a). Que seus pés estejam alinhados com seus valores e princípios, porque uma vez que se assume “mestre de si” ninguém mais é responsável pelo que tocam suas mãos ou por onde caminham seus pés, se não você mesmo(a).

Aos zeladores de suas histórias sagradas, adeus, pessoal. A Deus os teus novos caminhos.

Demanda

É meia-noite. Depois da encruzilhada, a rua de terra batida leva ao barracão iluminado por velas pretas e vermelhas. Os tambores tocam uma sequência lúgubre, os tabaqueiros entoam cânticos que fazem os cães latirem ferozes. Aviso que não adianta fazer o sinal da cruz, no barracão existe um outro maioral. 

O frio é aquecido por marafo. A penumbra formada pela fumaça do charuto, dos cigarros e dos incensos , mascara o cheiro de carniça. O bode berra, sabe que é chegada a hora. Em um alguidar de barro repousa uma foto dentro de um coração atravessado por pregos. 

A lâmina afiada encontra a carne macia. O sangue do animal banha todos os elementos. A cabeça, mesmo separada do corpo, continua berrando. O cães param de latir. Os tambores silenciam, só o bode berra. Está feito. Ele chegou para receber a paga e fazer seu trabalho.

Essa deve ser a imagem que vem à cabeça das pessoas quando se fala de demanda. E isso existe — em rituais ainda mais macabros —, mas a demanda pode ser muito mais sutil do que imaginamos. Inclusive, você pode estar, sem saber, demandando todos os dias contra alguém por não ter a dimensão disso. 

Já pensou na responsabilidade que você tem sobre isso?

Demanda Mental

Subestimamos o poder da mente e do magnetismo individual de cada indivíduo. A capacidade de concentração, de mentalização e projeção independem dos nossos conceitos corporais de “forte” ou “frágil” — Aliás, quando se trata de manipulação energética,  naturalmente desconfio mais dos discretos do que dos alarmados. Desconhecemos a capacidade de demandar contra alguém como se esta fosse exclusiva a um feiticeiro, a um quimbandeiro, a um “pai de santo”, como se um evangélico ou um católico, por exemplo, não pudessem realizar demandas — falarei sobre isso mais adiante.

Se analisarmos o significado da própria palavra “demanda” observamos que trata-se da manifestação de um desejo, de um pedido ou de uma exigência. Demandar contra alguém, então, é projetar uma vontade, um desejo, uma energia específica com determinado fim. 

Imagine que sempre que você pensa em alguém, inevitavelmente é direcionada para essa pessoa uma energia equivalente ao que você pensou. Então, se você lembra e fala dela com carinho, é essa a energia que é projetada pela sua mente. Caso contrário, a mesma energia da raiva, do rancor, do desprezo, também é direcionada a quem é vítima de nossas antipatias. 

Sabemos que as energias se diferenciam pela vibração. As positivadas vibram mais intensamente, promovendo o que chamamos de alto padrão vibracional. Já as mais densas, vibram de maneira equivalente, promovendo um baixo padrão vibracional. Assim, podemos afirmar que o sentimento simpático direciona uma energia que enaltece o indivíduo quando ela o encontra, porque soma ao mesmo. Já o sentimento antipático o deprecia, uma vez que consome a energia do ser em questão.

Essa energia criada se condensa em uma egrégora que não se desfaz até encontrar o seu destino. No caso das demandas mentais, a frequência com  que fazermos essas projeções e, também, a quantidade de indivíduos participantes, influencia diretamente na sua intensidade. É por isso que existem pessoas que se odeiam por uma vida inteira, porque ambos, sempre que se lembram do outro, projetam o ódio, o rancor, e isso alimenta essa egrégora aprisionadora.

Disse anteriormente que costumamos atribuir às demandas aos feiticeiros, mas quando uma mãe coloca o nome do seu filho nas intenções de uma missa, por não querer que ele realize uma viagem de trabalho que não lhe agrada, ela está demandando contra ele. Aliás, não só ela, mas todas as pessoas que estão rezando pelo seu pedido. Indiferente à forma como é feita, a egrégora se forma e vai em busca do seu destino. Essa egrégora pode então mudar o pensamento dele sobre a viagem, pode mudar os sentimento dele em relação ao emprego, ou… pode lhe causar um acidente que o deixe acamado por tempo suficiente para que ele perca o dia marcado. — Percebe?

Quanto maior é a frequência e maior a quantidade de mentes, maior é a egrégora e a força com que ela atinge o seu alvo. Vamos lembrar aqui, para não dizer que só tratei de maldades, que quando inserimos o nome de alguém numa corrente de oração intencionando pela cura, a mesma energia forma uma egrégora e se direciona para o enfermo, propiciando o acolhimento e, quem sabe, a cura — e assim para todos os casos.

Demanda de Magia Negativada

Não existe energia boa ou ruim, energia é energia. Meu primeiro Babalorixá usava como exemplo uma estação elétrica onde, a depender do operador, a energia poderia ser direcionada para iluminar uma cidade ou ligar uma cadeira elétrica. Tudo depende de quem manipula: positivá-la ou negativá-la.

O que o mago negro faz é usar elementos que alimentam a sua perversão (velas, charutos, sangue, marafo), que potencializam a corrupção moral, e que fornecem uma troca energética para que as egrégoras se formem tal qual  fossem em um coletivo, como no pequeno trecho de um ritual citado no começo desse texto. 

Assim, não são necessárias 300 pessoas em coro pensando em um objetivo, pois os elementos certos equivalem a uma força de formação de egrégora até três vezes maior. Isso sem evocar nenhuma entidade, somente o magnetismo do operador. Não irei me ater muito aqui, dada à responsabilidade que acredito ter sobre essas informações, mas na internet há muitos exemplos. Antes que deixe essa leitura para procurar, peço que fique e considere tudo que tenho a dizer sobre essas práticas.

Demanda por entidades negativadas

Engana-se quem acredita que o mundo espiritual está em paz. Neste momento, inúmeras batalhas estão sendo travadas. Assim como existem espíritos que trabalham orientando os encarnados e os desencarnados, existem os que se perderam na negatividade e se especializaram na magia negra — que trabalham com forças negativadas. 

Seus princípios de moral e ética foram corrompidos de tal maneira, que nada mais enxergam, a não ser os vales de fogo e lama dos quais fazem suas moradas e tornaram-se senhores. Atendem por nomes que impõem medo e promovem o caos. Como se recusaram ao aprimoramento espiritual, aprofundaram-se nas escalas hierárquicas inferiores, alimentando-se de raiva, de ódio e de sofrimento.

Normalmente esses espíritos não se importam com pessoas “comuns”, para estas eles direcionam seus eguns escravizados a fim de obsediar e perturbar — às vezes por pura diversão. Esses espíritos altamente negativados se ocupam de Sacerdotes, de templos de Umbanda, de Centros Espíritas, de padres, de pastores e de médiuns que trabalham para a harmonia universal. Isso porque esses médiuns, orientados pelos guias espirituais de luz, tornam-se um impedimento para que os desordeiros tomem conta de vez da humanidade.

Em um plano astutamente diabólico, investem seus esforços a fim de causarem instabilidades e encontrarem brechas onde podem entrar e destilar seu veneno. Cada vez mais se aproximam e “sujam” o médium até que ele não consiga mais se defender e, por fim, quando o obsidiado se dá conta, está depressivo, doente, ou já se tornou uma marionete dos espíritos trevosos.

Muitos médiuns enlouquecem e se desvirtuam de sua caminhada inicial por serem inexperientes, ou por não estarem vigilantes à esse tipo de ataques. É claro que não estamos falando de espíritos limitados, afinal, para enganar um sacerdote é preciso ter muita perspicácia, muita sabedoria, falácia, etc. São espíritos perigosos e por isso peço a Ogum que com sua cavalaria mantenha-os afastados a léguas e léguas de distância de todos nós. Assim seja. 

Como a demanda atua

Uma vez que a egrégora foi criada, ela não será desfeita até encontrar e concluir o seu propósito. Entretanto, todas as formas de demandas citadas neste texto dependem do alvo do infortúnio. 

Por exemplo: se o alvo da demanda é uma pessoa naturalmente desequilibrada, que não busca se aprimorar como indivíduo, que não tem nenhum tipo de espiritualidade ou de firmeza espiritual — e aqui não digo “A” ou “B”, mas toda forma de espiritualidade possível —, a egrégora encontra livre passagem. Note que as pessoas que foram vítimas de algum ritual de magia negra são, em sua maioria, pessoas que devem, de certa forma, à essa egrégora. 

Ouvi o exemplo de um médium de Umbanda que matinha um relacionamento extra conjugal com uma pessoa que também era casada. Ao saber da traição, o marido traído procurou um feiticeiro para demandar contra a agora ex-esposa e o pivô da separação. Dias depois, tanto ela quanto o médium de Umbanda sofreram efeitos devastadores.

Vocês me perguntarão: mas e os guias espirituais desse médium? Neste caso, nada puderam fazer, porque o seu médium fez por “merecer” receber essa demanda. Não defendo aqui a monogamia ou a instituição medieval do casamento, cada um se relaciona como lhe é apropriado, contanto que haja clareza em ambas as partes. A questão é que pela falta de hombridade, de lealdade e compromisso com seus companheiros ao acordo firmado entre os dois, manter uma relação extraconjugal abriu precedentes para que a vingança encontrasse meios de chegar até eles.

Percebam que tudo depende de nós, de como nós nos relacionamos com a espiritualidade. Por mais que tenhamos exus e pombagiras, se merecermos passar por determinadas demandas, iremos passar. Os guias continuarão ali nos apoiando, tentando nos levantar depois que cairmos, mas não evitarão a queda se nós tivermos, de alguma forma, tornado esta, legítima na lei de causa e efeito

Quando estamos sintonizados e harmonizados minimamente com as forças superiores, quando incorporamos os valores sagrados dos nossos guias espirituais, quando nos voltamos à prática do bem (abençoando, pacificando, iluminando, amando), quando somos justos, quando nos ocupamos com coisas boas e proveitosas, tudo isso fortalece o nosso campo magnético. As energias emanadas inevitavelmente quando alguém pensa em nós, podem até nos encontrar, mas não nos atingem em sua totalidade, porque enfraquecem à medida que são barradas pela nossa força moral.

“Vigiai e orai, para não cairdes em tentação. O espírito, com certeza, está preparado, mas a carne é fraca”.

Mateus 26-41

É preciso que fique claro que a ideia do “corpo fechado” não é uma sentença, mas uma circunstância. Não se tem um corpo fechado, se mantém um corpo fechado. Isso, através da oração e dos outros modos já citados. Outro aspecto relevante para alertar os que se consideram inatingíveis, é que uma vez que a egrégora encontra seu destino, se ela não puder realizar sua finalidade de imediato, ficará rondando a espera de uma brecha onde possa penetrar. 

Digamos que a egrégora esteja relacionada à fofoca, que uma pessoa possa ter pensado em você e dito: “fulano tem a língua tão maldosa, pois tomara que quando ele fale mal de alguém ele morda a língua e ela se parta!”, ao fim dessa sentença, a energia lhe será direcionada, mas quando ela chega, percebe que você não vibra na mesma sintonia dos fofoqueiros. Sem ter para onde ir, com seu “endereço” como única opção, ela fica alí rondando incansavelmente, esperando sintonizar com o padrão vibracional ao qual ela possa se encaixar.

Então você, por um lapso, com algum amigo, acaba falando mal de uma pessoa. Sua vibração baixa, sintoniza com a da egrégora e ela chega até você. Se você for preparado para perceber a mudança de energia, você corrige imediatamente e a egrégora se dissipa, e um mal estar de alguns segundos logo passa. Se você não tem esse alcance, morderá a língua. 

Por isso é importante estar atento e vigilante ao que falamos, pensamos, para que não possamos dar caminho à essas egrégoras.

Defesa contra demandas

Aqui já falei sobre como se defender da maior parte das demandas. Sei que para nós é muito difícil não dar condições para merecermos os ataques espirituais que recebemos, afinal, somos cheios de falhas. Ainda existem as questões que trazemos de vidas passadas, como inimigos cármicos…, e ainda, mesmo quando estamos firmes na caminhada, surgirão os quiumbas querendo nos derrubar. 

— E agora?

— Vigiai e orai, não há outra solução. 

Existem formas de se mandar as egrégoras de volta ao seu local de origem, mas melhor mesmo é transportá-las para um lugar onde não possam fazer mal à ser vivente nenhum, afinal, devolver abre precedentes para seu retorno, criando um ciclo sem fim de aprisionamento entre as mentes. 

Nos terreiros de Umbanda, as entidades identificam essas egrégoras e “diluem” com uma energia ainda maior da luz que elas carregam, ou descarregam com os elementos de trabalho (o fumo, as ervas, os banhos) extinguindo o mal que te obsedia. Quanto aos quiumbas e obsessores, são muitas as formas de afastá-los, mas a mais legítima ainda é o aprimoramento moral. 

Quando buscamos ser melhores, quando quebramos nossas crenças limitantes, nossos preconceitos, “saímos do radar” dessas energias densas. Eventualmente seremos atacados, porque é assim que funciona nosso “biossistema cósmico”. Constantemente somos influenciados por espíritos, por energias e egrégoras, porque faz parte do “jogo”. Só cabe a nós nos protegermos delas. 

Manter sua mente limpa e equilibrada, fortalecer seu campo magnético, combater a insegurança — sem se tornar arrogante —, manter-se vigilante, tornar suas ações mais significativas que suas palavras, tudo isso lhe ajudará a não sofrer, em sua totalidade, os impactos energéticos provocados por demandas, pois elas são inevitáveis.

E, por fim, procure não demandar contra ninguém. Sabe aquela inimizade, aquele alvo da sua fofoca, aquele seu desafeto? Liberta. Deixa ir, e ocupe sua mente com algo melhor. Assim você ajuda a pessoa deixando de demandar contra ela e não cria precedentes para que ela possa demandar contra você. Saber viver em paz e em harmonia é um grande exemplo de como manter seu corpo fechado.

Não provoque o macumbeiro!

