Qual o sexo dos pombos?

Certo dia sentou-se no banco da praça, acendeu a metade que sobrou de seu charuto e deu algumas baforadas. Meteu a mão em um saco de papel cheio de migalhas de pão para alimentar os pombos. Deu outra baforada, e sua fumaça atribuía gentis tons alaranjados quando era refletida pelos raios do sol que estava perto de se pôr.

À sua frente, em um pequeno lago onde patos e marrecos nadavam, ilhava uma choupana feita em madeira envernizada, situada bem no meio, cujo único caminho que os levava até lá era uma ponte de madeira enfeitada pelas trepadeiras que nasceram por ali.

E lá um casal, sentados um de frente para o outro, acariciavam-se com ternura. Mesmo que ainda lhe causasse certa estranheza, veja bem, considerando seus cinquenta e poucos anos e todos os conceitos de sua criação machista, não lhe incomodava ver dois rapazes em uma demonstração tão meiga de afeto.

Continuou alimentando os pombos até que, de rabo de olho, notou a aproximação do guarda da praça, que vinha rodando o cassetete na mão, com passos firmes e metódicos como se fosse o marechal do exército de guardinhas do parque. Sentou-se de pernas arreganhadas, enchendo a mão direita com as partes, acomodando-as.

— Está vendo que absurdo? – o guarda iniciou a conversa.

— Oi, boa tarde. Do que estás falando?

— Todos os dias esses dois ficam aqui se pervertendo! Ah se eu pudesse tirá-los daqui!

— Perversão?! — repetiu e olhou novamente para o casal — Mas o que eu vejo são apenas duas pessoas trocando afeto. Que mal há nisso?

— Sim, mas são dois homens. Isso é nojento! Desde quando afeto de homem é beijo na boca? Se fossem meus filhos daria uma surra pra voltar a ser homem. — falou o guarda de forma ríspida.

— Mas eles são homens ainda… Não são?

— O senhor tá frescando com a minha cara? Homem não beija outro homem, meu senhor! Onde o senhor, na sua idade, dá época de meu pai, da época boa do passado, há de concordar com isso?

— Não concordo. — respondeu para a surpresa do guarda.

— Mas como assim? Eu já tava pensando que tu era um velho bicha também, pra defender esses promíscuos. — nesse momento deu uma puxada bem forte no charuto, fechando um olho e com o outro o encarando. Tão forte foi a puxada que a brasa ficou estridente.

— Não quis ofender ao senhor! — iniciou o guarda ao notar seu descontentamento, e enquanto ele falava, voltou a jogar farelos aos pombos — Brincadeira de homem! É que me tira do sério ver esse pessoal aqui na minha praça, no meu turno. Aproveitando da casinha pra trocar beijinho e à noite ir pro motel ali do lado como homem e mulher, que é o certo, mas tão fazendo errado. — fez uma pausa para cuspir e retomou — E o senhor, por que diz que não concorda? Como funciona isso? Ou gosta ou não gosta, né não?

— Meu caro, veja esses pombos — apontou para uns 10 pombos que se alimentavam — Me diga como posso identificar quais desses são machos e quais desses são fêmeas?

— Ora, claro, os mais parrudos é os machos e a menos parrudas é as fêmeas — respondeu o guarda sem entender o porquê da pergunta.

— Certo, agora veja aqueles dois ali, separados do grupo, são iguais em tamanho, tonalidade, e comportamento. Dentre esses dois, qual é o macho e qual é a fêmea?

— Aí o senhor complica. Como é que eu vou saber? Pode ser os dois, tanto macho como fêmea.

— Então, você usou uma forma heteronormativa pra definir o que é macho e o que é fêmea.

— E agora quer complicar? Tu não tá vendo que é macho o mais parrudo e é fêmea a menos parruda?

— É exatamente isso que a heteronormatividade faz a gente pensar. É nisso que crescemos, fomentados por essa ideia de que carro é de menino, boneca é de menina; azul é de menino e rosa é de menina. De fato não faz diferença nenhuma para mim, e creio que também para o pombo, se o que está ao seu lado, naquele momento e naquela circunstância, com a mesma cor, o mesmo tamanho a mesma postura, aparenta ser macho ou fêmea.

