Confia na espiritualidade

Quando ouço pessoas dizerem que a espiritualidade respondeu todas as suas perguntas, eu acredito. Acredito em quem viu sua vida se transformar do caos em algo minimamente organizado, ou uma vida sofrida encher-se de paz. Eu acredito em pessoas que dizem ser testemunhas do agir da espiritualidade em suas vidas. Comigo, exceto alguns detalhes, também foi assim, e são justamente esses detalhes que me fazem refletir: será mesmo que a espiritualidade age constantemente em nossas vidas?

Em 2014, ano em que dei início ao desenvolvimento na Umbanda, não tive respostas para todas as minhas perguntas imediatas e digo ainda que algumas andam comigo esperando alguém que as dê atenção. Na verdade, novas dúvidas surgiram, mais inquietantes, mais profundas. A partir daquele ano, todos os meus conceitos e certezas foram redefinidos. Era consideravelmente mais fácil viver na superfície, onde as coisas simplesmente refletiam, onde eu apenas reagia aos estímulos do mundo. Tomar responsabilidade sobre grande parte do que acontece na minha vida foi e está sendo uma empreitada desafiadora.

Não tenho dúvidas ao dizer que todo indivíduo vivencia a espiritualidade, queira ele ou não. Por mais indisponível que esteja para assimilar qualquer tipo de manifestação espiritual, mística, etc., todo ser deste planeta entranha-se na trama universal do Criador. Diga-me o que o rico, mas infeliz e solitário, tem a aprender com seus trilhões? O que o indivíduo em situação de miséria, que encontra em outros seres a gratidão pela doação do pão de cada dia, tem a aprender com sua condição? Esses dois exemplos antagônicos nos mostram que foi tirado de nós o direito da plenitude para que possamos valorizar o pouco que temos e que, por ventura, pode ser muito para o outro. A lição está nas variáveis.

Tudo que acontece é para o nosso bem? 

Meu pai dizia, “Tudo acontece para o nosso bem!”, se for verdade, a princípio seria muito cruel que o sofrimento fosse nossa principal escola e que o mundo nos fustigasse o tempo inteiro a desistirmos de nossos sonhos, anseios, metas, independente das proporções. Isso ao passo que, diante de tantos obstáculos, nos pareçam poucos os motivos para continuar.

O ano de 2016 foi muito decisivo para mim. Foi o ano do Eremita, o 9º arcano do Tarot. Para algumas escolas de numerologia o número 9, por ser o último que compreende a sequência numérica do 0 ao 9 (0, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9), já que a partir do “9” todos os números são formados por repetições dessa sequência (10, 11, 12, 13…), simboliza o fim dos ciclos.

Na sua interpretação mais usual, o Eremita é aquele que se mune de uma capa para proteger-se das influências exteriores e ocultar-se, que usa o cajado, símbolo da vontade e da magia, e uma pequena lanterna que não ilumina nada à frente, apenas os seus próprios passos. Que simbolismo, não é mesmo? O arcano, quando aparece no tarô, nos diz que é hora de proteger-se, ocultar-se e encarar os fins de ciclos como uma importante jornada de autoconhecimento, apontando a lanterna da verdade para dentro de si. O Eremita testa nossa paciência e nos força rupturas que nos farão ver o mundo com novas posturas.

Naquele ano, vejam só, terminei um namoro, meu pai faleceu, meu Babalorixá consequentemente faleceu, eu herdei um terreiro e, em seguida, encerrei as atividades ritualísticas do mesmo, com mais de 30 anos de existência. A casa passou a ter outra dinâmica. Minha irmã, mãe e eu passamos a assumir outros papeis e posturas. Tudo precisou recomeçar do zero.

Não, caro amigo leitor, não estou aqui para desabafar sobre minha vida espiritualista, mas para refletir a respeito dos caminhos da espiritualidade, que muitas vezes nos são controversos, mas que quando estamos dispostos a aprender com ele, o sofrimento torna-se menor e a fé se fortalece.

Tenho uma amiga astróloga que vez por outra me diz: “Nivartan, o universo é criativo…”, e como é! Hoje, quando paro para pensar no desenrolar desses quatro anos, na véspera de completar 27 anos de idade, vejo com gratidão tudo que aconteceu. Ser grato pela morte do próprio pai pode parecer um egoísmo tremendo e é claro que, se pudesse escolher, queria estar ao lado dele, mas ao desencarnar meu pai pode me ensinar as lições que só através da perda foram possíveis de ser aprendidas. Se ele estivesse aqui hoje, eu não estaria escrevendo esse texto agora e, digo mais, talvez não seria quem sou.

Esse, é claro, é apenas o meu exemplo. Aposto que você também tem seus motivos para te levar a diante, mesmo que te seja ainda doloroso como a saudade é para mim de vez em quando. Por isso, quero te sugerir que faça uma reanálise dos seus problemas atuais ao fim deste texto, e tente acompanhar junto ao meu raciocínio para chegar, por sua conta, a uma nova forma de lidar com eles.

A espiritualidade age constantemente em nossas vidas?

Sem dúvidas! Lembra daquela rua que você ia seguir e, pressentindo um perigo, decidiu ir por outro caminho e percebeu que se livrara de uma tocaia de assaltantes? Lembra daquele dia que você voltou mais cedo pra casa, mesmo com todos insistindo para você ficar, e você soube no outro dia do tiroteio que houve depois que saiu? Lembra daquele dia que você tirou o pé do acelerador e um motorista embriagado avançou a preferencial e por pouco não te pegou? Lembra daquele dia que você perdeu o ônibus que foi assaltado no ponto seguinte?

Agora… lembra do dia em que você foi assaltado na rua, e que sua intuição dizia para não seguir em frente e você não ouviu? Lembra daquele dia que você ouviu seus amigos mais do que a você mesmo e assistiu em pânico a execução de pessoas no bar em que estavam? Lembra daquele dia que você ignorou seu instinto e pisou mais no acelerador batendo num motorista bêbado que avançou a preferencial? Lembra daquele dia que você correu atrás do ônibus, sinalizando até ele parar, logo o que já havia passado do ponto, e que justamente foi assaltado horas depois?

Os incrédulos atribuirão ao acaso os exemplos citados acima. Ao meu ver, e o que quero mostrar a você leitor, é que em todos os exemplos as ações foram provocadas para que você percebesse uma lição importante: ouvir a sua intuição. Dificilmente nos primeiros exemplos o indivíduo percebe que trata-se da sua intuição, afinal, tudo ocorreu bem. No segundo, o sofrimento ensina. Uma vez a lição aprendida, casos como esses não serão provocados pelo destino. Não teme a vida quem sabe ouvir a voz de Deus dentro de si. Seja pelo bem ou pelo mal, a forma como aprendemos a fortalecer nossa fé se dá nesses momentos em que nos deparamos com as encruzilhadas da vida.

Através da espiritualidade entendemos o que nos acontece.

Dirão alguns: “mas isso é manipulação!”, e eu os entenderei. Não irei, de maneira nenhuma, dizer como cada um deve lidar com suas experiências. Os exemplos acima são, mesmo graves, ainda simples diante das atrocidades de que é capaz a vida e a criatividade com que ela tenta nos elevar espiritualmente. Para nós tudo é tão grande. Para o Plano Espiritual trata-se de um ponto, não menosprezado, mas apenas um ponto.