Nasci em um bairro pequeno, de casinhas coladas “parede com parede”, e a vizinhança sempre presente foi uma forte marca da minha infância. Foi nela que me deparei a primeira vez, ainda pequeno, com o preconceito religioso, quando sabia que todos meus amigos da rua tinham sido convidados para brincar na casa de alguém, menos eu, por ser o “filho do macumbeiro”. Embora nunca tivesse visto meu pai acender uma vela sequer para demandar contra alguém, as pessoas que o conheciam apenas de vista o respeitavam, com certo temor.

Meu pai não fazia questão de provar que era bom para desmentir a fama que o preconceito o atribuiu. Os vizinhos que com ele conversavam, sabiam que a proposta da Seara de Oxalá Casa de Xangô era — e foi até seu último dia — a caridade, o respeito ao livre arbítrio e o amor incondicional.

Hoje eu vejo que, no contexto ao qual estávamos inseridos: família pobre, pai de santo preto, duas crianças pequenas e uma esposa jovem do interior, a fama de “não mexa com o macumbeiro” vinha muito a calhar, porque ninguém tinha coragem de fato de afrontá-lo, mas isso não os encorajou a desistirem das piadinhas que eu ouvia quando ele passava e, também, dos meus amigos da rua, que nas brigas soltavam um sonoro e doloroso: “Filho do Macumbeiro”. 

Vocês podem até me perguntar o porquê de alguém querer afrontá-lo, mas quando se trata do preconceito religioso não é preciso que se faça muito. Somente o fato de ser o único terreiro no bairro, já é o suficiente para incomodar pessoas nos supermercados, lotéricas, praças… é curioso como isso acontece.

Certa vez perguntei ao meu pai se esses comentários não o incomodavam como incomodavam a mim, e ele respondeu-me dizendo que não, e lembrou-me de um ponto do seu Tiriri, um dos exus que ele recebia:

“Eu vou girando, eu vou girando e vou na santa paz, porque eu só temo a Deus e nada mais.”

Essa firmeza de saber quem ele era, e o que fazia, não permitia que a desaprovação da vizinhança interrompesse seu trabalho espiritual. Ainda assim, em respeito aos moradores de crenças distintas, as giras eram sempre pela manhã ou à tarde, em horários que o som do atabaque incomodasse o mínimo possível. Se não bastasse, quando pôde, meu pai construiu uma parede para isolar o terreiro da parede do vizinho, impedindo qualquer desconforto. Nas festas votivas, estendia o convite à vizinhança.

O preconceito

Não é difícil entendermos que o preconceito parte de uma ignorância. Ignorar significa: não conhecer, não saber; e é justamente por ignorar a tradição de Umbanda que os mitos ganham força e a histeria se fortalece. Não foi incomum no nosso país, nas periferias, líderes religiosos de religiões místicas, não só da Umbanda, serem linchados até a morte, por se terem espalhado boatos sobre eles de que, em suas giras, havia a invocação do demônio e sacrifícios de seres humanos.

Lembro-me de uma vez que, um colega de classe, sem saber que se tratava do meu pai, perguntou-me:

— Ei, é lá na tua rua que mora o feiticeiro é?

— Sim!

— Minha irmã disse que você não pode passar muito perto porque eles leem o seu pensamento. Como você faz?

— É meu pai.

— Sério!? Ah, tudo bem… desculpa!

— Sem problemas.

E se eu fosse contar todas as histórias que passei, daria um livro cômico, se não fosse trágico.

O preconceito religioso está enraizado. Quando me refiro ou cito, por exemplo, a igreja católica, através do Tribunal da Santa Inquisição, e as forças militares, que invadiam os terreiros, quebravam seus assentamentos e levavam presos seus sacerdotes, com a justificativa de prática de feitiçarias, não o faço com nenhum revanchismo, mas apenas por se tratar da história tal como foi, como exemplificada pelo pesquisador, Renato Ortiz, em “A morte branca do feiticeiro negro”, e, também, presente no meu livro-reportagem “As Vozes da Umbanda: a Umbanda pela voz dos umbandistas”, publicado em 2018.

Diante de tantos ataques, vejo claramente os motivos que levaram vários cultos contemporâneos ao surgimento da Umbanda, a usarem o a ignorância das massas como aliada, manipulando a imaginação de seus agressores e alimentando-a de mistérios ocultos. Sendo assim, quem teria coragem de pisar na calçada do terreiro para invadi-lo ou pichar o seu muro, sabendo que o “macumbeiro” que mora lá recebe um Exu Caveira? Uma Maria Sete Navalhas? Um Exu Sete Facadas?

Podemos, ao estudar um pouco sobre a história da religião, entender porque os próprios sacerdotes alimentavam essa postura de “Não mexe comigo que eu não ando só”.

Em defesa desses pais e mães de santo que lutaram pelo direito de manifestar a sua espiritualidade como queriam, precisamos não igualar a reação do oprimido com a ira do opressor. Devemos, por assim, respeito e compreensão por eles terem sofrido o que sofreram para que nós tivéssemos espaço hoje como religião.

O outro lado da moeda

Não posso ser tão ingênuo a ponto de colocar a Umbanda como uma religião pura e injustiçada, embora a última alegação seja verdadeira. Sempre existirão terreiros, barracões, casa etc. que dirão-se de Umbanda, mas não passam de organizações para a prática de magia negra.

A religião Umbanda tem o que nós chamamos de “núcleo indivisível”, que se trata, por exemplo, do trabalho com os pretos-velhos, caboclos, o uso de ervas — que foi herdado dos índios brasileiros —, etc., mas terreiros que se dizem umbandistas e têm uma gira de caboclos ou preto-velho por mês, e todas as outras voltadas à Exus e Pomba-Giras, não sei se podem se chamar de Umbanda.

Claro, não sou eu quem define o que é ou não Umbanda, nem estou questionando a presença dos mestres Elegbarás nos nossos cultos, mas sim a sua frequência. A linha de esquerda tem suas funções muito bem estabelecidas em um terreiro sério, sendo o atendimento por caboclos e preto-velho a linha mais correta para a religião (abordarei isso em outro tema). Reservo-me o direito de expor uma opinião minha, dando-vos o direito de considerá-la, ou não, válida.

Então, muitos desses sacerdotes que trabalham com amarrações, feitiçarias, trabalhos de vira cabeça, separação de casais, e matar pessoas, podem até ter em seus registros, ou dizerem da boca para fora tratar-se de um terreiro de Umbanda, mas estão muito distantes do que nos trouxeram o Caboclo das Sete Encruzilhadas e Pai Zelinho, e tantas outras entidades e sacerdotes, que propõem novas visões sobre a Umbanda, assim como: Matta e Silva, Rubens Saraceni, e Carlos Buby, dentre outros, respeitando, claro, seu já citado núcleo indivisível.

Lembro-me bem de uma história que meu pai nos contava sobre um “pai de santo”, que se dizia de Umbanda (pela sua ignorância em relação a religião) que, certa manhã, conversando com ele, perguntou: 

— Mário, será que Deus perdoa a gente?

— De quê, meu amigo? — Falou meu pai.

— Das pessoas que a gente manda se jogar da ponte, se jogar no trilho do trem

Portanto, existem maus praticantes como em todas as religiões, e sendo a Umbanda uma religião tão plural, é claro que será vítima de sacerdotes e sacerdotisas desvirtuados e corrompidos pelos seus interesses egoicos. Isso faz, inevitavelmente, que a Umbanda entre em uma espécie de “farinha do mesmo saco” de tudo que parece exótico e, talvez, bizarro: sacrifício de animais, danças corporais, transes etc. 

O curioso disso tudo é que na Basílica de Pádua, existe uma imagem de ouro com nada menos que a língua atribuída a Santo Antônio, que a grosso modo é o pedaço de um corpo humano, decomposto, que as pessoas veneram. O culto católico condena a necromancia como uma prática diabólica, mas para eles cultuar um pedaço de língua é normal, porque não tem um atabaque perto?

Quem define o que é normal?

É preciso combater o medo, não alimentá-lo

Sabemos que questões tão profundamente enraizadas, sendo a Umbanda uma religião recente — em comparação às outras —, não são fáceis de serem extintas. Acabamos, sem nem mesmo percebermos, fomentando o preconceito que sofremos através de nossas próprias afirmações e posturas.

Basta olhar de perto: se não somos nós mesmos, temos um amigo que vez por outra solta afirmações como: “não mexe comigo que eu não ando só”, “quem me protege não dorme”, “quem não pode com macumba não atiça macumbeiro”. Sabemos que, na maioria dessas afirmações, no fundo, essas pessoas até poderiam ser capazes, mas não teriam sucesso em fazer mal a ninguém. Digo isso porque até mesmo para se fazer o mal, para se projetar uma demanda de fato, não é tão simples. Quem sabe mesmo o que faz não é o que grita para o mundo “cuidado comigo que eu sou macumbeiro”. Quem sabe, faz.

Podemos aqui abordar um outro contexto. Muitas vezes nos utilizamos de argumentos assim para nos livrar daquele vizinho inconveniente, daquele colega de trabalho chato que nos persegue por conta da nossa religião. Para nos poupar, fazemos exatamente o que faziam nossos ancestrais: alimentamos esse ar sinistro de quem “mexe com coisas ocultas”, como se vivêssemos em cavernas e comêssemos morcegos no café da manhã.

A exemplo, lembro-me que quando tinha uns 14 anos, havia chegado à vizinhança uma senhora fervorosa na sua religião que, todas as manhãs, saía de sua casa, varria a sua calçada cantando louvores e, depois, partia para a calçada da nossa casa varrendo e cantando louvores do tipo: “expulsa o mal”, e eu vi meu pai observar essa cena durante uns dois dias. Quando eles se cruzavam na rua, ela fazia o sinal da cruz depois de ter passado por ele.

No terceiro dia, ele encheu uma garrafa de cachaça com água da torneira e, percebendo que ela varria a porta dela, saiu, deu-lhe um bom-dia, e começou a balbuciar palavras aleatórias e derramar a “cachaça” na nossa calçada, de uma ponta a outra. A vizinha, apavorada, entrou na sua casa e nunca mais cantou seus louvores exorcistas na nossa porta. Meu pai sempre contava essa história com risos, mas com uma cara de quem se esforçava para conter-se — com a auto-reprovação de quem quer ensinar algo a partir desse exemplo — pois sabia que, no fundo, essa brincadeira alimentava o preconceito religioso.

Somos uma outra geração. O mundo não é mais o mesmo, e tudo está mudando. Quando fazemos algo assim hoje, alimentamos nossa ignorância própria. A falta de embasamento para uma argumentação resolve-se dessa maneira tosca: “não mexe comigo que eu não ando só”.

Muitos praticantes da religião se fanatizam e não buscam se aprimorar quanto representantes da mesma, corroborando para alimentar falsas impressões, perpetuar o preconceito religioso e reforçar a ideia de que ser de qualquer expressão espiritual, que não seja típica européia, é uma espécie de  pacto com o demônio.

O que precisamos é conhecer a história da nossa própria religião o suficiente para saber qual o nosso lugar no mundo. Precisamos conhecer a história do terreiro ao qual escolhemos como casa, respeitar os membros mais antigos e sermos exemplo para os médiuns mais novos. Precisamos não despertar o medo nas pessoas, mas sim mostrar a elas que as religiões afro-ameríndio- brasileiras são sim um terreno fértil de cultura, sabedoria e arte, e que Deus está nela tanto quanto em qualquer outra que tenha como princípio o amor.

Que tais afirmações estejam entre nós e nossos amigos, os quais perceberão o nosso tom de brincadeira e não de ameaça. A qualquer um que queira saber mais sobre a religião devemos acolher, esclarecer, referenciar. E se não tivermos disposição para tal, o silêncio à ameaça velada, é a melhor escolha.

Umbanda discreta sim, secreta jamais. De paz sim, de medo nunca.

No lugar de escrever: “não mexe comigo que eu não ando só”, escreva, “Deus e os guias estão sempre conosco, e é por isso que nós não andamos sozinhos.”

O homem de doze mãos

Quando refleti sobre como escrever essa história, pensei em tratá-la toda na 3ª pessoa, mas logo percebi que falar da Seara De Oxalá e de seu Babalorixá, sendo que a Seara é minha casa e o Babalorixá foi meu pai de sangue, seria, no mínimo, difícil. Escrevendo, constatei que separar-nos é impraticável.

Por isso não me preocupei em assumir uma única narrativa do começo ao fim, mas sim transitar entre o eu, o tu, o ele, o nós, o v´´os e o eles. As referências que trago são sob a minha ótica de filho de sangue — e de santo, à época — , porém, como jornalista, sei que fará bem a nossa leitura uma certa imparcialidade. 

É por isso que, em alguns momentos, deixarei que meu pai —  conhecido popularmente como Professor Orion — nos conte sua perspectiva através de trechos de uma publicação por ele escrita, em 2016, alguns meses antes de desencarnar, intitulada: “Caminhos do Destino”. Usarei minha admiração como o tempero de uma receita especial de amor e gratidão. Espero acertar o ponto.

Há, na nossa biblioteca, vários caderninhos onde narrou à mão detalhes de suas empreitadas, além de viagens pelo Brasil. Esses relatos viraram os livros “Das Coisas da Vida e da Morte e de Chico Asa Baixa (publicado pela editora Premius – 2012)” e “50 Anos Depois do Golpe (Livro publicado pela editora Premius – 2014)”.

Em uma outra série de contos, publicados em 2016 no meio digital, tem-se: “Tartaruguinha, o amor proibido”, “A História de José e Seu Irmão”, “Ambição Herança Maldita”, “Amor em Muitas Vidas”, “A Lenda Dos Orixás e Seu Domínio Sobre a Terra e os Homens”, “Devotos da Luz”, “A Estrela Verde”, “A História de Francisco”, o já citado “O Caminho do Destino”, “O Menino que Queria Ver o Mar”, “Vasculhando os Sertões em Busca das Gerais” e “Viagem de Carona Rumo ao Velho Chico – Viagem Quase Sem Fim”.