Sei que são dois homens, como o senhor falou — continuou enquanto o guarda o olhava desconfiado —, mas não vejo certo ou errado nisso. Tudo só me leva a crer que dar essa importância toda em torno do gênero a ponto de desclassificar e julgar alguém como certo ou errado, superior ou inferior, é uma patologia humana.

— Mas o pastor disse que o sexo tem sua função, segundo a bíblia. É de gerar filhos e constituir uma família!

— Então toda vida que tu transa com uma mulher tu tem um filho com ela?

— Deus me livre! Prefiro socar punheta do que ter mais um, tenho seis já.

— É, você não me parece um homem religioso. Mas essa questão levantada pela igreja, da construção da família, a meu ver é bobagem. Há tantas famílias de héteros completamente desestruturadas… Educação, honestidade, clareza, responsabilidade é que faz uma família e não os personagens que a compõe.

— Tá, mas e o que tem a ver os pombos com aqueles dois ali?

— Bom, foi a forma mais rápida de te dizer que não podemos julgar uma pessoa como inferior ou como errada somente pela forma que ela se veste ou pelo seu comportamento. Pombos independentemente do sexo, da cor ou do tamanho continuam sendo pombos. Nós independentemente da cor, da opção sexual, tamanho ou idade, continuamos sendo humanos. E é isso que vale.

— Mas tu defende muito bem pra quem não concorda viu?

— Não sou obrigado a concordar, nem achar normal, assim como não concordo e não acho. Digo isso baseado nos meus conceitos que julgo serem os certos, baseado nas experiências que adquiri ao longo dos anos. Eles provavelmente se baseiam nos seus conceitos e experiências para julgarem o que é certo e errado. Não sou eu que vou fazer isso por eles, vivo minha vida e pronto! – tentou encerrar o assunto e se afastou, mas o guarda o seguiu.

— Mas isso é ser homofóbico! Outro dia, disse na comissão dos guardas que não tinha nada contra, contanto que fosse bem longe de mim, como o senhor disse agora. E todo mundo me olhou torto.

— Eu não disse isso, existe uma diferença sutil. Veja bem, hoje em dia está difícil se posicionar. Principalmente porque vivemos em uma sociedade que quer uma resposta definitiva e um posicionamento concreto para todos os conflitos existentes. Você não pode não concordar e respeitar. Ou você concorda ou discorda. E essas duas palavras tem significados limitadores.

— Rapaz, contanto que fiquem bem longe de mim! — desdenhou.

— Eu acredito que discordar seja um direito seu, a meu ver você não será uma pessoa ruim por isso, o que te torna ruim é ser desrespeitoso. Dizer que não tem nada contra e os querer longe não é sinal de respeito, e sim de intolerância. Muitas pessoas usam desse argumento para se manter em cima do muro. Essa é a frase mais contraditória que já ouvi. Se eu disser que concordo, para ser aceito, estaria mentindo, mas não me importo com o que cada um quer fazer da sua vida, longe ou perto de mim, contanto que haja respeito em ambos os lados.

— Mas olha lá! — apontou para o casal interrompendo seu discurso — Vão se engolir, só pode! Vou lá acabar com isso! — mas foi impedido por ele que segurou o braço do guarda.

— Me diz uma coisa. Por que tu estás indo lá?

— Ô pergunta besta da porra, tá vendo que tem um bando de criança pequena aqui não?

— E se fosse um casal de héteros, homem e mulher, como preferir, você deixaria? — perguntou enquanto o outro guardava o cassetete.

— Não vejo problema!

— Então não está sendo correto! Deverias, ao invés de pensar em quem são os protagonistas, pensar na cena. Não é o que eles representam por serem gays, mas é pela falta de pudor que é crime pelo código penal independente do sexo. Um casal de héteros é tão desrespeitoso dando esses tipos de amassos, em praça pública, quanto um casal gay. Se quiseres ir lá em defesa do pudor, vá; se não, fique aqui e largue de ser besta, deixa o povo namorar em paz! – concluiu.

Para amenizar a situação, o casal, envergonhado ao ver a reação do guarda, se conteve.

— Taí uma coisa que eu nunca vou entender! Nunca vi um coroa tão esclarecido como tu. Teus filhos devem ser felizes, né não?

— São sim, tenho dois do primeiro casamento e um mais novo do segundo.

— E se ele virar gay? Tu vai vir com esse papo novamente?