Acredito que possamos considerar as duas questões: que a espiritualidade age em nossas vidas e que através dela conseguimos enxergar e entender melhor as situações que passamos. Isso porque dividir as causas e os efeitos é dividir a consciência de que tudo que acontece, seja bom ou ruim, nos edifica, se quisermos fazer dos escombros a base dos nossos alicerces. Portanto, a espiritualidade é o todo, é a causa e o feito.

Quando trilhamos o caminho da bestialidade, como bestas vivemos, somos sacrificados e chamados a comparecer novamente aos Senhores do Karma. Quando buscamos a evolução espiritual, quando trabalhamos a evolução moral, mais distantes ficamos das tragédias, dos acidentes, etc. A tragédia vibra na mesma intensidade que o ser trágico. A proteção vibra na mesma intensidade do indivíduo que se protege.

Portanto, como você tem cuidado da sua espiritualidade?

Orar é a solução

Esses dias tive acesso a um conto escrito pelo meu pai intitulado “Caminhos do Destino”. Nele, temos uma narrativa de como toda a sua vida espiritual começou e o levou até o Sacerdócio na Umbanda, no Centro Espírita Maria da Conceição do Mar, na Penha (RJ). Dentre todos os casos e seus detalhes, relatos de uma vida batalhadora e solitária onde a fé era o único porto, um deles me chamou mais atenção, este que foi durante toda a sua vida, ao meu ver, uma de suas principais características: estar constantemente em oração.

“Uma noite deixou a sede da prefeitura, onde conversava com o prefeito, perto da meia-noite. Ao passar próximo ao cemitério da cidade, no início de uma curva de descida, o carro teve a parte elétrica cortada. O motorista havia bebido umas cervejas, e não teve reflexo de acompanhar a estrada. O carro por pouco não caiu num precipício, mas ficou totalmente destruído, ao bater numa enorme rocha.

…Na hora do acidente, com a pancada no diafragma ficou sem ar. Lembrava-se das orações repetidas na mente… “Aquele que repousa no socorro do Altíssimo pode permanecer tranquilo debaixo da proteção do Deus dos Céus…” Desde bem pequeno era devoto do Salmo 90. Muitas vezes fora salvo ao rezar esse salmo que já sabia de cor” .

Caminho do Destino, Professor Orion, 2016

Todos os dias ao acordar, depois de cumprir seus preceitos, Professor Orion munia-se de seu livrinho de orações, aliás, de seus livrinhos de orações e rezava. Nesse momento, pedia a sua esposa e filhos que, pelo motivo que fosse, não o interrompessem até que ele terminasse. Cresci vendo essa cena se repetir, até que eu mesmo passei a reproduzi-la.

No começo, imitava até as nuances da sua voz e confesso que nem sempre tinha a dimensão do poder contido nas palavras que proferia. Com seu ensinamento de prática constante e com o passar do tempo, logo eu atestava o poder da oração e a capacidade que a mente tem de moldar nossas vidas.

Existe uma forma certa de rezar? Eu acredito que não. O ato de orar é muito íntimo e sendo assim compartilho de uma luz da Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec, quando ela esclarece:

“A prece é agradável a Deus?— A prece é sempre agradável a Deus quando ditada pelo coração, porque a intenção é tudo para Ele. A prece do coração é preferível à que podes ler, por mais bela que seja, se a leres mais com os lábios do que com o pensamento. A prece é agradável a Deus quando é proferida com fé, com fervor e sinceridade. Não creias, pois, que Deus seja tocado pelo homem vão, orgulhoso e egoísta, a menos que a sua prece represente um ato de sincero arrependimento e de verdadeira humildade.”

Capítulo IV – Da Prece – 658, O Livro dos Espíritos.

Por tanto, meu objetivo não é tratar de como se reza, mas tecer aspectos que podem lhe ajudar a alcançar níveis cada vez maiores de consciência a partir do hábito de rezar, pois acredito que o homem é capaz de orar não somente para se aproximar de Deus, louvá-lo e entregar seus pedidos, mas para fazer de sua oração um cavalo (falaremos sobre isso mais à frente) cuja vontade faz montaria e chega ao seu objetivo.

Um conceito básico de energia 

Antes que possamos iniciar a analogia a seguir, é preciso que seja feita uma pequena introdução sobre “energia”, que tem o conceito um pouco mais abrangente do que a ciência humana nos propõe. Por “energia”, entende-se uma “força vital” capaz de realizar ações e obras. Várias culturas, além da nossa ocidental, têm suas leituras dessa energia universal. Na Índia chamam de “PRANA”, na China chamam de “CHI”, no Japão “KI”, os africanos de “Axé”, todas fazendo referência a essa força vital do qual nosso Planeta, e todas as coisas que nele estão, são abundantes.

Nós humanos, por sermos feitos de matéria somos energia (E=MC²) e capazes, não somente de senti-la (Energia da Consciência), como emiti-la (Energia de Emanação).

A mente como capacitor

Os circuitos eletrônicos, em sua maioria, dispõem de uma pequena peça muito comum e importante para seu funcionamento: os capacitores. Esses componentes acumulam energia eletrostática e a liberam para que cumpra sua função determinada pelo circuito. A mente humana, de forma análoga, é capaz do mesmo feito, de armazenar energia (cósmica) e depois direcioná-la a um propósito.

Ao passo que o capacitor é alimentado pela corrente elétrica, nossa mente e o seu estado alterado de consciência são alimentados pelas preces, cânticos, o uso de velas, instrumentos musicais, incensos etc. Ao atingir o ápice de concentração de energia, a mente passa a ser não só receptora, mas também emissora (Energia de Emanação).

Por isso, quando a oração é realizada em um grande momento de apelo, de entrega e de concentração, pode-se movimentar e armazenar uma grande quantidade de energia e, por ela ser vital e divina, projetá-la e assim conseguir-se tudo. O mesmo se aplica às correntes de oração. Não temo estar sendo exagerado ao alegar que tudo, inclusive o impossível, pode ser realizado através da oração, mas, para isso, somente uma mente muito capaz, extraordinariamente ciente de seus poderes, dotada de um alto nível de concentração, poderia fazê-lo. Foi assim que Jesus Cristo, a exemplo de seus milagres, andou sobre as águas, curou o cego e ressuscitou Lázaro, morto há três dias.

Não é à toa que os cristãos evocam o Pai, o Filho e o Espirito Santo, a trindade por qual todas as coisas são feitas, mas encerram suas orações com “Amém”, determinando que assim seja, mostrando ainda o poder do homem sobre suas vontades.

A oração como cavalo

Certo dia, conversando com uma amiga, ela me falou sobre seus pais que moram no interior e de que desde sempre rezam o terço para tudo. O terço passou a ser para eles como um membro do corpo, inseparável. Para todas as situações eles se sentam e rezam, desde uma gripe simples que um filho passa, a uma situação de vida ou morte. Duvidaria você que eles conseguem atingir seus objetivos? Eu não.