Sendo ele um comunicador nato, sua impressionante habilidade no uso das palavras, que disseminavam acolhimento, amor, compaixão e esperança de dias melhores, fez com que várias pessoas de diferentes classes sociais se dirigissem à casinha simples no bairro de classe média baixa, buscando conhecer seu destino através do Tarot, além de procurarem ajuda das entidades que o acompanhavam: Preto-Velho Rei do Congo (Mentor Espiritual Do Terreiro), Preto-Velho Pai Congo do Mar (Guia Espiritual do Médium), Caboclo Ubirajara (Guia Espiritual do Médium) e Exu Tranca Ruas (Guia Espiritual do Médium).

Impossível olhar pra um céu como o de hoje e não lembrar do professor Orion. Que falta me faz escutar as suas histórias e seu canto!
Com ele aprendi sobre a Umbanda e a caridade. Sobre a importância de se fazer presente na vida do outro, a importância da escuta.
A Seara de Oxalá foi fundamental na minha evolução espiritual e de muitos outros que por lá passaram. Viva a Seara de Oxalá e o Professor Orion!

Ticiana Patrício

Homenageá-lo, e ao seu Terreiro, é deixar no coração dos leitores um pouco da história de um homem que, com quatro mãos físicas (as suas e de seu cambono) e oito mãos espirituais, dedicou-se, por mais de 40 anos, à Umbanda, sendo 31 deles no seu terreiro. 

É claro que essa história poderia render muito mais, nos moldes do jornalismo, se eu fizesse uma série de entrevistas com os filhos de santo, companheiros de trabalho, amigos…, mas penso que ele não gostaria de tanto alarde. Para um homem midiático e falante, a discrição era sua verdadeira área de conforto. 

Professor Orion

Aspectos técnicos dessa história interessam mais a mim, que sou filho, e considero tais informações como um tesouro inestimável. O que interessaria ao Professor Orion, mesmo póstumo, é que a história de sua fé e seu trabalho na espiritualidade não se “perdessem no tempo” e que assim pudesse ajudar outras pessoas. Tudo o que ele transmitia era a certeza na capacidade contida em cada um, e na plena possibilidade de mudança a todo aquele que tivesse disposto a mudar para melhor.

Por isso, caro amigo leitor, lhe convido para esse passeio às margens do tempo, onde seguros podemos brincar com as ondas. Já deixo minhas sinceras desculpas pelo texto longo, pois, diante de tantas histórias, não pude resumi-lo. 

Escrevo sobre Orion, o homem de doze mãos.

O homem e o Sacerdote 

Nos últimos quatro anos, acreditei que muitas coisas importantes sobre sua história, como a data de sua iniciação, o nome do terreiro em que desenvolveu e o nome de sua Mãe e Pai de Santo, havia descido com ele para aquele túmulo no cemitério São João Batista, em Fortaleza, sua terra natal. Entretanto, a condição de Jornalista, formado pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) o tornou um homem de muito escritos, áudios e vídeos.

José Mário – 1º da direita para a esquerda na foto.

Como jornalista, atuou em grandes jornais do Rio de Janeiro como “O Globo”, e ganhou destaque no “Projeto Radam” em 1970. A rotina exaustiva dos grandes jornais e o salário baixo o levaram para longe da cidade grande e seu frenesi. Com o dinheiro recebido de uma indenização, juntou-se ao seu irmão em uma sociedade e comprou um sítio, em Cachoeiras de Macacu, no estado do Rio de Janeiro, onde tinha planos de viver uma vida rural. Anos depois fundou um pequeno jornal local, chamado “Jornal do Município”. Naqueles tempos, Professor Orion respondia pelo seu nome de batismo, José Mário.

A incerteza financeira gerada pelo seu estilo de vida trouxe grandes desafios que conseguia contornar — segundo me contava — graças ao poder da oração. Em Cachoeiras de Macacu conheceu o que diria ser o seu primeiro mentor, um ex-feiticeiro recém convertido à evangélico.

“Próximo ao sítio morava um velho feiticeiro de nome Marcelo. Foi procurá-lo para pedir um conselho, mas o velho era cismado, arredio e se tornara evangélico. Logo na porteira de sua casa viam-se duas garras de gavião cruzadas e um chifre enorme na soleira.

Foi difícil fazer amizade com Seu Marcelo, que agora só vivia recebendo os irmãos pastores em sua casa. Mas todos no lugar conheciam a sua história. Na juventude incorporava  exus e era respeitado por todos. Se alguém olhasse para Seu Marcelo de modo “enviesado”, podia se preparar para no outro dia estar com a perna quebrada.

O velho deixara a Quimbanda, onde tinha um enorme prestígio, desde o dia  em que mataram um filho seu. A morte do filho mais novo fez o velho feiticeiro meditar sobre as maldades que praticou a pedido de pessoas vingativas e más.

Sua mulher, Maria, era mais acessível. Ai José a convidou para fazer a comida dos cachorros e, com o tempo foi “domando” seu Marcelo, dando-lhe trabalho no sitio. Marcelo capinava o pomar de laranjas e os dois conversavam por horas sem fim. História aqui, história ali e aos poucos ficaram amigos.”

No sítio, por conta própria, José Mário aprimorava-se na tradição da feitiçaria brasileira. Até então, conforme seus próprios relatos, a ideia da Umbanda era completamente distante, embora desde cedo já gostasse do esoterismo e de outras formas de entendimento da espiritualidade, além do catolicismo, sua religião herdada da família. Usar a feitiçaria que Marcelo lhe ensinava o livrou de diversas perseguições na época:

“José era assim. Um médium  natural, precisando desenvolver-se mas não sabia ao certo o que devia fazer. E a vida continuava piorando cada vez mais no sítio.

O irmão, vez por outra, tomava uma carraspana. Saia para a cidade vizinha em busca de festas e namoradas. Voltava bêbado, altas horas da noite. Às vezes José pegava o carro e ia ao seu encontro, temendo que algum mal pudesse lhe ocorrer. Uma vez, o encontrou já voltando da farra, um pé lá e outro cá, de um lado ao outro da rua, ziguezagueando no asfalto, na noite escura.

No sítio, os animais continuavam morrendo lavrados de bernes. Até no úbere da vaca “Pedrita”, aparecia berne. Mas a vaca era “sagrada” — dizia — e só ela e o bezerro, agora um “tourinho”, não eram afetados por quase nada.

Um dia, num sábado no final da tarde, viu uma luz dentro do mato, um pouco a frente da entrada do sítio. Como não tinha medo de nada mesmo, foi ver do que se tratava. Era uma vela acesa. Voltou em casa, apanhou uma caixa de fósforos e voltou para o local onde estava a vela. Foi tomado por uma “força estranha” e uma voz falou com a sua voz:

— Dá licença quem está trabalhando, porque vou virar esse ponto. José  não merece o que estão fazendo com ele.

E pegou a vela, mordeu no  final, fazendo outro pavio e o acendeu  a vela virada. Deixou o local e foi para casa. Não se passaram dez dias e apareceu o dono do terreno vizinho, onde um posseiro fizera uma choupana.

O Proprietário deu seu ultimato:

— Ou sai ou passo o trator por cima!

Seu Manoel, o posseiro,  não teve outra alternativa. O proprietário já chegara acompanhado por um trator. Foi colocando as tralhas de Manoel na estrada e em seguida o trator derrubou a casa, demolindo tudo.

No outro dia, bem cedo, Manoel apareceu na porteira de José e disse:

— Isso é que é uma macumba bem feita!

Novamente a voz tomou conta de José e disse:

— Macumba feita por sua mulher, para tirar José da sua casa. A casa que comprou com o suor do rosto! O feitiço só se voltou contra o feiticeiro!

Seu Manoel saiu praguejando e sumiu daquelas bandas.”

Se ele estivesse aqui diria que “Deus escreve certo por linhas tortas”, e foi através de um feiticeiro de quimbanda que José passou a conhecer esse mundo místico, de culto e aprendizado à espíritos desencarnados. Mesmo muito diferente de Marcelo, inclusive nos hábitos, José Mário filtrava e adaptava o que era ensinado pelo quimbandeiro de forma que lhe fosse praticável, dentro dos seus princípios de moral cristã, que o acompanharam por toda vida. Sentia-se cada vez mais inclinado àquela prática da espiritualidade, mas não havia se encontrado.

Com o passar dos anos, Marcelo morreu de maneira abrupta. José já o visitava pouco, mas manteve com ele uma amizade sincera. Seguindo, dessa vez sozinho, pouco tempo depois José Mário conheceu Amarilho, que veio a descobrir mais tarde ser Pai Pequeno da Tenda Espírita de Umbanda Maria Conceição do Mar (Penha, RJ), e através dele foi apresentado à Ialorixá do Terreiro, Mãe Elza.

No desenvolvimento conheceu seu guia chefe, Pai Congo do Mar, e as lições de amor e caridade deram novos significados às práticas ensinadas pelo seu antigo mentor carnal. Quatro anos depois desse encontro, José Mário, no dia 15 de outubro de 1985, foi consagrado Babalorixá.

“Chegou o dia da feitura da Coroa. Um grupo seleto de médiuns, Pais  e Mães no Santo, ogans e os novos sacerdotes de Umbanda, que seriam sagrados, chegaram bem cedo no Centro Espírita de Umbanda Maria Conceição do Mar. Às 7 horas Seu Sete Luzes abriu a gira especial: e banhou um a um com amaci, “catulou” (raspou) e consagrou sua Coroa como o templo vivo de cada Orixá.

Durante toda solenidade, que demorou o dia inteiro, sem intervalos, os ogans se revezavam cantando as curimbas dos orixás, acompanhados por caboclos, caboclas, pretos velhos, pretas velhas, incorporados do começo ao fim. Enquanto esperava sua vez, cada médium ficava de um lado do pegi, concentrado, numa espécie de transe semiconsciente. Pelo menos foi assim que aconteceu com ele.

Lembrava que cada Pai no Santo ao ser sagrado, era conduzido pelos padrinhos (entidades incorporadas) para deitar numa esteira, coberta com um lençol branco e ficava ali esperando até  sagração  de todos terminar. 

Não podia esquecer seus padrinhos, Rei do Congo e Vovó Maria Conga o conduzindo para o local onde seria sagrado. O acompanharam até o final da feitura. Os atabaques e os médiuns puxavam uma carimba de Xangô, Orixá do novo sacerdote. E foi assim com cada um dos outros, sendo puxado sempre o orixá dono da Coroa:

Xangô meu Pai,
Deixa essa pedreira aí,
Que Umbanda tá te chamando,
Deixa essa pedreira aí!

Ficou meio em transe. Ouvia e via tudo. Sentiu o cabelo sendo cortado no alto da cabeça, enquanto Seu Sete Luzes evocava Oxalá e o Divino Espírito Santo:

Ai meu Divino Espírito Santo,
Venha nos ajudar,
Trazendo as ordens do Pai Eterno, Jurema…
Ô Juremá…

Trazendo as ordens do Pai Eterno
Jurema… Ô, Juremá !

Essa curimba foi entoada durante toda a feitura. Depois de raspar o alto da cabeça, ela foi lavada com amaci. Também os braços, pernas, mãos e pés do médium. Depois esses locais foram cruzados com pemba branca de Oxalá.

A seguir o pombo branco foi sacrificado com as mãos, e a “Menga” colocada sobre a parte tosada e untada com a banha do Ori. Obi e Orobô mascados (dos quais o médium também comia um pouco), as pembas dos orixás de coroa raladas e por fim o Ossum, também transformado em pó e aplicado sobre a coroa.

Os excessos das firmezas, que desciam pelo rosto e restante da cabeça, foram enxugados com uma toalha branca. Depois, com outra toalha, a cabeça do médium foi amarrada com as firmezas, e foi sendo conduzido por seus padrinhos à camarinha, onde ficava deitado, coberto por um lençol branco.

A essas alturas o transe era inevitável, mas ninguém, entre os “catulados” incorporou nenhuma entidade. Às 7 horas da noite, doze horas depois que tudo começou, serviram um caldo ralo de legumes para alimentar os médiuns que estavam em jejum absoluto.

A solenidade só terminou às 22 horas, quanto os novos pais no santo (mais de dez) tinham sido sagrados. No pegi, junto com os novos Babalorixás e Ialorixás, estavam suas oferendas: amalás, guias, búzios, velas de cera, perfumes, bebidas (libações), que seriam retirados e despachados numa cachoeira, três dias depois.

E a mecha do cabelo tosado, com uma tesoura nova, o pente, escova e todos os panos e toalhas, as pembas, foram entregues ao médium como lembrança daquele dia, para serem usados ou despachados numa cachoeira ou mar, quando não tivessem mais nenhuma utilidade para ele.

Recebeu cruzadas as novas Guias: a de Obori (ou Coroa Maior), representando todas as linhas de Umbanda; a Guia de Oxalá, de cristais brancos leitosos;  Guia de Xangô cruzada com Oxum, de contas de cristais marrons, com azul marinho; a Guia de Ogum, que na Umbanda é feita com cristais vermelhos, (no Candomblé, essa guia é azul turquesa); a Guia de Obaluaê  (Linha das Almas), com contas pretas e brancas miudinhas); Guia de Preto Velho, feita em contas pretas, e brancas grandes; a Guia de Exu, com contas pretas e vermelhas.

Seu Sete Luzes, os demais Pais e Mães Pequenas e médiuns convidados, permaneceram também em jejum, pitando seus charutos e tomando pequenos “curiados” até o fim da solenidade, que foi encerrada como uma gira comum, com cada caboclo e cabocla, pretos velhos, cantando suas curimbas de subida.

No encerramento dos trabalhos, Seu Sete Luzes, como sempre, fez as firmezas, parabenizou os novos Sacerdotes de Umbanda, chamando a atenção deles para o compromisso e a responsabilidade que acabavam de assumir perante Olorum, Oxalá e os demais Orixás: Xangô, Iemanjá, Oxum, Iansã, Nanã, Oxossi, Ogum, Obaluaê e Ibeji.

[…] Completados os sete dias, no dia 15 de agosto, os novos Babalorixás e Ialorixás foram apresentados ao corpo de médiuns do centro e a convidados especiais de outras entidades de Umbanda.

José Mario no centro, ao lado de Mãe Elza e Pai Amarilho

Foi uma festa linda, inesquecível mesmo. Quem diria que aquele jovem que deixara sua terra para se formar em Jornalismo, um dia voltaria Sagrado Babalorixá de Umbanda?”