— Se um dia meu filho assumir essa opção, será a escolha dele. Também acredito que ele não vai ‘virar’. Se ele tomar essa decisão é porque sempre foi, porém só agora se entendeu, se encontrou, e estaria bem consigo mesmo, feliz,  que é o que mais desejo aos meus filhos, a felicidade. Sua coragem superará qualquer frustração que possa ocorrer. Não estou dizendo que seria fácil para mim, mas como já lhe disse, não sou eu quem vai julgar.

— É velho, tu é esperto, mas não entra na minha cabeça esse negócio de homossexualismo.

— Bom, não sou um militante GLBTT. O que quis com essa conversa prosaica – notou que havia se estendido –  em resumo, é dizer que ninguém tem nada a ver com a vida do outro, e que a vida é curta demais para perdermos tempo odiando o que é diferente. A homoafetividade, se me permite lhe corrigir com o termo correto, não é sinal de promiscuidade, nem mesmo um segmento, uma nova espécie dentro da raça humana. Somos todos de carne, osso, e seremos enterrados na mesma terra.

— Nunca pensei por esse lado. — confessou.

— O importante é saber quem você é independente de tudo, e saber em que você contribui positivamente para o mundo. Nunca precisei de experiências homossexuais para saber que sou hétero. Assim como quero que respeitem meu direito de ser, devo respeitar o direito deles de ser o que bem entenderem! Ponto final. — concluiu de maneira ríspida para encerrar o assunto.

— Tá, tô sabendo agora. – falou o guarda reflexivo.

— Então, deixe-me ir – despediu-se enquanto apagava o pito do charuto e via o guarda, iluminado pelos últimos raios de sol, observando o casal abraçado, vendo o sol se pôr, e depois olhando para os pombos. Olhava o casal e olhava os pombos, coçava a cabeça como se refletisse sobre tudo aquilo que lhe foi dito.

Não resistindo à curiosidade o senhor perguntou:

— Seu guarda, já sabes qual é o pombo macho e o pombo fêmea?

— Não faz diferença, velho. – respondeu após alguns segundos de silêncio absoluto – É tudo pombo, é isso que importa.

O cidadão comum

Às quatro da manhã o despertador toca. Não foi tempo suficiente para que pudesse descansar, mas mesmo assim levantou-se prontamente da cama. Beijou sua esposa na testa enquanto ela dormia, passou a mão suavemente nos seus cabelos e sentiu seu cheiro já imaginando a hora em que voltaria para casa.

Abriu as cortinas da janela e viu os primeiros raios de sol, tímidos, rasos, surgirem entre as nuvens e os prédios. Andou pelo corredor em direção ao quarto de seus filhos e, ao chegar à porta, passou alguns minutos observando aquele lindo casal, se perguntando sobre seus futuros ainda incertos. Será que seguiriam seus ensinamentos e seriam pessoas de bem?

Não tinha como prever. Aproximou-se beijando cada um e ao se despedir fez uma oração a São Jorge, pedindo que mesmo com a violência diária que enfrenta, seja capaz de voltar para casa e vê-los mais uma vez. Era tudo que mais queria ver novamente o rosto de seus filhos e de sua mulher.

Guardou sua roupa de trabalho na mochila e dirigiu-se à cozinha. Neste instante, sua mulher, que já estava acordada, o abraçou com as mãos ensaboadas, deixando de lado a louça suja para lhe dar um abraço e um beijo. “Ovos, torradas e suco de laranja para ficar forte” – falou com um sorriso enorme no rosto e a meiguice que só ela tem.

O noticiário local, logo cedo, fala sobre a criminalidade. Uma sequência de noticias sobre roubos, assassinatos e militares feridos nos confrontos com quadrilhas, ressaltando o despreparo da polícia em combater os criminosos. Prontamente sua esposa desligou à TV enquanto ele tomava seu café da manhã, fingindo não ter notado a feição de preocupação e indignação dele sobre a reportagem. “É fácil ver um repórter almofadinha criticando a policia, difícil seria vê-lo trocar tiro com uma pistola semiautomática contra bandido atirando de fuzil” – pensou.