Meu pai contava sobre uma difícil época em que as vacas que ele criava eram atacadas por bernes. Buscando uma solução, foi procurar um feiticeiro do mato que morava em um sítio próximo ao dele. Chegando ao lugar, encontrou o velho perto da cerca e, depois de se apresentar, contou o caso e pediu ajuda.

O feiticeiro perguntou o que meu pai carregava em uma pequena bolsa junto ao cós da calça. Era fumo. Pediu-lhe um chumaço, pôs na boca e começou a mascar. Enquanto isso, perguntou ao meu pai como era o sítio e onde as vacas ficavam. Quando a descrição terminou, o velho tirou o fumo mascado da boca e pôs no galho de uma árvore dizendo-lhe que ficaria tudo bem.

Contrariado, achando que tinha perdido tempo indo atrás de um feiticeiro no lugar de buscar um veterinário, meu pai, ao chegar ao seu sítio viu que os bernes das vacas haviam estourado, sem que ninguém os espremessem. Livre dos bernes, os animais conseguiram se recompor a partir dali.

Não acredito que possamos entender o que faz desses senhores e rezadores do mato, que não têm nenhuma das noções que citei superficialmente acima, serem tão bem sucedidos em suas curas, feitiços e rezas. Isso porque não tem como precisar como cada um vive a sua espiritualidade, mas, certamente, podemos atribuir à manipulação dessa energia vital, através de uma mente potente e pouco corrompida com o saber das Ciências Ocultas, mas munidas pelo saber da Grande Escola Natural, a Natureza. Daí a realização de seus feitos extraordinários.

A oração, seja ela qual for, é um cavalo que conduz o desejo e realiza as obras. Há de se trabalhar a mente para ser um bom domador de cavalos.

Com meu pai, pela oração ser tão presente em sua vida, ele passou a fazer as coisas acontecerem antes de acontecerem. A dizer antes das coisas serem ditas. Ele, muitas vezes, estava tão embebido dessa energia vital que temia dizer palavras chulas, ou mesmo praguejar, porque sabia do poder que suas palavras tinham. Sua boca dizia e bastava esperar o acontecimento.

Embora tenha que lidar com os incrédulos que me perguntarão se ele me deixou os números da Mega Sena, deixo que ele se defenda com a narrativa de seu conto, em terceira pessoa, de como desfez um trabalho de magia direcionado a ele, antes de ser sequer umbandista.

“Um dia, num sábado no final da tarde, viu uma luz dentro do mato, um pouco à frente da entrada do sitio. Como não tinha medo de nada mesmo, foi ver do que se tratava. Era uma vela acesa. Voltou em casa, apanhou uma caixa de fósforos e voltou para o local onde estava a vela acesa. Foi tomado por uma “força estranha” e uma voz falou com a sua voz:

— Dá licença quem está trabalhando, porque vou virar esse ponto. José não merece o que estão fazendo com ele. E pegou a vela, mordeu no final, fazendo outro pavio e o acendeu a vela virada. Deixou o local e foi para casa. 
Não se passaram dez dias e apareceu o dono do terreno vizinho, onde o posseiro fizera uma choupana.

O Proprietário deu seu ultimato:

— Ou sai ou passo o trator por cima!

Seu Manoel, o posseiro, não teve outra alternativa. O proprietário já chegara acompanhado por um trator. Foi colocando as tralhas de Manoel na estrada e em seguida o trator derrubou a casa, demolindo tudo.

No outro dia, bem cedo, Manoel apareceu na porteira de José e disse:

— Isso é que é uma macumba bem feita!

Novamente a voz tomou conta de José e disse:

— Macumba feita por sua mulher, para tirar José da sua casa. A casa que comprou com o suor do rosto! O feitiço só se voltou contra o feiticeiro!”

Capítulo IV – Da Prece – 658, O Livro dos Espíritos.

Orar é a solução? 

Sem sombra de dúvidas a oração cumpre um importante papel na vida do ser humano. É isenta de religiões, é democrática, portanto, basta se dispor a conversar com Deus. Existem orações específicas capazes de movimentar grande energia? Existem orações próprias para emanar energia? Sim, mas a oração genuína, feita mais com o coração do que com os lábios, ainda é a melhor forma de ascensão, de aprimoramento e defesa.

Contudo, dadas as nossas condições, só orar não basta. A oração é um importante auxílio na busca dos nossos objetivos pessoais, sejam eles quais forem, mas nossa limitação não nos permite manipular energias a ponto de nossos atos serem dispensáveis. Sei que muitos pensaram que rezando conseguiriam tudo sem esforço, e digo que até conseguem se forem extraordinários como foram os grandes iluminados tal qual Jesus, mas, sem querer duvidar do potencial de ninguém, acredito que não é o caso. Orar é a solução? Sim, contanto que caminhe lado a lado com nossas ações.

A oração nos aproxima de Deus, dos bons espíritos, nos aproxima dos grandes iluminados e de suas obras. Nos aproxima, principalmente, de nós mesmos. É através da oração que tomamos coragem onde há medo, companhia onde há solidão, amor onde há ódio, compaixão onde há rancor.

“Jesus, porém, respondendo, disse-lhes: Em verdade vos digo que, se tiverdes fé e não duvidardes, não só fareis o que foi feito à figueira, mas até se a este monte disserdes: Ergue-te, e precipita-te no mar, assim será feito; E, tudo o que pedirdes em oração, crendo, o recebereis.”

Mateus 21:21,22

A verdadeira religião

Sabemos que as religiões são formas do homem se conectar com o divino. Elas concentram um grupo de indivíduos que, unidos, louvam, pedem, se espelham em uma ou mais divindades. Temos, dentre as mais conhecidas, a Umbanda, o Candomblé, a Quimbanda (esta última, no Brasil, está mais para um “conceito religioso” do que de fato religião e se é com “k” ou não, falaremos mais a seguir), a Católica, a Evangélica, a Mórmon e, também, o Espiritismo, que está junto a outros movimentos que não se definem necessariamente como religiões, mas como seitas, agrupamentos, rituais. Todas têm um objetivo: a conexão com forças inteligentes capazes de auxiliar o ser humano no seu caminho de evolução na Terra e depois da morte.

O meu objetivo aqui não é falar sobre as religiões, mas trazer questionamentos e colocações que possam ajudar você a responder esta pergunta: qual é a única e verdadeira religião?

Basta olhar as redes sociais para presenciar uma guerra virtual entre Pais de Santo, Tatas de Quimbanda, Pastores, Padres, todos pregando os seus métodos como únicos e verdadeiros, suas filosofias como únicos caminhos. Quando se fala de religiões que não são codificadas por um livro (como é a Bíblia para os cristãos) e muito menos regida por um único padrão (como o Vaticano padroniza a Igreja Católica), a Umbanda, Candomblé e Quimbanda saem na frente promovendo um lamentável espetáculo em busca da razão.