No mesmo ano da sua feitura, voltou para Fortaleza, dando início aos trabalhos na Seara de Oxalá.

“Não tinha certeza. Não sabia a quem fez, ou onde o fez. Só sabia que tudo aconteceu como pedira. Na verdade tudo foi pretexto do destino. O jornal foi preciso para a descoberta da fé e para que José achasse a seus Orixás e firmasse o seu “Bori”, fazendo caridade e orientando multidões. José, realmente, ali, descobriu o caminho do seu destino.”

Segundo me contava, o nome Orion lhe foi dado pelo seu próprio guia espiritual, que uma vez manifestou-se para ele e disse-lhe que a partir daquele dia deveria se chamar de Orion. O aprofundamento nos estudos esotéricos como tarot , numerologia e astrologia, o levaram a dar aulas e cursos no seu terreiro, ganhando assim o título carinhoso de Professor Orion. 

A Seara de Oxalá – Casa de Xangô

Fundada no ano de 1985, ao lado de um pequeno corpo mediúnico, a Seara de Oxalá Casa de Xangô seguiu os princípios ensinados por Mãe Elza e Pai Amarilho da Tenda Espírita de Umbanda Maria Conceição do Mar, na Penha (RJ). Esses princípios, com o tempo, foram sendo adequados à sintonia do trabalho da entidade chefe do Terreiro, Rei do Congo. 

A forte influência católica trouxe para o altar a imagem de Jesus Cristo e de outros santos dentro do sincretismo religioso. Com o passar dos anos, o terreiro entrava nos moldes da Umbanda Popular, mas com grandes influências esotéricas e de outros sacerdotes a quem Professor Orion teve a felicidade de conhecer, como Matta e Silva e Paulo Newton de Almeida.

Dado o sincretismo religioso, o terreiro usava as datas dos santos católicos para festejar também os Orixás. Eram festas lindas e simples, com comidas típicas. Quem podia trazia, quem não podia não trazia nada, e todos participavam de um grande banquete.

Nas festas votivas à São Cosme e São Damião, havia muitos bombons doces. Nas festas de São Sebastião, santo católico sincretizado com Oxossi, o Orixá das matas, colhíamos as folhas das árvores cantando os pontos de Ossain, que seriam usadas para enfeitar o chão do congá. Se eu fechar os olhos, ainda consigo ouvir os caboclos dançando nas folhas, e o cheiro de milho no ar.

A luta por uma Umbanda séria, com atendimento gratuito, que atendesse à todos os públicos, sem paramentos extravagantes e diferenciações egóicas entre médiuns, não era um sentimento em comum aos médiuns da primeira formação, e a corrente se desfez com os primeiros médiuns partindo para seus próprios destinos.

Sozinho, ao lado da esposa — seu cambono e zeladora do terreiro por 31 anos —, e com dois filhos pequenos, Professor Orion continuou com o atendimento e lidando com a sobrecarga do trabalho sem nunca reclamar. Houve épocas que, na Seara de Oxalá Casa de Xangô, as Giras recebiam pouco mais de 50 pessoas gratuitamente, pacientemente atendidas pela entidade chefe do terreiro. Ninguém saia sem ser atendido.

Segundo ele, essa dificuldade em achar médiuns comprometidos o levou a enxugar ainda mais os trabalhos, continuando com o atendimento gratuito, mas fazendo também o acompanhamento do desenvolvimento mediúnico de alguns médiuns. Ao longo desses 31 anos, foram feitos batismos, coroações, trabalhos dos mais diversos tipos, e atendimentos com o tarot e o jogo de búzios.

“Ali começava o seu maior desafio: manter os preceitos, cumprir as leis de Pemba, orientar e até fazer novos filhos, batizar, casar, tirar Mão de Vumbi, (mão do morto). Se bem que ele foi advertido por Mãe Elza:

— Só faça novos filhos (sagrar) por merecimento!

E assim tem sido. Já batizou uma infinidade de médiuns e seguidores de Umbanda, mas filhos não os fez. Por incrível que pareça, até 23 anos de Coroa Maior não encontrou ninguém que realmente merecesse essa responsabilidade em sua terra natal.

Um dia visitou Mãe Elza, no Rio e reclamou, tinha feito tudo que ela e os guias recomendaram e não conseguira, naquela terra, reunir um corpo de médiuns responsáveis, que se dedicassem a Umbanda como ele se dedicou.

Largou tudo, até a profissão para se dedicar ao Sagrado. Ficou famoso como vidente e médium de cura. Orientou centenas e centenas de consulentes. Teve sempre lugar de destaque nas rádios e televisões, mas filhos feitos, catulados por ele, não!

Mãe Elza ouviu tudo silente e disse:

— É meu filho. Há médium que traz a missão de trabalhar sozinho!

E estava certa, pelo menos até certo ponto, porque essa história por certo não terminaria aqui. Vinte seis anos depois fez a primeira Coroa de Jurema numa médium de Manaus.

Mas não perdeu a fé de ser, realmente, Pai no Sagrado. Seu filho aos  21 anos começou o desenvolvimento  mediúnico, sendo sua esperança , sagrar seu sucessor, como Pai no Santo.”

Mesmo tendo sido criado na religião, nunca fui obrigado a fazer parte dela. Tanto que fiquei como tabaqueiro dos 17 anos aos 21 porque gostava do atabaque, e só decidi desenvolver de fato aos 21 anos, onde conheci o Preto-Velho Pai Cipriano de Angola, um dos meus mentores espirituais. 

Professor Orion e seu filho

Nesse período o terreiro ganhou força, e acredito que desenvolvemos um lindo trabalho juntos. As tarefas que eram centralizadas no Babalorixá passaram a ser divididas comigo. A idade alcançava meu pai e nós nem imaginávamos que aqueles dias seriam tão importantes para nós, para sempre. 

O trabalho na TV e na rádio

Paralelo aos trabalhos do Terreiro, Professor Orion se dedicou também à Tv e ao rádio, fazendo participações em programas como Na Boca Do Povo, na TV Jangadeiro, em emissoras de rádio como Rádio O Povo, Rádio Progresso de Russas, na TV Diário, muitas vezes de forma gratuita. Levar a Umbanda e o Esoterismo ao grande público naquela época era desafiador, mas encarava como parte da missão desmistificar e combater o preconceito através de sua irreverência. 

Numa época em que sofríamos preconceito em nossa própria rua, Professor Orion ia para a televisão e rádio falar de amor, acolher ouvintes e telespectadores que se dispunham a com ele dividir suas aflições, mostrando que um Pai de Santo não era, como imaginam até hoje as religiões mais radicais, o representante do demônio, mas sim um ser humano como todos em busca de fazer um bom trabalho neste planeta de expiações.

Professor Orion – Rádio Progresso de Russas

Eu me lembro de sempre acompanhá-lo nas emissoras e ficava observando-o nas suas participações ao vivo ou gravadas. O curioso é que nunca o via mudar de postura: chegava com uma hora de antecedência, entrava cumprimentando a todos e, após a sua participação, saia com os mesmos cumprimentos. Não me lembro de pessoas que não dessem um sorriso acompanhado de um “Olá professor Orion!” quando o viam.

Conheci o professor Órion na década de noventa quando trabalhava na Rádio O Povo. Depois, trabalhamos juntos na RCN, quando ele tinha um quadro sobre espiritualidade. Mais tarde, em 2004, já na TV Jangadeiro, tive o prazer de trabalhar de novo com ele no programa Na Boca do Povo. Criamos um quadro para o programa em que ele participava diariamente lendo as cartas de tarô e jogando búzios. O quadro era uma sucesso de audiência com muitas participações de telespectadores querendo saber o que revelavam as cartas sobre trabalho, amor, saúde.

O que mais me chamava a atenção é que mesmo que fosse uma carta negativa o professor Órion conseguiu passar para a consulente uma mensagem de otimismo e de esperança, porque esta era a essência dele.

Ele era um homem de alma leve e que transbordava Amor e Alegria. E todos os dias antes de entrar no ar ele fazia questão de cumprimentar as pessoas e passar por vários setores da TV. Na maioria das vezes todo mundo pedia para ele tirar uma carta. Eu era uma delas. Sempre pedia: professor, qual a carta do dia? rs…

A partida dele nos deixou tristes, mas tenho certeza que ele está junto aos seus ancestrais e Orixás orando por todos nós e pelo mundo, neste momento de tantas incertezas e desolação. 

Selma Vidal (Selminha)

O recomeço

Aos 70 anos, Professor Orion já não era mais convidado para a TV, ou para os programas de previsões anuais.  Isso, claro, não o impedia de — no Jornal do Município, que passou a ser online —  dedicar-se à escrever suas previsões anuais, além dos contos já mencionados neste texto.

Eu nunca vi tamanha disposição mental para o trabalho como testemunhei nele. Com tantos anos de profundo envolvimento com as mesmas ferramentas (tarot, numerologia, astrologia) sempre tratava com entusiasmo do assunto. Ele gostava do que fazia, continuava rezando todos os dias e recebendo pessoas para aconselhar como podia. 

Nessa idade, já apresentando os primeiros sinais do que iríamos descobrir mais tarde ser o começo do seu preparo para o desencarne, interrompia seu almoço para pegar um raminho de pinhão roxo e rezar em uma criança com “quebranto”, como presenciei não apenas uma vez.

Nos últimos anos, nos aproximamos mais. Com o meu desenvolvimento e a empolgação de ler e pôr em prática ao seu lado a “feitiçaria brasileira” — essa que foi sua primeira escola — , o fazia lembrar de seu início. Lembro-me de uma ocasião em que eu perguntei-lhe algo sobre algum aspecto da Umbanda ou da magia e ele respondeu: “Gabriel, isso eu não posso te dizer. Leia esse livro e quando você terminar discutiremos…”, e esse cuidado era para ter certeza que eu valorizaria o que ele levou anos para aprender, e me ensinar. 

Só houve uma coisa que ele nunca sequer tocou no assunto. Isso porque sua vitalidade e a longevidade genética de seus pais nos enganaram, dizendo-nos em seus sinais aparentes que teríamos, quem sabe, mais 30 anos pela frente. Também nunca tive curiosidade de perguntar: o que fazer depois que ele morresse?

Em 2016, devido a uma cirrose medicamentosa, as atividades ritualísticas no terreiro foram suspensas, aguardando o retorno da sua internação. Mesmo no hospital, Professor Orion fez amizades com enfermeiros e médicos, que faziam questão de saber como ele estava. Sua esposa, minha mãe, ficou ao seu lado todos os dias, desde o primeiro dia que se conheceram. No seu leito do hospital, na cabeceira da cama, estavam suas guias e, ao lado do travesseiro, seu livrinho de orações. 

Constantemente eu o visitava, e podia, por uma ou duas horas, ouvir as suas lições de otimismo, de um homem que em nenhum momento acreditou que estivesse vivendo seus últimos dias na Terra. Enquanto esperava, fazia seus planos para quando saísse, dentre eles, minha coroação. A feitura do seu primeiro filho de santo, o seu filho de sangue.

Mesmo depois de uma considerável melhora no hospital, a sobrecarga dos rins o levou à hemodiálise, processo que o debilitou dadas as complicações anteriores. Mesmo de alta, já não era mais o homem que saiu quatro meses atrás. Ainda assim alegre, quando eu o levei para seu terreiro, que ficava atrás da nossa casa, olhou para as imagens e se emocionou, achamos por melhor leva-lo novamente para a sala, com medo que a emoção o causasse alguma complicação. Eu nem imagino o que se passou em sua cabeça naquele momento. 

No dia 7 de junho de 2016, aos 71 anos, Professor Orion sofreu um AVC enquanto dormia, o qual o levou a falecer no dia seguinte. Daí em diante, a minha história é narrada no conto “O Desafio de Ser Seu Próprio Mestre”. Professor Orion teve um funeral católico, pois seu corpo era também de José Mário, irmão, tio, padrinho, respeitando assim sua tradição familiar. 

Embora possa hoje compreender que deve-se respeitar a tradição do egum, lamento lembrar que a missa foi celebrada em tom de misericórdia, como se Deus precisasse se lembrar de sua alma Umbandista, e o perdoasse. Lembro tão claramente, no hospital, dele me falar que um de seus familiares havia tentado convencê-lo de que se convertesse ao catolicismo, que se arrependesse de seus pecados. Disse-me ele, com os olhos rasos d’água, que se fosse para morrer, que morreria na sua fé. Na fé que o guiou por toda a sua vida.

Enquanto era sepultado, ouvi a voz de um homem, chorosa, cantando o ponto do seu guia, Pai congo do Mar: 

“Congo quando vem, vem devagarinho, ajuda Oxalá, a chamar seus passarinhos.” 

e em seguida: 

“Mamãe Oxum, estrela guia dos filhos que choram em aflição. Ilumina a vossa estrada mãe Oxum, de luz, de amor e de perdão”.

A voz do homem só cessou quando, por fim, eu parei de cantar.

Em seu terreiro os atabaques foram cobertos e silenciados, os filhos e assistentes foram orientados e, alguns meses depois, sendo eu o representante ativo na Seara de Oxalá – Casa de Xangô, decidi encerrar suas atividades, sob a orientação do meu preto-velho Pai Cipriano de Angola.

O Terreiro foi transformado em um altar familiar, um espaço para rever o tempo e matar a saudade. Ainda que o silêncio das paredes do congá ecoem a ausência de seu Babalaô, o espaço tornou-se um ambiente de amparo, de meditação e de fé.

Eu entendo que poderia começar esse tópico com “O Fim”, mas não. Hoje, Graças ao Caboclo Urubatão da Guia, vejo como um recomeço. Seus exemplos de amor e dedicação às suas entidades ocupam grande parte da minha postura em relação às minhas. Há muito mais que não pode ser codificado na escrita. Aos 27 anos, entendo que minha missão — em relação às expectativas do Professor Orion em vida — não é e nunca foi sucedê-lo, mas sim continuá-lo através de mim, do que venho me tornando. 

Mais novo, lembro-me de ter dito que quando crescesse queria ser igual a ele, mas hoje vejo o quão sábio foi ao dizer: “filho, quando você tiver minha idade saberá mais do que eu.”, não por vaidade, mas por ter a oportunidade de revisar em mim, no meu trabalho de ser meu próprio mestre, o que poderia ser aprimorado nele, que como ser humano tinha suas falhas.