Mesmo assim, ambos sabiam que essa era uma angústia partilhada: o medo de não voltar pra casa. A angústia dela ao vê-lo sair, imaginando que horas depois talvez pudesse receber uma ligação do hospital, informando que ele foi vítima da violência urbana. Ele pensava da mesma forma, – enquanto se despedia vendo seu sorriso do portão – em como isso era possível a partir daquele minuto em que se dirigia à parada de ônibus, mesmo sabendo que cedo ou tarde poderia acontecer. O que não queria mesmo era pensar nisso todas as manhãs.

Ficou na parada de ônibus atento, olhando para todos os lados, fitando todas as motos que passavam. Olhava para os maus vestidos assim como para os bem vestidos. Isso porque somente no ano passado os números de assaltos cresceram cerca de 394% e nesse ano reduziu apenas 8,9%. De certa forma, a impressão que passava é a de que ainda existia 385,1% de chances de ser assaltado em qualquer local da cidade.

Dentro do ônibus a situação não era diferente. Outro dia viu no noticiário que em média cinco assaltos a ônibus são registrados por dia na grande Fortaleza. Será que este seria o dia dele? As pessoas estavam claramente assustadas, olhando umas às outras, evitando como podiam – embora o ônibus estivesse lotado – ficar próximo ao motorista ou ao trocador, o alvo dos assaltantes.

Ao descer no terminal observou que, da mesma forma que no ônibus, aquele local não representava mais nenhuma segurança aos usuários de transporte público. Além de assaltos e arrastões, lembrou-se dos dias de jogos dos grandes clubes da capital, onde alguns homens de suas torcidas organizadas faziam dali seu campo de batalha, como presenciou há dois dias.

Da entrada do terminal surgiam os de vermelho, azul e branco, gritando as palavras de ordem de suas torcidas e na saída entravam os torcedores do alvinegro. Foi um confronto inevitável. Pouco pôde fazer, ele e seus colegas, que estavam ali. Apesar de ser minoria, foi movido pelo instinto de cidadania que os fez tentar proteger os trabalhadores, estudantes e civis que voltavam para suas casas.

Conseguiram sair ilesos, graças ao Batalhão de Choque que chegou provocando a correria dos marginais, prendendo apenas alguns deles que seriam soltos, no máximo, na manhã seguinte. Ficou com certa raiva ao lembrar-se daquele dia, mas foi contido pelo barulho do próximo ônibus que chegava à plataforma.

Agora no ônibus novamente, poucos minutos após sair do terminal, cedeu seu canto para uma senhora sentar. Era quase inevitável – graças aos gritos – não ouvir sua conversa no telefone. Relatava estar em um ônibus que foi assaltado na noite anterior, cujo policial que reagiu foi alvejado com um tiro. Notou que a mulher pouco falou sobre o policial que desarmou o assaltante, e que lutava pela vida após salvar a dos 56 passageiros a bordo.

Falava mais da gratidão por não ter se machucado, por não ter perdido a bolsa com suas maquiagens e o celular que ainda estava pagando. Talvez nem tenha passado pela sua cabeça a imagem sofrível do Capitão da Companhia sendo recebido pela esposa do militar, para dar noticias de seu marido, o Super-Homem dos filhos, que estava internado no IJF em estado grave.

Provavelmente ela nem pensou no quanto a mulher do policial se segurou, em como ela foi forte ao não derramar uma lágrima na frente dos filhos. Em como ela estava ao lado dele, segurando sua mão pálida, sabendo que ele foi um herói para ela e um anônimo para muitos. Rezando para que a próxima manchete do noticiário não seja a confirmação de mais um para a estatística de mortos em combate.

Era assim até chegar ao quartel, e cada dia se tornava mais difícil, mesmo que ele soubesse que sua profissão era uma escolha: a de proteger e servir. Sabia que no outro lado da moeda teria que abdicar do seu sono, do conforto de casa e da companhia da família para dar esse privilégio ao cidadão comum.

“Acho que é isso,” – iniciou em seu pensamento enquanto se vestia ao lado de seus colegas militares, depois de ser confirmada a morte do policial da história que ouviu quando estava no ônibus – “talvez ninguém se dê ao trabalho de refletir e se conscientizar que existe um ser humano por debaixo desta farda, por debaixo deste colete”.