É fácil existirem conflitos baseados nas diferenças entre os Ilês de Candomblé e Barracões de Quimbanda, pois a primeira coisa que precisamos levar em questão é que tais religiões ou conceitos religiosos, como existem hoje aqui no país, têm seu embrião no Brasil Colônia. A vinda dos escravos da África trouxe com eles seus dialetos, práticas e crenças que de lá, dentre as Nações Africanas, já eram distintas. Portanto, é curioso ver que existem aqueles que afirmam ter o “Mais Puro Candomblé”, assim como “A Mais Pura Quimbanda”, “raiz”, ou se é “Kimbanda com K” ou “Quimbanda com Q”, quando é, na minha opinião, impossível alegar pureza. Dado a nossa história de miscigenação, não acredito ser possível impedir que palavras adotem outros significados quando adaptadas para a pronúncia do brasileiro, do ameríndio e o mesmo para as práticas, uso de materiais etc.

Não é por ser umbandista que a deixarei de lado. Pesquisadores como Renato Ortiz, no livro “A Morte Branca do Feiticeiro Negro”, já nos mostra como em seu breve período de existência (comparada a outras religiões) a Umbanda se pluralizou. Vemos um movimento de “Embranquecimento” da religião, quando ela adota parte da doutrina/prática espírita e influências europeias (abolindo o uso de atabaques e utensílios africanos e incorporando, por exemplo, símbolos ao seus ritos, como a Estrela de Davi), e depois um outro movimento de “Empretecimento”, como um resgate às “origens”. Mesmo que seja mais brando ao olho leigo e mascarado sob o discurso de que todos servem a “uma só banda”, a Oxalá, basta observar que tem umbandista capaz de se irritar verdadeiramente se outra pessoa aborda um tema, prática, fundamento, que não condiz com a filosofia/prática do seu terreiro.

Ao Espiritismo, que aqui poupei em vários exemplos, lembro-me só de um colega de trabalho que sempre ao explicar algo, por eu ser umbandista, afirmava: “talvez você não entenda, pois o espiritismo é a religião para os homens iluminados”.

Então, se não desistiu de continuar a leitura, você leitor me dirá que “não é culpa da religião, mas sim do religioso”. E eu lhe pergunto: e há religião sem religioso? As Igrejas, Templos, Terreiros, Ilês, existem sem seus adeptos? É justamente aí onde quero chegar, vida religiosa ou vida espiritualista?

Um professor universitário, brasileiro, escritor e filósofo contemporâneo, Mario Sergio Cortella, trouxe recentemente, em um vídeo publicado no seu canal no You Tube, a seguinte reflexão: “O que importa é saber o que importa”. Nesse vídeo a que me refiro, Cortella usa o sentido da palavra “importar”, que é o mesmo que “trazer para dentro/si” para definir o que é de fato importante a um indivíduo. Logo, o que importa é o que associamos e incorporamos como nosso, como do nosso ser. Essa reflexão ajuda-nos a, com tantas informações do mundo moderno, selecionar o que de fato levaremos conosco e difundiremos.

Para a religião isso não é diferente. A questão aqui não é discutir qual a mais pura ou não, a mais verdadeira ou não, mas tentarmos juntos entender que cada indivíduo, munido de sua liberdade, é capaz de escolher qual caminho espiritual lhe convém, seja ele dentro das religiões tradicionais aqui citadas ou não. E, principalmente, que não existe o certo e errado, existe, claro, uma tradição que precisa ser respeitada (por exemplo, não se vai ofertar terra de cemitério para Xangô), mas obedecendo as tradições (que são práticas e conceitos centenários dentro de cada religião) a forma como cada Sacerdote conduz seus trabalhos e prega a filosofia pertence apenas a ele e seus adeptos.

Não cabe a nós julgar a conduta de outro terreiro baseada na nossa. Não cabe, aos cristãos, condenar a Quimbanda e vice e versa. Não cabe a Quimbanda condenar a Umbanda e ao Candomblé. Não cabe ao Candomblé condenar a Umbanda e aos cultos de Quimbanda. Cada indivíduo escolhe e eu acredito que ela também o escolhe!

— Calma!

Veja bem, se no mundo espiritual os espíritos se unem de acordo com as suas egrégoras, assim como nós seres humanos nos unimos à pessoas que partilham de nossas ações, opiniões, condutas, ideologias e vibrações, também as Igrejas Cristãs, Terreiros, Ilês, Barracões etc. tem, não só espíritos que pertencem àquela egrégora, como pessoas que conseguirão encontrar apoio nesses lugares.

Quando fui a um terreiro de Umbanda que praticava sacrifico animal em seus cultos (ressaltando que minha posição é de profundo respeito aos Sacerdotes que assim o fazem) percebi como minha vibração se comportava e logo concluí que não faz parte da minha egrégora pertencer a uma doutrina que o pratique, percebe? Se fui criado embasado pela doutrina cristã, se fui educado à lei do retorno, a lei do Karma, o que faria eu na Quimbanda? Não que a Quimbanda seja errada, mas seus conceitos de moral são diferentes dos conceitos de moral aos quais fui criado e educado religiosamente. A Quimbanda não é imoral, é amoral, e existe uma grande diferença nisso.

Quando decidi começar de fato meu desenvolvimento espiritual, em 2014, aos 21 anos, não foi a Umbanda a quem procurei primeiramente. Antes fui a uma reunião na Barquinha, que traz, numa explicação pouco refinada de minha parte, um misto de Umbanda, Espiritismo e o uso do Santo Daime. Eu nunca havia incorporado antes deste evento, jogava Tarot, ajudava meu Babalorixá na época com seus trabalhos, mas não achava que eu tinha mediunidade de incorporação, nem mesmo vocação para a religião de meu Pai.

No dia em que tomei o Daime, muitas sensações se abriram e eu vi o potencial mediúnico que eu desacreditava dentro de mim. A pergunta que me cercou durante alguns dias, após a sessão, foi: se eu nunca havia manifestado nada na Umbanda e manifestei no Daime, por que não continuar com o uso do Daime?

Apesar de ter muito respeito e gratidão pela experiência na Barquinha, a resposta para essa pergunta foi que o Daime não pertence a minha tradição. Logo seu uso e a doutrina da casa entrariam em choque com meus princípios e, por isso, decidi que para alcançar a espiritualidade seguiria a doutrina de Umbanda. E mesmo hoje, estando a Umbanda tão enraizada na minha vida, não desconsidero ser apenas espiritualista um dia.

Particularmente, acredito no que já disseram os Iluminados, que a única e verdadeira religião é o amor. O amor além da nossa limitação material. E deixo a vosso julgo, mas assumo para mim como verdade que a vida religiosa nos convém, mas o que nos evolui é a comunhão entre seres humanos, cujo o único meio é tão somente a fé e a Espiritualidade.

Uma vez escolhida uma religião, essa deve servir como caminho, como aspectos filosóficos e práticas que não ferem os seus princípios e, sim, os complementam. É a escolha da forma como compreende a caminhada necessária para conduzir seus passos na Terra. É onde você escolheu espelhar-se em um Sacerdote e incorporar na sua vida os valores das divindades. É onde você escolheu, e que trouxe para dentro de si, os valores, a história e tudo que ela engloba.