Devo a vida a esse homem, devo a mim vivê-la.

Por mais que uma árvore anciã retorne ao grande mistério,  não há nada no mundo o que não tenha o toque gentil da sua beleza, uma molécula de oxigênio que não tenha passado por suas folhas, não há corações que, ao me conhecerem, ao conhecerem minha mãe e irmã, não conheçam um pouco do homem que ele foi. Seu desencarne me ensinou tanto quanto sua passagem na terra, e ainda vem ensinando. A sua fé sustentou nossa casa, criou-nos, formou-nos, e nos deu muito mais além que o material.

Sempre digo em minhas orações, que onde ele estiver minha gratidão seja uma luz se lhe estiver escuro, e que o calor do meu amor esteja com ele na sua nova missão. Onde ele estiver, que Deus o receba em um bom lugar de descanso, e lhe retribua o amor que dedicou a todos nós.

Professor Orion

O caboclo encantado

O tempo pode até não ser o mesmo para todos, mas existe para todos. Há tempo de preparar a terra, de plantar, de regar, de dar tempo ao tempo e de colher. Há o tempo de podar o galho, de afiar a lâmina, de dar tensão ao arco e atirar a flecha. Há o tempo de respeitar o abate e permitir que o espírito que deixa a matéria inerte viaje tranquilo de volta para o Grande Mistério.  

Os ciclos se renovam, velhas árvores dão novas sementes que levarão sua linhagem para o mundo. Mesmo que um dia a árvore anciã retorne para a terra que lhe deu a vida, ela está viva em quem descansar na sombra de suas filhas, netas e bisnetas, e se alimentar de seus frutos. A caça, por sua vez, alimentará outra espécie que perpetuará a gratidão e o respeito pelo seu sacrifício. A imortalidade, por fim, é se encantar para a ancestralidade. 

E não foi diferente para Itá, que ao chegar à idade avançada, percebeu que sua hora se aproximava. Havia se passado muitos anos de lutas vitoriosas, de caça e sustento para seu povo, liderado por ele. Entretanto, o tempo implacável demonstrava que seu corpo não acompanhava mais sua sabedoria, e a virilidade necessária para trazer o sustento já não respondia como antes. 

Ciente de suas responsabilidades, Itá reuniu seus melhores caçadores guerreiros, e dentre eles escolheu o mais justo, honrado e valente para que pudesse ser seu sucessor. Com honrarias deu-lhe seu arco, seu penacho decorado com penas das aves mais raras e difíceis de serem abatidas. Deu seu colar enfeitado com dentes de grandes predadores com os quais lutou e foi vencedor. 

Toda a tribo estava eufórica, e festejava seu novo Itá, que quer dizer “Pedra”, a pedra que alicerça o povo da tribo, enquanto seu antecessor, agora apenas um velho sábio, entrava pela mata enfrentando a noite, sem se despedir de ninguém, levando consigo apenas duas machadinhas com as quais era um exímio lutador.  

Não se sabe ao certo quanto tempo levou para que o caboclo fizesse sua choupana próxima ao rio, de onde passou a alimentar-se da pesca. Nem mesmo como conseguiu um penacho com penas amarelas e marrons, nem de como teceu uma trama de fios de palha envolvendo uma pequena pedra que, lascada por um raio, caiu na porta de sua choupana durante uma forte tempestade, e colocou-a como adorno em volta do pescoço. Ali, vivia em paz com a natureza, selvagem como o seu coração.  

Apesar de grande herói, o índio não pode com a natureza vil do bicho humano. Quando outros de outra tribo rival o viram e o reconheceram na beirada do rio, o cercaram. Desonraram-no pisando em seu penacho, jogando suas machadinhas no rio, bateram-no sem que ele pudesse esboçar qualquer tipo de defesa. Por fim, atearam fogo em sua choupana e o deixaram para morrer.  

Ao final da tarde ele acordou. Sentia o gosto do sangue na boca e o corpo todo doía, olhou em volta, as cinzas da choupana bailavam ao vento. Viu, sentado próximo a ele, um enorme animal que o observava, mas a vista turva não deixava discernir qual era. O animal se levantou e foi beber a água do rio.  

Ignorando o tamanho do potencial predador, que podia devorá-lo a qualquer momento, arrastou-se para o rio, agradeceu, e bebeu um pouco para aplacar a sede. Então, pouco a pouco arrastou-se para dentro da água onde seus pés e mãos não conseguiam mais tocar o fundo, e sentiu seu corpo sendo levado pela correnteza. Pouco a pouco aceitou seu destino e fechou os olhos. O animal, sentado à beira do rio, apenas o observava. Não tinha uma postura agressiva, mas sim curiosa. O índio nunca soube que animal era. 

Novamente ele abriu os olhos, amanhecia. Estava deitado com as costas na areia e as pernas na água. Ouvia um barulho intenso de queda d’água e com muito esforço levantou-se. Observou ao seu redor e viu que o rio o levara para a beira de uma cachoeira, enorme, que ele, mesmo há muito tempo caçando por aquelas terras, não havia descoberto. 

Observou também que suas machadinhas ficaram enroscadas nas pedras, mas sua força foi se esvaindo e ele caiu no chão outra vez. Viu o grande animal aproximando-se novamente e pensou que com as armas, se desse sorte mais uma vez, não seria devorado vivo. Ele lutaria.  

Enquanto se arrastava (em direção às machadinhas), pensava em tudo que lhe acontecera no que se lembrava. Lembrou de todos queridos de sua tribo, pensou no porquê de não ter se despedido, mas era tarde. Pensou na sua tribo rival, que nada tinha a ganhar numa disputa com um velho como ele, que o humilharam e o surraram por diversão, roubando seu direito de passar os últimos dias em paz.  

O animal caminhou, ainda sem apresentar uma postura agressiva, em direção às machadinhas e colocou-se após elas. O índio sabia que mesmo que conseguisse a firmeza ao pegar na ferramenta, o animal seria mais rápido, com toda a vantagem da situação, mas mesmo assim arrastou-se e conseguiu colocar uma das mãos na machadinha, porém, sentiu novamente uma fraqueza, e o som da cachoeira foi ficando distante, distante até sumir na escuridão. 

Ao abrir os olhos mais uma vez estava novamente na beira do rio, o som da cachoeira era forte. As dores haviam passado como se nunca tivessem existido. Ao seu lado estavam um penacho de penas amarelas e marrons, como o que havia sido destruído, mas diferente daquele, esse tinha pequenos búzios brancos adornando a diadema. O céu limpo trovoou quando ele se coroou com o penacho. 

Levantou-se e andando mais um pouco viu que do outro lado do rio havia o corpo de um índio, mas como estava com o rosto virado para a água, sem nenhum adorno, não pode reconhecê-lo de longe. Ouvindo um barulho vindo da mata, correu para se esconder temendo ser o grande animal que o perseguia, mas no lugar dele viu sair Itá, e seus guerreiros. Pensou em ir nadando até eles, mas algo o impedia. Gritou dizendo “eu estou aqui!”, mas neste momento o céu trovejou. Gritou novamente “eu estou aqui!” e o céu deu outra trovoada, impedindo que Itá e os guerreiros lhe ouvissem.  

Itá pegou o corpo tirando-o da beirada do rio e ali fez-lhe honrarias e entoou cânticos, dando orgulho ao velho que de longe assistia e comprovava a sua boa escolha em dar a sucessão ao índio que respeita um ancestral, mesmo sem saber quem é. O corpo foi enterrado à sombra de uma grande árvore.  

Somente quando Itá e os seus guerreiros foram embora, o velho conseguiu ir até o outro lado do rio. No túmulo com a terra ainda fresca, ajoelhou-se. Estava encantado. Tirou de cima da terra suas machadinhas e seu colar com a pedra de raio, vestindo-se por completo.  

Desde então, naquela cachoeira, nos momentos de maior precisão de justiça, dizem que se lembrar do grande índio que ali foi enterrado e bradar por seu nome invocando a sua lei, os céus respondem com uma trovoada dizendo: Eu estou aqui! 

O Deus finito

Jamais esquecerei da afirmação: “O universo é criativo”. Elegeria como a melhor expressão — até a publicação deste texto — para definir as situações boas e ruins nas quais podemos empregá-la em nossas vidas. 

A mesma inteligência universal que criou um planeta capaz de sustentar toda uma biodiversidade, é a mesma que promove pandemias como a que vivemos hoje (COVID 19), que já matou mais de 274 mil¹ pessoas no mundo, forçando-nos ao isolamento social e a rever nossos valores políticos, morais, espirituais etc. 

A criatividade dessa Inteligência Universal pode nos parecer sádica, porque é difícil para nós compreendermos como ela age em nossas vidas, ainda mais por parecer não se importar com os nossos padrões de ética, de moral, de cultura, de história, de justiça etc. Nossos líderes nada são, nossas posses nada são, nossos títulos nada são ante a ela. Somente nós seres humanos é que, de alguma forma, nada somos e, ao mesmo tempo, somos conscientes de ser um fragmento do Todo.

Somos uma partícula dessa Inteligência Universal, milhares de pequenos universos, uns minimamente conscientes, outros que jamais tomarão consciência disso até que o período da sua encarnação chegue ao fim e eles sejam chamados novamente para o Grande Mistério. 

A Inteligência Universal

As religiões, filosofias e seitas pregam a teoria de que temos um propósito, que fazemos parte de um “Plano Maior” o qual não sabemos ao certo qual é. Mesmo que não sigamos nenhuma das doutrinas citadas neste parágrafo, sentimo-nos constantemente inclinados a um chamado de aprimoramento. Buscamos nos elevar moralmente, espiritualmente, politicamente… o que nos leva a crer que parte desse “plano”, assim como disseram milhares de anos de mestres e iluminados, é buscar a evolução além da matéria.

Como parte da Inteligência Universal, temos o privilégio de escolher como nos posicionamos ante a ela. Sendo passivos a essa “criatividade insana”, jamais saberemos o porquê de termos passado por determinadas situações que classificaremos, a priori, simplesmente como: boas ou ruins. 

As situações ruins, claro, deixam marcas maiores e mais profundas, e qualquer tempo nela é o pior castigo que poderíamos sofrer, deixando-nos feridas mais difíceis de serem cicatrizadas. As boas, são tão sutis que não importa o tempo que durem, nos parece pouco, e sua lembrança é tão forte, mas às vezes tão frágil, que temos medo de um dia não conseguirmos lembrar da sensação de sermos felizes. 

É por isso que, para esses acontecimentos ruins, reservo-nos o direito de acharmos até, no melhor dos casos, injusto. Se até Jesus Cristo, como contam as escrituras na história da crucificação, lamentou ao Pai, demonstrando ser não só divino, mas humano, por que não temos direito de estarmos descontentes com o que nos desagrada?

Eli, Eli, lamá sabachtháni. 
(Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste.)

Mateus 27-45

Mas nós podemos ser ativos ante a ela, e certamente não iremos parar o moinho da vida que nos tritura a fim de nos refinar, mas amenizaremos a dor e o sofrimento proporcionados pelas experiências que precisamos passar para crescermos moralmente e, consequentemente, espiritualmente. Não, não é a dor que purifica, isso é masoquismo. É o que fazemos com ela. Até nisso demonstramos nosso poder de escolha e co-criação.

O ser humano um Deus finito

De forma nenhuma me atreveria a nos comparar a Jesus Cristo, embora sua passagem na Terra seja mais que uma prova de que, além de um espírito nobre, um ser humano bom, convicto de uma ideia e assistido pelos seus Guias Espirituais, pode realizar grandes feitos. Assim, o Messias dividiu a história em A.C e D.C, tornou-se uma ideia imortal de amor e compaixão, e ainda faz com que — dois mil anos depois —  milhares de pessoas ainda se ajoelhem todos os dias rezando por intermédio do seu espírito à Deus.

Entretanto, vale ressaltar que o espírito que encarnou em Jesus já havia atingido um altíssimo grau de pureza e perfeição, sendo antiquíssimo no processo de aprimoramento através da reencarnação e, ao encarnar, desta vez com a missão divina, aliado a uma mente extremamente potente e consciente de suas habilidades psíquicas, trouxe mais do que a inspiração e novos caminhos para o Planeta Terra.

“Não fosse assim, Jesus, a respeito de sua diferenciação com o Pai, de sua antiguidade e de sua evolução de penetrar nos arcanos divinos, não teria dito aos judeus (São João 8: 49, 54, 55, 56, 57 e 58): “honro a meu Pai; vós chamais vosso Deus sem o conhecerdes; eu, porém, o conheço; sim, conheço-o e guardo a sua palavra; vosso pai Abraão exultou por ver o meu dia, viu-o e alegrou-se””. Os judeus ficaram estupefatos e redarguiram: “ainda não tens cinquenta anos e viste Abraão?”. Jesus, contudo, como que se reportando ao seu passado espiri­tual, respondeu: “em verdade, em verdade vos digo: antes que Abraão exis­tisse, eu sou”.

 Artigo: Quem foi Jesus, por Leonardo Machado.

Esse Espírito, ao encarnar em Jesus Cristo, estreitou a relação entre a matéria e a divindade, trazendo o ideal do homem como um Deus finito, realizando tudo aquilo que sua mente ordenou: andar sobre as águas, curar o cego, ressuscitar Lázaro etc. O curioso é que, apesar de tudo, na hora do seu desencarne, como falei acima, não negou seu lado humano.

Sendo o homem a imagem e semelhança de Deus (Gênesis 1,17):

“Ao perceber Deus como o homem infinito, o homem diz até ele: Eu sou o Deus finito.” 

Dogma e Ritual da Alta Magia, Eliphas Levi, do Dogma, Capítulo 8.

É nos inspirando nesse grande iluminado que devemos buscar aplicar uma faísca de luz nos acontecimentos que nos cercam no dia a dia. Não há e nem haverá outros iguais a Jesus — apesar de cada era ter o seu anunciador — e querer ser como tal é o que leva milhares de pessoas à frustração, mas há como aplicar os seus ensinamentos no nosso quotidiano e na forma como nos relacionamos com nossas idiossincrasias. Ninguém chegará a Deus se não pelo seu exemplo de firmeza moral, amor e compaixão dado por Ele.

Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim.

João 14:6

Na prática

Munindo-me deste exemplo, e de outros iluminados que passaram pelo nosso Planeta depois de Jesus Cristo, e suas histórias de vida, passei a acreditar em duas formas de enxergar tudo que acontece conosco e ao nosso redor, buscando uma forma de pragmatizar a vida: lamentando-se e entregando-se ao negativismo (passivo), ou confiando na espiritualidade e buscando compreender com positivismo (ativo).

Não tenho a intenção de ser piegas, definindo inimagináveis condições conflituosas em duas escolhas aparentemente simples — eu disse aparentemente simples —, nem mesmo de deslegitimar ou menosprezar a dor que eu não sinto, mas ainda acredito que nós temos o poder de dar o peso e as medidas aos acontecimentos da nossa vida. 

O mundo todo que está fora de você, primeiro acontece dentro da sua mente. 

Caboclo Urubatan da Guia

Sei que muitos ao lerem isso dirão, talvez com revolta, que estou sendo raso em relação às realidades deveras cruéis e irei humildemente e sinceramente pedir vossas desculpas se fui interpretado dessa forma. De fato, compreendo que as condições sociais, culturais, de região etc., podem usurpar o direito do indivíduo de se libertar dos piores infernos na Terra, mas mesmo que me esforçasse não teria explicações para o porquê de pessoas passarem por isso, só a Inteligência Universal as tem. 

Onde quero chegar, amigo leitor, é que existem pessoas diferentes das que citei no parágrafo acima, que têm garantido o direito de escolher a “passividade” ou a “atividade” e não o usam. Somos eu e você e tantos outros que não vivem o inferno, mas que, até sem perceber, trazem o inferno para si através das próprias escolhas. É preciso incorporar a mente crística, no sentido de saber que dentro de você habita um espírito nobre que tem uma missão na Terra. E como você quer honrá-lo? 

Saber onde você está nesse limiar diz muito sobre quem você é, e a forma como você lida com isso demonstra o quanto pode ajudar o outro sendo você. Para nós, privilegiados sim, podemos escolher e estudar na única escola onde entraremos e sairemos refinados — para melhor, espero —: é o nosso próprio EU.

A espiritualidade como aliada

Nem sempre será fácil, como disse anteriormente, simplificar os acontecimentos a essas duas escolhas, mas podemos tentar. Nós, em potencial, somos iguais. O que nos difere é a forma como encaramos nossas próprias vidas e a relação que temos com a espiritualidade.  

Não digo que alguém precisa de uma religião, ou mesmo acreditar que sua vida faz parte de uma “trama universal” para que faça de fato, mas quem se conscientiza disso pode pôr em prática o exercício da fé. A fé cresce exponencialmente à medida que se exercita, mas não irá impedir que você passe por uma situação a qual você precisa passar. Contudo, certamente te acolherá e te dará um outro entendimento sobre o fato.

Segundo o preto-velho que me acompanha, por exemplo:

“a doença ensina tanto ao enfermo quanto às pessoas próximas e ele, as lições que Deus quer que todos aprendam”.

Pai Cipriano de Angola

Cientes disso, diante da enfermidade, seja conosco ou com alguém próximo de nós, de alguma forma nos tranquilizamos, mesmo que momentaneamente, com esse amparo espiritual. Se nosso esforço for maior da nossa parte (ativo), presenciamos a cura e ainda tiramos um aprendizado dela.

Quando somos acometidos por uma situação caótica, precisamos fazer o que for preciso, mas também é preciso nos fortalecer na fé. É a fé que vai nos auxiliar a superar o processo, a fortalecer nosso espírito, a equilibrar nossas emoções, a aprumar o nosso juízo.

Seja um Deus finito 

A mente, entregue a um momento de prazer, totalmente focada no ato, consegue jorrar milhares de células que, ao encontrar com outra célula no corpo da mulher, é capaz de gerar uma vida, assim como Deus criou a nossa. Da mesma forma, criamos métodos para anular esse processo natural e divino em nossos próprios corpos. Veja que exemplos primorosos. Por que então não permitir que essa mesma mente divina atue nos nossos conflitos, dores, remorsos, instabilidades etc.?

Você é um Deus finito. Nós somos deuses finitos. Longe de querer justificar qualquer endeusamento, que aqui seria o efeito contrário do que proponho, mas uma vez consciente disso abrimos infinitas possibilidades sobre nós mesmos e sobre todos e tudo aquilo que nos cerca. A escolha é sua.

“Eu disse: sois deuses, sois todos filhos do Altíssimo.”

Salmo 82:6

Fonte:
¹Dados do Google disponível em 08/05/2020 neste link.

Seja você mesmo


Nos dias de hoje, onde constantemente somos bombardeados por informações que nos dizem como devemos agir, o que consumir, o que vestir, como nos portar etc., “ser você mesmo” é uma forma de se blindar contra essas “necessidades” que, na maioria dos casos, são alimentadas por uma indústria. O autoconhecimento é uma importante ferramenta para nos tornarmos conscientes do espaço que ocupamos no mundo e, também, a forma mais assertiva de nos afirmar como seres individuais e únicos.

O próprio autoconhecimento fomenta um nicho desta indústria de coachings, mestres, sacerdotes e testemunhas, que com livros, vídeos, frases de efeito e cursos online — de quatro parcelas de R$ 499,90 —, tornaram cada vez mais difícil se chegar a algum lugar, afinal, a todo momento surgem novos métodos “verdadeiros e infalíveis” para tornar os seus dias melhores sendo seu próprio mestre.

De certa forma, alimentamos essa indústria porque encaramos o autoconhecimento como algo que começa e termina num prazo estipulado por alguém de fora, ou a quem nos comparamos, e achamos que, ao fim do curso, seremos donos de nós mesmos. Quem não se ilude tão fácil, vivencia a profundidade e a dificuldade implícita nesta afirmação: “seja você mesmo”.

Aqui não estou levando em consideração as pessoas que usam o autoconhecimento como desculpa para mascarar seus conflitos internos como, por exemplo, alguém que não consegue discernir o momento certo de se posicionar e fala tudo a toda hora, a forma de dizer e é grosseiro(a) etc. e se esconde por trás da alegação de uma autenticidade: “sou assim porque sou autêntico(a)”, quando é, em seu íntimo, frágil tal qual a forma em que sua “autenticidade” pode vociferar.

Escrevo para pessoas que, neste momento, estão avaliando e já pondo em prática o seu processo de autoconhecimento e reforma. Que cansaram de ser extorquidas em sua boa vontade. Portanto, não quero ser mais um a dar treinamentos, mas compartilhar o que ponho em prática e no que acredito, sem querer nada de você, leitor, apenas alguns minutos de sua atenção.

Algumas perguntas nos guiarão neste texto:

1 – Sabemos quem somos para sermos?
2 – Somos a soma de todas as pessoas que nos cercam, ou somos a soma para as pessoas que nos cercam?
3 – Sucumbimos às exigências, ou nos tornamos resistência?

Sabemos quem somos para sermos?

Por não termos essa resposta bem definida é que somos levados à Indústria do Autoconhecimento, que é falha e só enriquece seus autores. Isso porque grande parte dessas publicações não levam em conta o indivíduo como um ser único, portanto, muitas das orientações não se encaixam a mim especificamente ou a você. Em um exemplo prático, é como se receitássemos um complexo vitamínico para milhares de pessoas, sem saber as necessidades do organismo de cada uma. Por mais que sejamos espirituosos e busquemos, a partir do exemplo do autor, tirar nossas próprias conclusões e aplicar em nossas vidas, não é isso que o material vende. A propaganda diz: seja você mesmo, “hoje”, “agora”, “com 10 passos simples!”.

Indicam ao hiperativo que medite, ao que gosta de comer, o jejum, ao que não tem interesse em roupas, a vestir-se melhor, ao comunicativo, falar menos e ouvir mais, ao artista, que se adeque ao gosto do consumidor etc., mas, embora reconheça aspectos positivos em cada recomendação, a proposta ainda é apontar caminhos e não ouvir o que o coração — ou a intuição, se quiserem chamar assim — diz.

Acredito que a forma mais próxima de atingir objetivos de maneira satisfatória está na auto-observação. Nos observando, podemos compreender os contextos que nos dão formação como indivíduos e, também, nos quais estamos inseridos. Ou seja, “quais são suas referências culturais?”, “ao que tem acesso?”, “o que ignora?”, “o que assimila?”, “no que apresenta dificuldade?”, “quais são suas referências familiares e fora delas?”, tudo isso para identificar repetições voluntárias ou involuntárias, enraizadas nessas referências. Não podemos, claro, ser deterministas, mas esses aspectos influenciam fortemente na forma como nos relacionamos com nós mesmos e, consequentemente, com o mundo.

“Nós somos responsáveis pelo outro, estando atentos a isto ou não, desejando ou não, torcendo positivamente ou indo contra, pela simples razão de que, em nosso mundo globalizado, tudo o que fazemos (ou deixamos de fazer) tem impacto na vida de todo mundo e tudo o que as pessoas fazem (ou se privam de fazer) acaba afetando nossas vidas.”

Zygmunt Bauman

Não adianta que eu lhe diga quem você é, ou que você responda essa pergunta pensando em alguém que você não é. Quando busca-se responder à pergunta “quem eu sou?”, deve-se, inclusive, esquecer o discurso da autopromoção, afinal, a quem você quer agradar, ou melhor, enganar?

Seria mais fácil dizer francamente diante de um espelho, olhando em seus olhos: “eu sou fulano(a), sou assim, assim e assim. Gosto disto, disso e daquilo outro. Quando as pessoas me elogiam eu ajo assim, quando me criticam, assim. Quando ninguém vê eu sou assim. Quando me veem eu sou de tal maneira, longe de todos eu sou assim etc.”, sem julgar prontamente se isso é bom ou ruim. Da mesma forma podemos fazer com um caderninho, anotando a nós mesmos livremente.

Se esse exercício for difícil, pense nas situações chave da sua vida. Momentos em que você se viu confrontado, onde seus valores e princípios foram colocados à prova. Não justifique, apenas lembre-se dessas situações e de como foi a sua reação. Nela está presente você. Pode já não ser mais, pode até ser um motivo do qual não se orgulha, mas foi justamente naquele momento em que uma habilidade ou uma deficiência se provaram reais na sua vida. Agora, se já não o fez, é hora de refinar.

Essas são só algumas formas das quais podemos utilizar na busca pela resposta do que somos, contanto que partamos da observação e autoanálise com honestidade, pois a principal questão a ser levantada é o fato dessas perguntas só poderem ser respondidas por nós mesmos.

Encorajo você a tentar, não há como não conseguir. Você pode até me dizer que fez tudo e não achou nenhum defeito, nada relevante e eu irei pedir que, por favor, entre em contato comigo, pois gostaria muito de conhecê-lo(a), mas temo que só irei constatar que a ilusão da perfeição é um grande defeito não considerado por você.

Quem se propõe ao que é preciso para identificar o “eu”, acima de tudo, realiza a autocrítica sem ofender-se consigo mesmo. Se sua autocrítica é capaz de te ofender, imagina o poder que o outro tem sobre você, sem esforço algum?

Quando penso sobre esse assunto a fundo, faço uma comparação do “ser” com a confecção de um perfume, cuja a fragrância comumente tem três níveis de percepção: a “nota de cabeça” é a mais leve e fresca, é a que normalmente desperta o interesse pelo perfume. A “nota de corpo” é a alma e a personalidade, que lhe dá propriedade. Por último, a “nota de fundo”, que é mais densa e substantiva, quando mesclada às demais notas dão o caráter individual da fragrância.

A empreitada de “saber quem somos” não é uma tarefa fácil, de fato. Mudamos facilmente nossas notas de cabeça (gostos, hábitos, consumos) e que influenciam no nosso corpo (posições ideológicas, sentimentais e espirituais). Portanto, o objetivo não é nos definir limitando consequentemente, mas saber quais são as nossas notas de fundo, às quais somadas às outras, nos tornam um indivíduo único.


Somos a soma de todas as pessoas que nos cercam, ou somos a soma para as pessoas que nos cercam?

Como seres sociais nos associamos com pessoas que são, ou pelo menos deveriam ser, parecidas conosco em pensamentos, ações e posições ideológicas. É natural que esse círculo de amizades seja mutável, e que pertençamos a mais grupos, afinal, estamos em constante refinamento.

Somos capazes de saber bem quem desejamos próximos a nós, mas não de dizer, com a mesma precisão, o porquê. Por não sabermos ao certo quem somos, é que os grupos se revelam a forma mais fácil de estarmos aparentemente no controle dessa questão.

Infelizmente, como não alicerçamos um motivo saudável para a manutenção dessas relações, acabamos por atribuir a eles a responsabilidade de nos definir. Estando inseridos entre tais, dizemos para outras pessoas quem somos, mesmo sem ter essa resposta. E para que isso aconteça, tentamos nos adequar para sermos aceitos.

Como água, esforçamo-nos para nos moldar à recipientes ora largos, ora estreitos, ora fáceis, ora difíceis, e logo percebemos o quanto assumir essa postura é exaustivo, (de) que não é possível sustentar a muda de vestes de acordo com o ambiente que se frequenta. As pessoas que nos cercam, também percebem a falta de afinidade entre nós e eles(elas). Sem bases sólidas de ambas as partes, tornamo-nos para o grupo como uma verruga que temos vontade de extrair, mas que, para poupar trabalho, a mantemos por estar num local do corpo que não incomoda.

Entre precisarmos estar em grupos que nos definam e saber quem somos, não se engane, possivelmente sairemos de um grupo e entraremos em outro. Porque enquanto não nos conhecemos, não conhecemos nossa trajetória, acabamos em órbitas. Já pararam para pensar nisso?