“Um ser humano que sente medo, que é tão frágil, tão emotivo e vulnerável quanto qualquer um. Cuja única diferença entre nós e as pessoas comuns é o fato de todos correrem para dentro de suas casas, para se proteger, enquanto nós estamos nas ruas, tendo a nosso favor apenas a legítima defesa, e todo resto a favor do ‘menor’, ou do maior abandonado ‘vítima’ da sociedade”.

“A imprensa muitas vezes colabora, mostrando somente os casos das minorias que abusam do poder, unificam e criam a ideia de que toda policia é milícia, desmerecendo, na maioria das vezes, a ação do policial que tenta agir dentro da lei. Sujam a imagem do militar honesto, tratando-os como se fossem iguais, como se o policial ao fazer o juramento à bandeira deixasse de ser humano e fosse um simples operário do sistema que não pertence à ordem, e só mantém a ordem”.

“Os íntegros – provavelmente é assim que as pessoas os veem – são esses que morrem, como o policial que reagiu ao assalto no ônibus, e que agora está com toda sua família em volta dele chorando pela perda e pela honra de ter um exemplo de heroísmo tão próximo de si. Esses, depois de mortos, é que são reconhecidos”.

Após o hino nacional e um minuto de silêncio, entrando na viatura para mais um dia de trabalho, se concentrou para esvair toda a frustração que o levou até ali. Não por estar fardado, com colete e armado, mas por ter a consciência que as pessoas dependem dele e de seus colegas. A missão dada tem seu preço e deverá ser cumprida.

Era preciso deixar de lado a descrença da população e se motivar, acreditar, manter acesa a chama interior, a fé, não da mudança social imediata, mas de que enquanto ele continuar fazendo a sua parte ela se manterá acesa. Até que em casa, aproveitando a velhice, ou em uma tocaia ao dobrar uma esquina da boca de fumo, tudo isso acabe, deixando a saudade e a sensação para quem fica de que aquele homem cumpriu sua missão.

Privado

“Onde estava com a cabeça quando quis ser um bendito professor?!” — se perguntou naquela manhã do dia 15 de outubro. Ficou por alguns segundos pensando enquanto escrevia no quadro. Nas primeiras cadeiras, alguns poucos alunos copiavam avidamente o que era escrito por ele, mas a maioria, para seu desânimo, conversava em voz alta ao lado dos que mexiam compulsivamente nos seus smartphones.

Escrevia vagarosamente devido ao pulso imobilizado por um tensor, ossos do ofício. As pernas cansadas doíam por estar em pé e lhe incomodava a saliva que descia ardendo na garganta, irritada de tanto gritar pedindo silêncio. Sabia que gritar não era a melhor forma de se pedir algo, mas quando não há escolha, é obrigado a optar por tal deselegância.

Esse não era o retorno mais adequado ou a forma mais grata de um aluno demonstrar satisfação à sua aula, planejada com cuidado e com devida antecedência, mas como ele poderia cobrar educação de um jovem que não respeita ninguém? Como um adolescente, muitas vezes levado a escola como quem deixa o filho a uma babá, cederia a um grito cansado — para não dizer desesperado — pedindo silêncio, se em casa quem grita e logo em seguida tem o que quer é ele?

— Então gritem! — balbuciou antes de se virar e escrever na lousa.

Deixou-os gritar pelo menos enquanto copiava, enquanto poupava suas amígdalas repletas de calos vocais. Deixou que extravasassem a energia acumulada, que as desperdiçassem já que não usavam para algo de fato construtivo. Deixou que esgotassem as baterias de seus celulares enquanto ele se mantinha reservado para as próximas 5 aulas que teria de dar até o dia acabar.

“Mestre,” — iniciou um monólogo em seu pensamento enquanto escrevia o próximo parágrafo na lousa — “palavra que define a pessoa que adquiriu um conhecimento especializado em determinada área da ciência. Mesmo que seja satisfatório pensar que atingi tal formação, não me sinto privilegiado. Onde foi parar meu orgulho quando o desgaste me tomou?”

“Se na faculdade tivessem me dito como era ser professor, será que teria optado por essa profissão? Ou seria hoje um geógrafo e viveria viajando o mundo, ou pelo menos na cidade em que moro, diagnosticando e observando fenômenos naturais ou resultantes da ação humana? Poderia ganhar prêmios, dar palestras e…”

— Professor, é pra copiar isso tudo?! — foi interrompido pelo aluno.