Uma vez assumida a postura espiritualista, há de se fazer, como afirma Eliphas Levi, o bem não porque Deus quer, mas fazer o bem pelo próprio bem, o amor pelo próprio amor, a compaixão pela própria compaixão, o perdão pelo perdão etc. Há de não se limitar apegando-se aos fragmentos que compõem verdades relativas da Luz Primordial, mas de encontrar no “conhece-te a ti mesmo” o caminho de volta para dentro, onde verdadeiramente habita o Templo de Deus.

“A Luz Primordial, por não ser composta, é a única “substância” plenamente Absoluta em nosso Universo. Sempre que acessamos a dimensão Luminosa transcendemos as formas, as diferenças, e adentramos ao mundo no qual a Consciência Espiritual é Livre de incoerências. A Luz Absoluta está para a Sabedoria dos grandes Mestres como a verdade relativa está para as instituições que os representam. A Espiritualidade é o instrumento que transforma conhecimento em Sabedoria. Na qualidade de Espiritualistas, nosso compromisso é encontrar, na Luz, o significado da Vida.”

Fragmento do 2º princípio da Filosofia Guaracyana.

Reflexões sobre Magia

A Magia e a forma como nos relacionamos com ela mudou. Todavia, as mudanças são esperadas quando tratamos de algo que está em constante movimento e que acompanha as civilizações e a evolução da raça humana. Com tantas ferramentas à disposição, seria muito rude de minha parte querer condenar novas práticas (embora ache algumas inúteis por não terem fundamento algum), mas tantas manifestações causam-me certa estranheza. O motivo pelo qual reflito neste texto é que a essência de sua existência pode estar sendo comprometida pela banalização de seus praticantes.

A própria palavra “Magia”, que aqui coloco entre aspas para dar apenas destaque, vem perdendo significado (e a força que a palavra tem), passando a ser usada muitas vezes para definir algo fantástico como nos filmes, ou “bobagens de mentes férteis”, ao ponto em que presenciei, em um diálogo entre dois amigos e eu, onde um não era umbandista, e justamente o que não era umbandista nos perguntar: “…mas na umbanda tem aqueles negócios de magia?” e a pessoa ao meu lado respondeu: “Não, lá é Umbanda, não tem essas coisas não”.

Dentro do contexto apresentado, é fácil entender o equívoco. Não era da Magia, essa que representarei com “M” maiúsculo, a que ela estava se referindo. Era a magia, com “m” minúsculo, dos filmes, a “do mal”. É indiscutível que o cinema, como exemplo, certamente foi uma grande revolução para a humanidade. Quando se fala de filmes de fantasia/magia, além da brilhante interpretação dos atores, que dão vida à personagens tão singulares imaginados pelo autor, os efeitos especiais nos ajudam a mergulhar profundamente no mundo apresentado, com suas cores, seres mágicos, luzes faiscantes, encantamentos e feitiços usados na incessante luta do bem contra o mal, fazendo-nos acreditar que é assim que funciona na prática, mas não é.

Vejamos o exemplo a seguir.

Dona Maria, no interior do Ceará, recebe uma ligação de parentes informando que seu filho, Eduardo, está com uma forte virose que o debilita há alguns dias. Maria vai ao seu quarto, acende uma vela branca nos pés da imagem de São Lázaro, reza seu terço pedindo que o Santo interceda pela cura de seu filho. Ela repete isso todos os dias, no mesmo horário, com a mesma oferta de uma vela branca. Enquanto reza, na sua mente ela imagina seu filho, alegre, bem, se alimentando, se recuperando. Dona Maria recebe outra ligação três dias depois, seu filho está curado.

A Magia não é boa, nem é ruim. Não pertence ao bem e nem ao mal. A Magia existe e é manipulada pela vontade do magista. É através dele e por seus instrumentos que a Magia desencadeia sua força energética, estando, como eu disse anteriormente, a mente ciente ou não. Para Dona Maria, a fé curou seu filho, e não tenho dúvidas da verdade disso, mas saliento que sua vontade, alimentada pelo ritual (mesmo horário, acender a vela, rezar a mesma oração), promoveu não só uma egrégora de cura em volta do filho, formando um escudo de proteção contra as energias densas (atraídas naturalmente pela enfermidade) como, a pedido de sua vontade, aproximaram-se Falangeiros Espirituais de Cura que intercederam pelo seu filho. Foi o milagre de Deus que habita a mente de Dona Maria.

A prova de que a Magia não é boa e nem ruim e de que tudo depende do operador, é que muitos condenam os terreiros de Umbanda acusando-os de separar casais, de atrasar a vida das pessoas, sem lembrar-se que as Igrejas estão cheias de mães pedindo no Terço que a filha se separe do atual marido por considerar que ele não é o homem ideal para a ela. Que existem pessoas levando peças de roupas do cônjuge ao Culto da Libertação pedindo que a esposa/marido desista da promoção no emprego porque terá que morar em outro estado e ficar distante dos mesmos. Percebe?

Um dos mais impressionantes magistas que já conheci, não por ser meu pai, mas por ver a partir de sua manipulação feitos inacreditáveis, explicava-nos de forma bem didática que a magia é como uma fiação de alta-tensão. Essa energia que corre na fiação pode ser usada para acender as luzes de uma cidade, mas também pode ser utilizada para ligar uma cadeira elétrica e executar o condenado. O magista é aquele que sobe na escada e puxa o fio, determinando a corrente para o seu fim.

O Mundo Mágico é real?

Afirmo que o Mundo Mágico é tão real quanto minhas mãos, meus braços, este teclado que digito neste momento. Existem, claro, inúmeras leituras, principalmente nas doutrinas religiosas, mas nenhuma religião desconsidera a sua existência. Discorda? Basta que eu cite, por exemplo, os elementais. Mesmo que não os admita como criaturas mágicas, toda religião tem referências aos 4 elementos: o Fogo, a Terra, a Água e o Ar, que para a Magia são as Salamandras no Fogo, os Gnomos na Terra, as Ondinas na Água e os Silfos no Ar. E esse é apenas um exemplo.

Ainda sobre essas forças, nenhuma doutrina as explica de forma definitiva. Simplesmente porque elas não pertencem a racionalidade humana. Toda leitura criada desses seres por uma mente humana consegue apenas limitá-los ao entendimento de nossa racionalidade e não explicar o real potencial e a dimensão de tais forças da natureza. Independente da crença religiosa, não se pode negar a atuação de forças invisíveis que são independentes de denominações como anjos, demônios, espíritos etc.

O perigo presente nessa pluralidade é que cada indivíduo vivencia a Magia como sua mediunidade permite, porque o ser humano é mágico em si. O limite é a mente do operador. Portanto, minha crítica não é em relação a como as pessoas manifestam suas crenças, mas à   falta de sobriedade com que levam algo tão sério. É perigoso (e trataremos disso a seguir) quando o magista encara ao pé da letra de sua imaginação os efeitos, tratando a Magia e sua operação como um jogo de RPG (Role-Playing Game), onde os jogadores assumem o papel de personagens em um mundo.