Você tem aquele amigo(a) baladeiro(a), que precisa estar em todas as festas “tops” da cidade, sair em alguma foto oficial do evento, e você sempre está junto, mesmo cansado ou sem dinheiro. Quantas foram as vezes que esse amigo ficou com você em casa, no dia em que você disse que não queria sair? Nem preciso me exceder muito porque, em diferentes níveis, já orbitamos pessoas assim. Você gosta da popularidade da pessoa, gosta da alegria que ela parece ter, gosta de como ela conta as histórias e de como as pessoas a orbitam, mas você só a circula, não pertence ao momento, só está no momento.

Existem pessoas que ocupam esse espaço, a depender obviamente do ambiente, de “órbitas” ou “orbitantes”. Os do tipo “órbita”, agregam pessoas ao seu redor. Parece que tudo acontece em função dessas pessoas. Já as do tipo “orbitantes”, é autoexplicativo, e servem para manter os “órbitas”.

Isso, claro, é natural dentro do convívio humano, pessoas que se destacam, que preenchem os espaços, mas por que permitir-se ser sempre orbitante? A questão mais pragmática: para quê? Por que continuar insistindo em orbitar pessoas que não estão dispostas a dividir com você? Respondo: porque você não se conhece.

É por isso que é importante saber se você é a soma dos que te cercam ou se soma aos que te cercam. O autoconhecimento aprimora de forma equivalente o autorrespeito, o autocontrole e o amor próprio. Saber dizer não, recusar convites que não lhe convém (emocionalmente, financeiramente, moralmente), estar menos presente quando é somente para preencher espaços, dizer que não se sente à vontade em determinado ambiente ou com determinadas pessoas, quando feito de forma razoável e sem ser como chantagem, é uma enorme demonstração de maturidade.

Nem órbita, nem orbitante. Nem sempre a sua vontade, nem sempre a vontade do coletivo. Trabalhe-se para somar aos que te cercam, conhecendo e refinando em você algo que possa somar. Se ainda assim não puder, ou não te derem espaço para somar, procure por novas reciprocidades.


Sucumbimos às exigências, ou nos tornamos resistência?

O que pode causar uma grande confusão na resposta dessa pergunta é que não há ao que sucumbir, assim como não há ao que resistir. Ser você mesmo não é fazer só o que te agrada e o que te convém. O que precisa ser sucumbido é o ego que impede você de refletir suas ações. É o medo da solidão ou de se sentir deslocado, te aprisionando em ciclos viciosos não só de pessoas, mas a outros tipos de vícios.

O que deve resistir é a sua busca pelo aprimoramento moral. Por mais que seja desconfortável e doloroso no começo admitir algumas coisas que se guarda a sete chaves, libertar-se desse peso será extremamente reconfortante. Resistir para não sucumbir, não a algo ou a alguém, mas a si mesmo. O tempo vai passar e só então iremos perceber o quanto perdemos com aquilo que não nos convém, e coisas que não estão ao nosso alcance de resolver.

Não temos prazo para concluir, apenas queremos nos esforçar para que tudo que não tenha sua resposta no Tempo, possa ser feito por nós. A autoanálise é constante, e não existe perfeição e, sim, aprimoramento.

Desejo a você uma boa caminhada, e garanto que todos os dias é possível rever aspectos, ir trabalhando a cura de feridas, mágoas, e coisas que não nos dão orgulho, não para provar a ninguém, mas para tornar a caminhada mais leve.

Escrever, por exemplo, é meu manifesto de amor próprio. É ser o que eu sou.

E você, quem é?

Dia de Ogum e São Jorge

Hoje, 23 de abril, comemora-se o dia de São Jorge, santo Católico sincretizado com Ogum, o Orixá das guerras, do aço e da tecnologia. Ambos são distintos nas histórias que alimentam sua devoção e têm suas origens em povos diferentes também. São Jorge é cultuado pelos Cristãos, Ogum pelos povos de nações africanas e por religiões que foram influenciadas por suas matrizes, como a Umbanda e o Candomblé. E o que têm em comum? O sincretismo e a fé do povo brasileiro.

São Jorge é Ogum?

Para que possamos conhecer melhor São Jorge, o Santo Católico, tomamos por base um breve resumo dos relatos de sua vida no século III, onde logo na adolescência, iniciou a carreira militar e logo foi promovido a capitão do exército romano. Aos 23 anos passou a fazer parte da corte imperial, exercendo a função de Tribuno Militar. Ao ter conhecimento dos planos do imperador Diocleciano de matar todos os cristãos, revoltou-se.

Jorge distribuiu toda a sua riqueza aos pobres e permaneceu fiel a fé cristã. O imperador mandou matá-lo no dia 23 de abril de 303. Os relatos de seu martírio contam que mesmo torturado e forçado a caminhar sobre brasas, Jorge não sentia dor e que não se importou em ser enterrado vivo. A última ação dos soldados foi a de degolá-lo. Dizem ainda que diante de tamanha resistência, a mulher do próprio imperador teria se convertido ao cristianismo.

Ogum, na religião iorubá, é citado como o primeiro orixá a descer ao reino de Ile Aiye (“Terra”), com o objetivo de encontrar uma habitação adequada para a futura vida humana e, consequentemente, recebe o nome de Oriki ou Osin Imole, que significa o “primeiro orixá a vir para a Terra.” Foi provavelmente a primeira divindade cultuada pelos iorubás.

Considerado senhor do ferro, da guerra, da agricultura e da tecnologia, Ogum era o filho mais velho de Odudua. Este último era o rei fundador da cidade de Ifé, e Ogum assume o título de rei regente da cidade quando seu pai perde momentaneamente a visão.

Sincretismo Religioso

Quando os primeiros povos africanos chegaram ao Brasil, trouxeram consigo as crenças nas suas divindades, os Orixás. O catolicismo impunha sua doutrina religiosa, e aqueles que não aderissem ao cristianismo e abrissem mão de suas crenças, eram severamente punidos ou mortos. Por conta disso, os escravizados se ajoelhavam para imagens católicas, despistando a atenção dos escravistas, mas em suas mentes rezavam para o seu Orixá. São Jorge, pela sua história de guerreiro incansável, batalhador, que possui uma espada e uma lança, facilmente foi associado a Ogum.

Dessa forma, Ogum pôde estar no altar do escravizado vestido com as armas de São Jorge.

A maior parte dos terreiros de Umbanda, sendo uma religião que tem grande influência das duas matrizes (cristã e africana), adota o sincretismo. Por isso, é comum nos terreiros observarmos no altar a figura do Santo Católico.

Vale lembrar também que não é só por conta do sincretismo, mas que, para serem aceitos na época em que os terreiros eram invadidos pela polícia, seus assentamentos depredados e os Babalorixás presos sob acusação de praticar feitiçaria, ter imagens de Santos Católicos eu seus altares, assim como o nome “Tenda Espírita” e o nome de Santos Católicos para registrar o terreiro (Ex.: o terreiro da Mãe Elza, que se chamava Tenta Espírita Maria da Conceição do Mar) tentava uma tolerância para existirem (e resistirem) às elites brancas, que em grande parte eram cristãs.

A quem devemos culto?

Devemos, acima de tudo, respeitar as tradições de cada indivíduo, para não violarmos o direito universal  que cada um tem de manifestar, como queira, a sua fé. Ter consciência de que uma divindade não é a outra, ou mesmo que se tratam de verdades relativas e não a luz primordial da questão, não anula o direito de sentir-se representado por Ogum, através de São Jorge e vice e versa. O mais importante hoje é a manifestação da fé. A esperança de que esses grandes guerreiros nos ajudem nas batalhas que precisamos vencer.

Cultuem seu Ogum, seu São Jorge, cultuem a fé nos dias melhores, cultuem essa grande força, esse caminho que leva nossos pedidos até Deus. Que São Jorge nos ajude a vencer o Dragão do Ego e da Ignorância, que Ogum nos ajude a vencer as demandas!

Salve São Jorge! Ogunhê meu pai! Patacorí Ogum! Salve a fé!

A cegueira da luz

Há alguns dias venho pensando que deveria escrever sobre esse assunto, afinal, apesar de polêmica, trata-se de uma situação tão comum que não distingue espiritualistas, religiosos etc., sejam iniciantes ou experientes. Todos podem, estando desatentos, serem vítimas desse mal, pois ele facilmente é mascarado pelo ego, fazendo-nos confundir com a própria “convicção”, com “incompreensão” por parte do mundo, ou, em casos mais graves, as condições intrínsecas à missão espiritual.

Sem ter o objetivo findo de apontar situações, mas colocando-nos em exemplos pelos quais será possível divagar sobre o assunto, peço gentilmente que não se sinta acusado ou julgado, caso se encaixe em um deles, mas convidado à refletir sua caminhada até agora. Do que falarei, caro amigo leitor, é o que há muito se conhece como a cegueira da luz.

Os escolhidos de Deus

Convenhamos que se considerar chamado à uma missão espiritual é algo muito nobre. Isso — sendo pouco refinado em relação às inúmeras possibilidades presentes na próxima afirmação — tira-nos do padrão de pessoas que nascerão, viverão e morrerão numa linearidade comum, ou seja, nos achamos de alguma forma especiais, escolhidos por Deus para fazer a diferença no mundo profano, no Planeta de espiações.

Entretanto, esse pensamento precisa ser realmente dimensionado e compreendido, porque todos, sem exceção, são escolhidos por Deus e chamados para uma missão espiritual no Planeta. A questão levantada é justamente a impossibilidade de sermos nós mesmos os detentores do julgo, ou da balança que pesa a missão da vida do outro.

Se considerarmos a Doutrina Espírita e assumirmos que viemos para esse Planeta para cumprir carmas adquiridos de outras encarnações, que viemos já sabendo, mediante um acordo com a cúpula reencarnatória, de todas as nossas dádivas e mazelas, que já sabemos quem são os espíritos que virão conosco para nos auxiliar a seguir o acordado, então como dimensionar a missão de cada indivíduo?

Trazendo para o plano prático, ao passo que alguns têm uma facilidade para escrever com caligrafia, para outros, segurar o lápis é um enorme desafio. Sendo assim, quem de nós pode julgar a nobreza da missão espiritual de cada um?

Infelizmente, de alguma forma somos corrompidos ante à cegueira da luz, fazendo-nos acreditar numa predileção divina, que torna nossas dores e aflições diferentes das de todas as pessoas ao nosso redor. O que acessamos, graças a essa conexão com o mundo espiritual, não pode ser compreendido por mais ninguém, aliás, até pode, por aqueles que simplesmente concordam conosco e nos dizem palavras que soam como “tapinhas nas costas”: “você é muito iluminado!”

Mesmo que pessoas comuns — como consideramos aqueles que não são escolhidos — nos digam qualquer coisa a respeito de nós, ignoramos porque não foi um Guia Espiritual quem nos disse, ou não saiu em um oráculo do nosso hábito de consulta. As pessoas são invejosas quando nos revelam nossos exageros, são limitadas, e não devemos dar ouvidos a pessoas assim. Somente ouvimos a quem nos considera um ser de luz, por isso a caminhada é solitária, afinal, existem poucos como nós, escolhidos de Deus.

Por conta da espiritualidade

Admitir que somos seres espirituais que, através da encarnação, vivenciam uma experiência material, não nos dá o direito de nos eximir das responsabilidades que as escolhas do livre-arbítrio trazem. Inclusive, precisamos refletir sobre a forma como nos posicionamos nos ambientes em que estamos, e como as pessoas que nos cercam se relacionam conosco.

Dizemos que somos mal compreendidos e que, por isso, ao nosso lado existem poucas e leais pessoas, quando na verdade não queremos é enxergar como nos tornamos chatos, indispostos a tratar de qualquer outro assunto, em uma reunião de amigos, por exemplo, que não a própria espiritualidade.

Sabemos que a sensação é muito boa quando assimilamos aquele conteúdo denso e queremos simplificá-lo para que todos ao nosso redor também tenham essa chance de compartilhar do que foi adquirido. Apesar de parecer uma boa intenção, só reproduzimos o comportamento de uma criança que, ao terminar de colorir um desenho, corre para mostrar aos pais esperando aprovação.

Muitas vezes, as pessoas que nos cercam não querem saber sobre exercícios para fortalecimento do campo magnético pessoal, ou de como acendemos uma vela e conseguimos que fosse atendido tal pedido, ou mesmo como, através da experiência que o outro divide conosco, é a espiritualidade que está agindo. Na maioria das vezes, as pessoas querem ouvidos generosos que possam ouvir sem que as interrompam. Desabafar suas angústias sem que lhes sejam apresentadas soluções imediatas ou formas de agir. Querem dividir seus pequenos aprendizados sem serem abarrotadas por uma avalanche de conteúdo.

Lembra que falamos sobre a caligrafia e de pessoas que tem dificuldade de segurar o lápis? Para algumas pessoas não é fácil assimilar a espiritualidade. Digo que não têm facilidade, jamais que não têm capacidade. Para alguns, existe a dificuldade de entender os arquétipos, a simbologia, o ritual, então, para eles, toda novidade é uma grande novidade — e é, de fato! —. As sensações que sentiram ao acender uma vela e fazer determinada prece é, até o momento, a melhor coisa que essas pessoas podem ter experienciado desde que se propuseram à espiritualidade.

Então, como mais experientes, deveríamos sempre nos adequar à conversa e explorar mais a empolgação para ajudar o neófito, e não o contrário, de soterrá-lo com teorias, livros, pensamentos, palavras de efeito, muitas vezes falando de nós mesmos. Fazer isso é como se pisássemos em um broto.

Outro aspecto importante é, como disse no começo deste tópico, que nem tudo pode ser colocado na conta da espiritualidade. Muitas das mazelas de nossas vidas somos nós mesmos os responsáveis. É a nossa fraqueza moral que nos aponta sempre outros culpados e situações antes de admitirmos nossos erros. Ganhamos as discussões com retiradas estratégicas e o silêncio, ou alimentamos um discurso pomposo cheio de certezas, mas dentro de nós a raiva nos corrói, “porque quem está acostumado a aplausos, não aguenta uma vaia”.

Nossa vida pode estar sendo sofrida não porque Deus quer que seja assim, ou porque a caminhada do médium é sofrida, ou porque o sofrimento purifica. Nossa vida está sendo sofrida porque nós não nos libertamos dos vícios, não ouvimos as opiniões que contrariam nossa santidade, porque nossas torres foram construídas bem altas, nos tirando da terra e nos aproximando dos céus, mas com alicerces frágeis ou inexistentes. Qualquer pouca atenção, piada, sorriso atravessado, pergunta direta, nos tomba.