— Sim, é basicamente o que vai cair no simulado do ENEM esse final de semana. — disse, quando na verdade queria dizer “Não, estou escrevendo de besta que eu sou! Estou testando o pincel há 15 minutos pra ver se ele escreve”. Voltou ao silêncio e parou por ali de se maldizer para evitar frustrações.

Considerava grave o fato de não ter recebido as felicitações de nenhum aluno. Não que o dia do professor fosse somente naquela data, mas gostaria de ouvir algum sinal de gratidão. Não lhe bastava que a escola ‘reconhecesse’ seu papel empírico — já que monetariamente esse reconhecimento não existia —, exibindo na sala dos professores um cartaz que diz em letras douradas: “Parabéns professor pelo dom da docência!”.

“A docência não é um dom!” — pensou quando viu o cartaz, e sabia que muitos professores concordariam (os menos romancistas, claro), pois era bem verdade que a docência é o fruto de uma dedicação extrema ao conhecimento. Ela é o resultado das noites viradas no trabalho da monografia, dos vários artigos publicados, das várias teses criadas, das pesquisas de campo e todo o investimento financeiro. Não foi algo dado, embora fosse mais fácil massagear o ego com a desculpa do dom divino. Foi uma conquista dele da qual não teve, pelo menos até então, a gratidão e o reconhecimento que esperava ter.

Talvez dissessem isso, em letras grandes e douradas, porque seria a forma mais viável (barata) de acalentar o professor e pôr panos mornos na desvalorização da figura do docente. Nenhum empresário da educação tem noção do quão completo um professor precisa ser, se tivesse trocaria seu salário com o dele. Desde dominar escrita, oratória, didática, flexibilidade a se posicionar, acompanhar, incentivar e ser um exemplo para uma geração, na maioria dos casos, bem mais nova e inexperiente que a dele.

O docente deveria — no ensino privado e público — ser tratado como alguém que (junto à família, sociedade e ao governo) é responsável pela formação do discente como individuo. Um indivíduo com conhecimento crítico e científico. Mas não era o que acontecia. Todos os dias o que era pedido pela empresa era apenas replicar o material dos livros, facilitar, para que o aluno pudesse passar na prova do vestibular.

Um refém na resistência: era assim que se sentia. Qualquer tentativa clara de fustigar a criticidade, se fosse percebida, poderia ser podada pela coordenação, pois o foco na maioria das vezes está no mercado. Tornar os alunos críticos e conscientes poderia despertar a compreensão de tal face escura do ensino e isso seria perigoso para a “educação privada” como um todo. O que ela queria era apenas manter os alunos dormentes, já que o importante é o outdoor anunciando a sua escola em primeiro lugar nos 3, 4 ou 5 vestibulares ao qual o fruto da lobotomia prestou.

Mesmo tentando, olhando para si, percebeu que era seu carcereiro. Aprisionando seu próprio conhecimento e o dos que antes dele formaram todos os que existem como cidadãos, que dominam (ou entendem) o código matemático, da fala e da escrita pelo menos. Uma lanterna embaixo da cama de um quarto escuro.

Então, onde estava com a cabeça quando quis ser um bendito professor?

Não tinha a resposta até a noite daquele dia, quando em sua quinta aula, após o sinal do intervalo, onde a maioria se dirigiu ao pátio, ele, exausto, sentou-se na cadeira e apoiou a cabeça nos braços sobre a mesa, quando foi surpreendido por um aluno que passava.

— Professor, o senhor está bem?

— Sim, cansaço apenas. Não lhe vejo mais nas aulas desde julho, o que houve?

— Estou indo para o University UK, no Reino Unido! Apresentei aquele projeto que lhe falei “Solos – A Influência Humana na Desertificação” e fui premiado! Eles me convidaram a participar desse intercâmbio na minha graduação. Sei que deve ser muito difícil passar o conteúdo dentro da sala de aula, mas devo ao senhor e ao seu incentivo essa vaga. Queria ter tido a oportunidade de ser seu aluno. Sinta-se ganhador junto comigo e, se lhe fizer melhor neste dia, penso em ser professor também! Obrigado mesmo! — despediu lhe dando um abraço e saiu.