Vi um exemplo bem próximo de um Magista que disse que conversou com um Gnomo sobre como ele poderia aumentar sua capacidade de força mágica, e narrou toda a sua viagem astral como um narrador de RPG conta o cenário da idade média. Considero, também, que possa ser uma limitação da minha parte, mas de tudo que já vi, estou quase certo de que elementais não falam. Além de não falarem, elementais são forças puras próximas à Criação, seria muita honra, ou o magista muito poderoso, para que um viesse falar exatamente com aquele que o evocou para dizer como ele pode ter poder. Por último, não se evoca elementais meditando no seu quarto, aliás, até se evoca, mas é de uma irresponsabilidade e estupidez tão grande que prefiro parar por aqui.

Ouvi toda história calado, por respeito, mas esse é apenas um exemplo de como as pessoas estão vendo a Magia e as operações mágicas, como no filme de Harry Potter (nada contra, até gosto bastante do filme). Magia é para todos, mas são poucos os que não serão vítimas dela tentando ser seus senhores.

Eu posso operar Magia?

Todo ser humano pode operar Magia, porque a Magia é natural do indivíduo. Ela não está presa a nenhuma doutrina, mas lembro-me de um amigo que recentemente me fez a seguinte afirmação: “Tudo posso, mas nem tudo me convém”. Se você me fizesse de fato essa pergunta, eu diria que você já faz.

Quando você agradece o dia e pede que ele seja bom, você movimenta energias sutis que lhe propiciam um dia bom. Quando você reza, você eleva a sua vibração de tal forma que as energias densas não conseguem penetrar. Quando você xinga o motorista que lhe fechou e deseja que ele bata o carro, você também operou magia. Agora, se estamos falando de coisas mais específicas como evocações e invocações (é diferente, vide prefixo), acender velas para entidades distintas, viagens astrais etc., desencorajo veementemente, claro, se você não sabe e não tem preparo para o que está fazendo.

Lembra do exemplo da fiação de alta-tensão? Quando vemos uma manutenção sendo feita nos postes basta observar o técnico. Ele sobe em uma escada, usa uma roupa própria, isolante, protege a cabeça com um capacete, protege os olhos e as mãos, justamente porque lidar com tanta potência pode, por um descuido, eletrocutá-lo até virar, literalmente, carvão.  Ele não vai com o corpo nu. A religião, de forma análoga, é a escada e o material de proteção, por isso a magia dentro das religiões, quase sempre, é isenta de graves consequências para o operador.

Se eu não estiver sendo claro, vou colocar aqui o que Eliphas Levi usa como advertência no seu livro Dogma e Ritual da Alta Magia:

“… O homem que é escravo das suas paixões ou dos preconceitos deste mundo não poderia ser um iniciado; ele nunca se elevará, enquanto não se reformar; não poderia, pois, ser um adepto, porque a palavra adepto significa aquele que se elevou por sua vontade e por suas obras. O homem que ama suas idéias e que tem medo perdê-las. Aquele que teme as verdades e que não está disposto a duvidar de tudo, antes do que admitir qualquer coisa ao acaso, esse deve fechar este livro, que lhe é inútil e perigoso; ele o compreenderia mal e ficaria perturbado, mas ficá-lo-ia muito mais se por acaso o compreendesse bem. Se estiverdes presos por alguma coisa ao mundo, mais que à razão, à verdade e à justiça; se vossa vontade é incerta e vacilante, quer no bem, quer no mal; se a lógica vos espanta, se a verdade nua voz faz corar; se vos sentis ofendido, quando apontam vossos erros, condenai imediatamente este livro, e, não o lendo, fazei como se não existisse para vós, porém não o difameis como perigoso: os segredos que ele revela serão compreendidos por um pequeno número, e os que os compreenderem não os revelarão. Mostrar à noite a luz aos pássaros, é ocultá-la, pois que ela os cega e torna-se para eles mais obscura do que as trevas. Falarei, pois, claramente; direi tudo e tenho a firme confiança de que só os iniciados ou os que são dignos de o ser, lerão tudo e compreenderão alguma coisa”.

Acredito que a principal pergunta que deva ser respondida não é se você pode, mas “para quê?”. Se você quer operar magia para prosperidade é uma questão, para ser rico é outra. Se você quer operar magia para conseguir um amor é uma coisa, para conseguir uma pessoa específica, é outra. Percebe? Talvez, penso eu, que seja por isso que a existência de pseudo-magistas iguais ao que citei seja algo positivo, pois, se o ser humano não só tomasse consciência, mas fosse também capaz de impor sua vontade tal qual ela nasce em seu âmago, o mundo estaria perdido.

Aqueles que não tem uma ombridade moral, com o poder da Magia se tornarão maus. Tornarão-se, porque usarão a consciência e o poder adquiridos para seus fins egoístas, para se vingar do motorista do ônibus que não parou no ponto quando ele deu sinal, para amarrar a sua mulher ou o seu marido. Esses, criam inimigos imaginários e assassinam, com suas obras medonhas, pessoas possivelmente inocentes, simplesmente por acreditarem que essas pessoas eram suas inimigas. E para essas aberrações prevalece a impressionante sentença: “O Diabo vem pessoalmente estrangular o pescoço dos feiticeiros”.

Magia, sempre será importante o “Conhece-te a ti mesmo”. O mundo espiritual respeita aquele que é digno não porque tem posses ou sobrenome, mas pela sua dedicação, pela sua ombridade, pela sua moral, e servem àquele que pode ter o amor através da magia, mas não a usa para esse fim. Que pode ter riqueza através da magia, mas não a tem. Que controla seu ego, portanto nada o compra. Que controla sua ira, portanto sua cólera e capaz de partir o mundo. Que controla o seu medo e por isso todos o temem… e o Sacerdote se faz, não pela mão do homem, mas pelo seu próprio sacerdócio.

Considerações finais

Compreendo que trata-se de uma visão minha, e por ser minha não é absoluta para todos. Existem, quando se fala de um universo tão plural, pormenores a serem considerados, mas esse não é o objetivo desse texto. Reconheço que minha visão pode parecer puritanista e segregadora, mas a Alta Magia assim o é. Não importa os livros que leia, por isso não temo revelar as fontes. Se não lhe for de ser revelado, não será.

A reforma íntima ainda é a mais poderosa ação de Magia, porque é a Magia pura e universal atuando em você mesmo, um individuo consciente que está sob influencia de pensamentos, ações e palavras. Quer praticar Magia? Comece praticando a Magia do sorriso, das boas palavras, dos bons pensamentos, das boas ações. Pratique a Magia do perdão, do amor, da compaixão, da empatia.

A COVID-19 e A Lei da Vibração

Não é de hoje que nosso Planeta anuncia mudanças. Embora possamos elencar vários motivos que justificam o caos atual, como o nosso egoísmo, a antissociabilidade com nossa própria raça (e com os demais habitantes do Planeta) e a ausência ou inversão de valores primários do respeito à vida; esse controle populacional (Obaluaiê/Omulú), essa pandemia, nos força a rever princípios e a nos perguntarmos como tolos cegos: o que faço com o dinheiro (e o material) se para o vírus tem mais valor minha vida?