O sacrifício de viver num mundo de imperfeições

Ficamos impressionados em como as “pessoas comuns” não percebem como o mundo espiritual é óbvio. Como pode ter quem ainda beba em bares, ignorando que alimentam espíritos do plano grosseiro? Como pode alguém que se diz tão espiritualizado passar pelo porteiro sem desejar-lhe um bom dia?

Saturamo-nos de nossas perfeições, e para todas as imperfeições temos justificativas “plausíveis espiritualmente” para as pessoas que nos cercam: “Fui no bar naquele dia tomar minha cerveja porque em casa tenho minhas firmezas e estava cercado por um manto de proteção. Não desejei um bom dia ao porteiro porque ele estava vibrando numa sintonia mais densa que a minha, decidi não misturar”.

Fazemos parte de uma “biodiversidade espiritual”, portanto, comumente alimentamos espíritos que vagam e despertam interesse nas energias que estamos emanando. Cientes disso, não seria muito mais fácil para nós admitirmos que não há problemas em tomar uma cerveja em um bar, contanto que não nos permitamos exageros?  Não seria mais fácil reconhecer não estarmos em um bom dia e depois chegar para o porteiro e lamentar a descortesia?

Sempre é o outro quem está em desequilíbrio. É difícil para nós admitirmos que somos passiveis das mudanças de humor, dos vícios de maneira geral, que nossos corpos não são perfeitos, que nossa alimentação não é luz do sol, e que a imperfeição faz parte do nosso plano, pois, embora espíritos, ainda estamos matéria.

Nos excluímos, graças à cegueira, do grupo de seres humanos que, independente da idade e experiências, estão a sofrer constantes influências sociais, culturais, como também influências familiares, traumas de infância, etc. Assumir tudo isso é difícil, por isso, é mais fácil pregarmos a imagem do ser idôneo(a) , imaculado(a), nos distanciando para que nossos defeitos não sejam evidentes. Empolgados por nossa prepotência e arrogância, reservamo-nos o direito de exercer um papel regulador na vida dos outros, com orientações ostensivas: “Não façam isso! Façam aquilo!”, mas, escondido dos olhos iludidos por nossos “exemplos”, fazemos exatamente o contrário.

Afinal, onde queremos chegar?

Se você chegou até o final desse texto, deve ter lembrando de várias pessoas ao seu redor com quem gostaria de compartilha-lo, a fim de “dar um toque”, mas percebe que, talvez, em nenhum momento, ou em poucos, você pensou em você? Quais são os outros exemplos não abordados no texto que você pratica e que entrariam em conformidade com nossa conversa? Foi exatamente por isso que, em todos os exemplos deste texto, usei o pronome na primeira pessoa do plural, “nós”, porque não estou em um patamar diferente dos acima citados.

É necessário percebermos que não adianta devorar livros, conhecer teorias, técnicas e ter experiências práticas esperando que o retorno disso seja o reconhecimento dos outros, ou que isso nos dê motivos para nos segregar do mundo. O nosso axé individual, o que nos torna únicos, só nós podemos e devemos valorizar. Devemos respeitar-nos, zelar-nos, alimentar-nos, e não esperar que outras pessoas façam isso por nós. Quanto maior é a nossa necessidade de aprovação, menor é a nossa maturidade moral e espiritual.

Podemos e devemos julgar-nos escolhidos por Deus (Inteligência Universal), para realizar uma grandiosa obra neste Planeta hoje, agora e em um único lugar: nas nossas próprias vidas! É aprimorando-nos que aprimoramos o mundo ao nosso redor.

Tudo que acumulamos, nos nossos breves anos de existência, só pode ser útil se primeiro colocarmos em prática a aplicabilidade da reforma em nós mesmos. Só assim, entendendo nossos preconceitos, nossos temores, nossas angústias, nosso ego, nossa missão etc., é que podemos ser acessíveis à entender o preconceituoso, e ajudá-lo; o temeroso, e ajudá-lo; o angustiado, e ajudá-lo; o egoico, e ajudá-lo etc. Esses são alguns motivos que nos tornam o que somos: todos um.

“Ninguém acende uma candeia e a coloca em lugar onde fique escondida, nem debaixo de uma vasilha. Ao contrário, coloca-a num local apropriado, para que os que entram na casa possam ver seu luminar.”

Lucas 11:33

O poder da fé

Quando éramos pequenos, minha irmã e eu fomos educados a anotar nossos pedidos em um papel e pôr em baixo da imagem do Guia que queríamos que intervisse por nós. Então, com meus grandes problemas de criança, eu escrevia: “Proteção e inspiração para que eu consiga fazer uma boa prova e passar de ano.”, e colocava em baixo da imagem de gesso que representava o preto-velho que meu pai recebia, o Pai Congo do Mar.

Lembro-me de fazer isso em várias ocasiões, não só pendido para passar de ano (a matemática sempre me pegava), como também para interceder pela cura do meu pai, quando ele precisou fazer um cateterismo, e também quando colocou uma válvula mecânica na artéria do coração. Engraçado que à época, eu achava que aquela era uma forma de crianças fazerem os pedidos, já que meu pai costumava usar muitas outras coisas como: velas, frutas, charutos, etc., até que, no dia em que ele foi internado para fazer a cirurgia do coração, sem que ele soubesse, eu fiz como me ensinou com meus pedidos, porém, ao levantar a imagem de gesso do Pai Congo do Mar, já havia um papel em baixo com a letra dele, circulada por pemba, grafado com um símbolo, pedindo saúde, proteção espiritual e uma boa recuperação. Nunca me esqueci desse gesto dele.

Confesso que em alguns momentos eu me perguntava: “mas se a entidade é um espírito, por que temos que escrever e colocar em baixo da imagem dela?”. Nunca fiz essa pergunta ao meu Pai, mas mais tarde tomei conhecimento. Escrever é grafar uma sequência de letras formando uma palavra que carrega significado (símbolo). Imaginem que para a magia todo o universo cabe na escrita da palavra “universo”. Que um coração pode representar todo o amor. Que a estrela com a ponta para cima representa o homem no poder da Ordem, e que com a ponta para baixo representa a Desordem no poder do homem. Quanto mais natural é o material com que se escreve (grafite, carvão, pemba), mais energia é capaz de se movimentar. Desta forma, a mironga está em colocar o verbo (vontade) contido no símbolo em baixo de uma imagem de gesso (terra) consagrada a uma entidade e em contato com o chão (Terra).

De uma forma lúdica, meu pai aplicava seu conhecimento no dia a dia e eu, por não saber nada do que mencionei acima na época, aprendia como funcionava a fé.

“Pedi, e vos será concedido; buscai, e encontrareis; batei, e a porta será aberta para vós. Pois todo o que pede recebe; o que busca encontra; e a quem bate, se lhe abrirá.”

Mateus 7:7

A fé 

A fé é imaterial, impalpável, e acredito que também é uma forma de inteligência. Digo, porque tenho por “inteligência” uma “habilidade”. Fazer cálculos é uma inteligência, pedalar é uma inteligência, escrever é uma inteligência. Dentro desses exemplos citados, a fé é, mesmo sendo natural do indivíduo, uma habilidade que pode ser exercitada e aprimorada como todas as outras.

Veja, admito ser muito racional, e toda vida que me deparo com alguma questão mediúnica ou espiritual, a princípio, tenho dificuldade em associá-la, se julgá-la muito subjetiva e sem fundamentos palpáveis às minhas referências. Tive muita dificuldade para ancorar as sutilezas das práticas esotéricas orientais. Foi ao fracassar repetidamente tentando colocar à prova a ineficácia do Reiki, que passei a utilizá-lo como ferramenta para uso próprio. Eu era capaz de entender todo processo explicativo pelo qual a manipulação da energia universal era realizada, tal qual tinha nos livros. Somente após a minha iniciação é que pude testemunhar a sua eficácia. Entretanto, confesso que para práticas místicas, esotéricas e ocultistas contemporâneas, sou ainda reticente.

Vale criar um parágrafo só para dizer, caro leitor, que não sou eu quem valido ou não determinada prática, pois seria um absurdo de arrogância da minha parte. O que estou dizendo é que, no meu caso, uso apenas aquilo que assimilo. Para mim, para minhas referências e experiências, faz mais sentido acender uma vela do que usar um gráfico radiestésico, ou mesmo usar os dois a usar somente o gráfico, ou ainda, caso usasse somente o gráfico, seria riscando-o com pemba e não impresso e emplastificado como já vi usarem. Portanto, não digo que a prática é inútil, digo somente que não consigo utiliza-la como forma de conexão com o sagrado, e está tudo bem com isso.

Recentemente perguntaram-me: “…, mas como você consegue ter tanta fé tendo a cabeça tão racional?”. A questão é que, quando uma mente racional testa exaustivamente infinitas possibilidades e se convence da força presente em um ritual/reza/simpatia/etc., não há mais quem tire a fé adquirida. Por exemplo, não há quem consiga me provar a ineficácia do Reiki, por usá-lo constantemente somando seus fundamentos aos fundamentos da cultura ocidental.

Contudo, a ideia de ofertar, seja uma vela, uma fruta, um chumaço de fumo ou uma bebida, é enraizada em mim, nas práticas da Umbanda que acompanho desde que nasci, até mesmo agora na fase adulta com novos entendimentos das oferendas, graças à eficácia comprovada pela experiência. Lembro-me que em 2016 recebi uma ligação do meu pai, ele já estava internado há três meses devido a um problema nos rins, mas poderia ter alta para continuar o tratamento de casa assim que conseguisse uma vaga para fazer hemodiálise fora do hospital. Como dependíamos de vagas públicas, no local mais próximo habilitado para realizar o procedimento era praticamente impossível conseguir uma, devido a procura altíssima.

Após resolver as demandas burocráticas para solicitar a matrícula no Instituto, percebi que naquele dia comemorava-se o Dia de Santo Antônio, e lembrei do auspício do Padroeiro dos Pobres: “Se milagres desejais recorrei a Santo Antônio…”. Dirigi-me até o congá, peguei a imagem do Santo, o coloquei em cima de uma mesa coberta com um pano branco e ofereci pequenos pães, uma taça de vinho e uma vela branca. Anotei em um papel o nome completo do meu pai, o endereço do Instituto e o pedido. No momento da prece eram 10h, fiz as orações e saí. Às 16h me ligaram do Instituto, na sede mais próxima à minha casa, oferecendo uma vaga que havia surgido graças a um paciente que voltou para sua cidade natal e iria continuar o tratamento lá.

O nome do meu pai, segundo a auxiliar administrativa do Instituto, lhe saltou aos olhos.

É possível treinar a fé?

Sim, porque a fé se inicia pela causa e se fortalece no efeito. A mente humana é facilmente convencida quando inflada de referências ou quando dentro de um ritual. Quando se deixa de terceirizar o poder que cada um tem e passa-se a assumir a responsabilidade pelos feitos e efeitos, ela se fortalece. É só observar que, na maioria dos casos, é em meio às turbulências da vida (causas) que nós a aprimoramos, pois é justamente nesses momentos que mais nos apegamos à espiritualidade.

Entretanto, não é preciso sofrer para fortalecer a fé. O hábito de rezar, por exemplo, a fortalece. Não digo o ato de pronunciar palavras decoradas e vazias como quem recita um poema frio. Falo de oração, orar, pronunciar as palavras, fechar os olhos, sentir as afirmações na sua mente.  

Assim, quando você pronuncia: “São Miguel à minha frente. São Miguel às minhas costas. São Miguel ao meu lado direito. São Miguel ao meu lado esquerdo. São Miguel sobre mim. São Miguel sob mim.”, o magista é capaz de ver São Miguel Arcanjo materializar-se em seu pensamento, vir em auxílio às suas preces e posicionar-se com sua espada e escudo em todas as direções indicadas pelo verbo. Essa é a evocação verdadeira.

Somos uma matéria rica, capazes de grandes obras, mas para que isso aconteça precisamos fortalecer a nossa fé, principalmente a fé que temos em nós mesmos, na capacidade de guiar nossos próprios passos. Precisamos valorizar menos as opiniões alheias que não nos edificam, os julgamentos desnecessários e a autocobrança excessiva. Precisamos exercitar a fé não só para pedir, mas para que, criando uma egrégora “positiva” ao nosso redor, as nossas necessidades sejam atendidas sem que seja necessário pedir. Por muitas vezes, comentava meu pai, que numa época difícil aqui em Fortaleza, ele terminava de pôr o último quilo de feijão na panela sem saber quando entraria o próximo dinheiro para comprar outro alimento, quando de repente chegava um filho de santo ou um amigo, sem que combinassem, com uma cesta básica para ele.

Do nada? Eu não acredito.

Considerações finais 

A fé é um instrumento poderoso. Acreditar, explicando de uma forma sem romantismos, é um esforço enorme, requer um esforço enorme, um autocontrole emocional e mental, e tanta energia não se perde. É essa energia que entra em ação, a qual alimenta o verbo, sintonizando com energias que vibram na mesma intensidade e possibilitam que os caminhos se abram e o retorno do pedido chegue logo depois que realizada a prece.

Sempre busco ser cuidadoso quando reflito sobre temas tão sensíveis. Isso porque, por se tratar de algo tão amplo, corro o risco de ser apenas mais um a tecer comentários que desinformam. No meu caso, me tranquiliza saber que nada mais tenho a oferecer, caro amigo leitor, além das minhas próprias experiências.

Não pretendo te dizer como deve agir, mas refletir junto a você para que possa encontrar os meios mais confortáveis para seguir a sua caminhada. Sei que escrevo, de certa forma, para pessoas que procuraram em algum lugar “Como fortalecer a fé”, ou que receberam como indicação de leitura porque buscavam essa resposta. Desculpe-me se não posso dar uma fórmula para isso.

Eu não ensino espiritualidade, eu a comento; e espero que meus comentários possam ajudar você a encontrar seu próprio caminho.

Das muitas coisas de que não duvido, das muitas coisas em que eu tenho fé, tenha certeza, uma delas é em você, leitor.

Tenhamos fé.