É difícil não ser atingido pela a onda de pessimismo, afinal, chegam a todo momento mensagens de grupos distintos com o mesmo assunto: COVID-19. O toque do celular mais parece uma corneta fúnebre a embalar um caixão que se dirige ao túmulo. A televisão repete incessantemente as notícias da pandemia. Não se pode e nem se deve sair de casa e o resto vocês já sabem. É importante, é real. E é justamente por isso que meu objetivo não é questionar as medidas da Organização Mundial de Saúde – OMS, mas trazer uma reflexão a vocês: o potencial destrutivo do autoenfeitiçamento.

Conta uma lenda que havia no vilarejo uma casa abandonada e que os habitantes passaram a inventar histórias e a acreditar que ela era mal-assombrada. Quando todos, enfim, passaram a evitar até sua calçada, coisas estranhas começaram a acontecer. Diziam ter visto uma velha e sinistra senhora na janela a observar as pessoas à noite. Ouviam-se ruídos, pancadas e grunhidos. Até que, por fim, alguém ateou fogo na casa com medo do mal que havia nela.

É possível que a casa nunca estivesse de fato assombrada, pois quando várias mentes passaram a acreditar e projetar seus medos, suas angústias, seus temores à casa, logo, a egrégora (força espiritual criada a partir da soma de energias coletivas mentais e emocionais) provocada pelos habitantes do vilarejo pôde, por meio do fluido universal, manifestar sua finalidade fazendo oscilar as luzes, bater as portas, emitir sons iguais a grunhidos, mostrando, neste caso, o poder do inconsciente coletivo.

Não é de hoje que sabemos que tudo está vivo e vibra. O Hermetismo, filosofia e ciência oculta atribuída a Hermes Trimegisto, enumerou 7 princípios básicos que regem todas as coisas. Dentre elas, o seu 3º princípio, a Lei da Vibração.

“Nada está parado, tudo se move, tudo vibra”.

No universo todo movimento é vibratório. O todo se manifesta por esse princípio. Todas as coisas se movimentam e vibram com seu próprio regime de vibração. Nada está em repouso. Das galáxias às partículas sub-atômicas, tudo é movimento.

Todos os objetos materiais são feitos de átomos e a enorme variedade de estruturas moleculares não é rígida ou imóvel, mas oscila de acordo com as temperaturas e com harmonia. A matéria não é passiva ou inerte, como nos pode parecer a nível material, mas cheia de movimento.

Podemos ver essa relação na física ao entendermos como a voz humana pode quebrar uma taça de cristal (claro que o fenômeno é raríssimo, mas ilustra bem). Para isso, as cordas vocais vibram aquecendo o ar produzindo o som. Viajando em ondas, o som encontra a taça que recebe o seu impacto e começa a vibrar. Quando as moléculas do material que compõe a taça entram em ressonância com o som da voz, a taça quebra. Vamos buscar a comparação nesse exemplo físico para entender a Lei da Vibração, assim como diz Hermes, no decorrer desse texto, mas, antes, que tal sentir você mesmo?

Quero que se concentre e pronuncie as palavras a seguir observando como você reage (seu corpo, seu rosto, seu estado de espírito) quando as pronuncia. Repita a primeira e, depois de um tempo de observação, repita a segunda.

Obs. 1:

Amor.

Ódio.

Obs. 2:

Deus.

Diabo.

Obs. 3:

Saúde

Pandemia.

Observe que, ao pronunciar as palavras, cheias de significados, você recebe, de certa forma, o impacto que elas causam. Quando digo “Deus”, e associo ao significado dessa palavra, logo sou invadido por uma sensação de segurança. Quando pronuncio “Diabo”, logo algo em mim, indiretamente, me leva a um pesar. Isso só acontece com “verbos”, que aqui tem um sentido um pouco mais amplo do que aprendemos na gramática. Para Eliphas Levi, no livro Dogma e Ritual da Alta Magia o verbo é a palavra carregada de sentido, de significado e força ofó.

Quando estamos diante de uma pandemia, milhares e milhares de pessoas de diferentes níveis emanam constantemente energias de preocupação, do luto (em alguns casos), da raiva, do rancor, da sensação de injustiça e do medo a partir de seus sentimentos, pensamentos e palavras. Tais sentimentos provocam o mesmo efeito da voz que atinge a taça de cristal, mas, dessa vez, o que se opõe à trajetória dessas vibrações somos nós.

Como a taça de cristal, muitos de nós entramos em ressonância com tais energias densas, alimentando o ciclo de emissão para o Planeta e sentindo os efeitos físicos de sua vibração: irritabilidade, depressão, angústia, pânico, ansiedade. Entretanto, diferente da taça nós, seres humanos, temos o poder de elevar a nossa vibração e não entrar em ressonância com tais egrégoras.

Para isso, é preciso incorporar uma outra postura espiritual, servida de palavras e ações férteis, cheias de significados em nossas vidas. Passamos assim a tomar não só os devidos cuidados previstos pela OMS, mas o cuidado imprescindível com o que pensamos, com o tipo de sentimento que alimentamos em nossas mentes, com o tipo de palavras que proferimos, com o tipo de informação que consumimos, seja em qual canal for. Lembrem-se que um dos grandes iluminados que passou pela Terra deixou-nos claro de que “vós sois deuses” (Salmos 82), e assumir nossa parcela na divindade faz de nós mestres de nós mesmos.

Hoje, evite os efeitos nocivos à mente e a sua vibração fazendo uma higienização. Fique em casa(!), mas leia, assista séries e filmes, ouça músicas, escreva, reze. Quanto mais você elevar a sua vibração, menos estará suscetível à onda mórbida que assola o mundo e bate na porta, independente de quem esteja atrás dela. A oração é uma forma segura de se estar mais perto de Deus.

O que sabes de mim?

Como falas assim
se nem me vistes uma noite
e dizes ferir-te como açoite
a saudade que tens de mim?

Como ousas dizer meu nome
nos bares que clamam na madrugada
minha presença torpe, apaixonada,
e dizes que isso a deixa insone?

Dizes como os que me conhecem
pelo pouco que lestes de mim,
mas se muitas vezes nem são assim
as tempestades que me acometem.

Quem é este que aos teus olhos brilha?
Quem é este que de elogios põe cheio?
Quem é este a quem tu dizes dar a vida?
Quem é este o alvo do teu anseio?

Mas tu nem sabes qual meu cigarro
e nem minha bebida preferida
e juras ter os remédios para minha ferida
feita pelo amor carrasco.

Mas tu nem sabes meu autor,
mas tu nem conheces meu olhar,
mas tu nem soubeste de meu penar
e dizes por aí que já é amor!?

Se eu sou passageiro sem condução…
Se eu sou andarilho dos caminhos tortos…
Se eu declamo e toco os mortos…
Se eu sou o resultado da transmutação…

A mim coube o incabível!
A mim coube o olhar moribundo!
A mim coube o peso do mundo!
A mim coube o impossível!

Eu sou incerto, um hiato, um copo meio vazio…
então cala-te, que nada que dizes é verdade!
Não me rendo a tua inescrupulosa vaidade
e nem sou o tampão para teu vazio.

Eu sou o anverso do verso.

A quebra da rima.

A história sem fim.

E se tu nem compreendes isso,
a este enorme abismo,
como dizes que sabes de mim?

Até um dia

Me guarda um cafuné
e aquele teu café,
pois quero um dia voltar.
Não sei como e nem quando,
mas deixo no peito o encanto
que tu fizeste despertar.

Deixa minha xícara emborcada,
deixa uma cadeira sobrando à mesa
e deixa de lado essa tristeza,
pois tudo há de passar.

Guarda com gosto a alegria,
o momento em que a fantasia
se deu da razão, que um dia
cansou de pensar.

Guarda a lembrança do cheiro,
entre cigarros, café e rum.
Eu guardarei o teu sorriso
como em mim entalhados, frisos,
e tuas manias de contar
meus sinais um a um.

Deixa lá a escrivaninha
em que escrevi meus poemas
enquanto tu me olhavas
com admiração.

Cuida bem dela,
que entre poemas
e teus beijos
nos serviu de colchão.

Guarda o ouriçar
da tua pele ao nosso toque
e eu guardo aquele galope,
que como amazonas
mostrastes a mim.

Guarda a nossa virtude
que nem nos tempos
de mocitude se viu
tantas labaredas assim.

Eu vou ter que partir
sim, eu escolhi ir
e você tendo que desistir
escolheu deixar,
mas ouça:
é tão importante abrir mão,
que sufocar em uma prisão
os sonhos que não condizem
com o meu e o teu ficar.

Há um mundo
em que a gente
pode ser feliz.
Amados e nus
como nos
prometemos um dia.

Eu nos guardarei
em meu verso
para que não
me torne perverso
em toda minha poesia.

Escrevi em prosa porque tenho pouco a dizer

Quando eu era pequeno tive uma namoradinha, Elisabete, era como se chamava. Eu não lembro se quando a pedi em namoro tinha rosas, se foi em algum lugar especial da escola ou se disse algo bonito, ou se, de fato, alguém fez um pedido oficial, mas eu lembro da mãe dela dizendo: “eles são tão bonitinhos que poderiam ser namoradinhos”.

Desde então, eu sentava do lado de Elisabete na fileira de cadeiras. Ela não falava comigo e eu entendia, porque era dedicada aos estudos. Eu não puxava assunto pela minha timidez, mas gostava de estar do lado dela e de como ela escrevia sem esforço com uma letra bonita, e de como dividia por cores os assuntos no seu caderno. Naquele ano, de tanto reparar nela durante a aula, fiquei de recuperação em quase todas as matérias.

Lembro de ter dito ao meu pai que eu estava namorando e ele, surpreso e com um sorriso largo no rosto, disse que eu cuidasse bem dela. Para não lhe tirar a expressão de orgulho, não perguntei como se fazia isso. Eu continuava sentando perto dela mesmo que suas amigas implicassem comigo, diziam que eu era esquisito e riam, mas ela não ria de mim. Elisabete me olhava pesarosa e depois afastava suas amigas perversas.

Eu gostava de ficar perto dela, ela tinha um uniforme novo e chegava sempre com seu cabelo penteado e uma mochila grande e rosa, uma lancheira da mesma cor com sanduíche de geleia de cereja. Passei a tomar banho antes de ir à aula, não subia nas árvores durante o recreio para não me sujar e molhava o cabelo para mantê-lo penteado para trás.

Certa vez, vi em um filme que mulheres gostavam de rosas. Então, se ela era uma versão menor da minha mãe — pensava —, que é uma mulher, devo dar rosas da metade do tamanho que minha mãe recebia de meu pai. Mas sem o dinheiro para comprar rosas, pedi que minha mãe apanhasse uma flor de hibisco amarela, que se sobressaía por cima do muro, de dentro de um quintal, no caminho para o colégio.

Chegando lá, esperei ela vir e se sentar. Virei-me em sua direção e, sem dizer nada, estiquei o braço com a flor. Exitou, mas apanhou-a e a colocou no canto da cabeça, prendendo na quina da orelha. Virou-se para mim novamente — era a primeira vez que fazia isso espontaneamente — e disse: só você, menino, que vê as coisas onde ninguém mais vê.

Aquelas palavras ficaram marcadas em mim durante os dias, meses e os anos que se passaram. Inclusive agora, que me lembro dela. Nas férias de julho não conversamos sobre os planos e nem nos despedimos como nunca fizemos nenhuma vez durante o namoro, mas eu escrevia cartas para ela contando sobre o meu dia e sobre o quanto gostava dela. Minha mãe entregava à mãe dela, que trabalhava no posto de saúde do bairro, endereçando a Elisabete.

Quando voltei das férias ela não apareceu na primeira semana e nem na seguinte. Ficou ao meu lado sua cadeira vazia, que de instante em instante eu olhava esperando que ela surgisse como em um passe de mágica. Não demorou para que eu soubesse que ela tinha sido mudada de colégio.

Eu não me lembro se fiquei triste de início, porque continuava a escrever para ela, dia e noite, comia à força, banhavam-me à força, até que um dia fui vencido pelo cansaço. E chorei, e chorei sem que meu pai nem minha mãe me dissessem nada que pudesse me consolar. Aos oito anos de idade eu já era um homem machucado pelo amor.

Eu nunca mais tive notícias de Elisabete, e quando me lembro dessa história me pergunto o porquê de deixarmos de nos apaixonar e namorar como as crianças. “Porque crescemos” poderia ser a resposta, mas… seria a resposta tão simples assim?

Para os olhos teus

Não, meus versos não são
para teus olhos rasos,
que veem na vida
uma sequência de acasos
quando na vida
nada acaso é.

Meus versos são
para os que à beira-mar
agradecem conscientes
de que o sopro da Terra
que infla seus pulmões
vem de outro continente.

Não, meus olhos não são
para teus versos rasos
de quem sempre teve tudo
e a felicidade tornou-se banal.

Meus olhos são
para almas famintas
e solitárias
que de ti, rude,
nem o brilho no olho é igual.

Não, meus versos não são
para teus olhos rasos.
Quero alma inflamada
em um corpo febril.

Feche-me, rasgue-me,
pois não quero roubar-te
de tua miudeza.
Quero quem olhou
no fundo dos olhos
da tristeza
e sorriu.

Não, meus olhos não são
para teus versos rasos,
meus versos não são
para teus olhos rasos,
me deixe com a melancolia
que tanto me faz bem.

Vai, espera a noite
para olhar as estrelas…
monte relutante,
abundante de asneiras,
que ignora que o Sol
é uma estrela também.

O cadáver da casa nº260

— Você falou que quando chegou ele já estava assim?

— Isso, próximo ao sofá.

— Como?

— O cadáver estava em decúbito dorsal, com os braços estendidos, olhos fechados e a boca aberta como quem deu um último brado na luta contra a morte, fora derrotado.

— Sim… fazia tempo que ele vinha fraco, não comia, até tentamos alimentá-lo… uma pena.

— Uma pena.

— Tu já contou para tua irmã?

— Ainda não, ela não fica muito bem quando perde um gato, mesmo que tenha muitos.

— E tu sabe do que ele morreu?

— Dizem que foi de amor.