Ficou em pé por alguns segundos vendo o aluno do terceiro ano que tanto lhe ‘perturbava’ após suas aulas, sobre um projeto que a própria escola não deu atenção por ser inviável financeiramente (mesmo cobrando absurdos nas mensalidades), partir para um destino novo porque acreditou e teve quem acreditasse nele. Lembrou de seus primeiros anos antes de se formar e de seus professores, que se permitiam conversar livremente após a aula incentivando e instruindo suas pesquisas, de todos os mestres a quem tem tanto carinho pela amizade que foi formada durante os anos de escola, e mais tarde nos anos da faculdade.

Na época, ele sabia e conhecia os professores pelo nome, que neles podia confiar seu direcionamento, um porto seguro na sua fase de descobertas e de certa instabilidade. E, voltando àquele momento, lembrou de outros alunos que o procuravam, poucos, mas que lhe deram as felicitações do seu dia.

Viu que embora lhe fossem podadas quase todas as tentativas de subverter a dormência proposta pelo “mercado da educação”, ainda existiam jovens como a Marina, o Pedro, Wagner, Júlio, Paulo, Milton, Fernando, que o buscavam no final da aula para pedir um feedback, uma opinião, um ânimo. E era o que ele fazia, pois a docência não se limita apenas à sala de aula.

Não sabia se seus professores sofreram com a mesma angústia na época, mas nunca deixaram transparecer e ele não podia permitir isso também. Mesmo que estivesse frustrado, ainda poderia fazer um bom trabalho na vida daqueles garotos e garotas, não devia se abalar e mesmo que parecesse absurdo, — nesse momento sorriu meio desconcertado — também não poderia desistir dos demais.

No final das contas não era um aluno no outdoor que lhe interessava, mas tornar isso possível correspondia ao seu desejo de interferir positivamente na vida de alguém, aliado a tentar melhorar as pessoas da sociedade que vivemos. Isso é que dava função ao seu trabalho. Era o aprendizado com a troca de experiências, vivenciar saberes diferentes e cuidar do futuro de pessoas estranhas como se fosse de um filho seu, era o que devia lhe motivar ainda mais. É saber que a gratidão, embora não ponha comida na mesa, lhe alimenta de algo que o dinheiro não pode comprar.

Daquele dia em diante, percebeu que existiam vários outros fatores que iam além de onde ele trabalhava. Que se na época a Ditadura Militar não conseguiu calar seus professores, não seria a Ditadura do Capital que iria torná-lo submisso. Não era nos alunos, onde sua didática exaurida parecia malhar no ferro frio, era nele que se encontrava o segredo de transformar aqueles pequenos meninos e meninas em mulheres e homens. E foi preciso relembrar o que foi um dia para saber quem ele é hoje, e o porquê de ser um bendito professor.“Onde estava com a cabeça quando quis ser um bendito professor?!” — se perguntou naquela manhã do dia 15 de outubro. Ficou por alguns segundos pensando enquanto escrevia no quadro. Nas primeiras cadeiras, alguns poucos alunos copiavam avidamente o que era escrito por ele, mas a maioria, para seu desânimo, conversava em voz alta ao lado dos que mexiam compulsivamente nos seus smartphones.

Escrevia vagarosamente devido ao pulso imobilizado por um tensor, ossos do ofício. As pernas cansadas doíam por estar em pé e lhe incomodava a saliva que descia ardendo na garganta, irritada de tanto gritar pedindo silêncio. Sabia que gritar não era a melhor forma de se pedir algo, mas quando não há escolha, é obrigado a optar por tal deselegância.

Esse não era o retorno mais adequado ou a forma mais grata de um aluno demonstrar satisfação à sua aula, planejada com cuidado e com devida antecedência, mas como ele poderia cobrar educação de um jovem que não respeita ninguém? Como um adolescente, muitas vezes levado a escola como quem deixa o filho a uma babá, cederia a um grito cansado — para não dizer desesperado — pedindo silêncio, se em casa quem grita e logo em seguida tem o que quer é ele?

— Então gritem! — balbuciou antes de se virar e escrever na lousa.

Deixou-os gritar pelo menos enquanto copiava, enquanto poupava suas amígdalas repletas de calos vocais. Deixou que extravasassem a energia acumulada, que as desperdiçassem já que não usavam para algo de fato construtivo. Deixou que esgotassem as baterias de seus celulares enquanto ele se mantinha reservado para as próximas 5 aulas que teria de dar até o dia acabar.

“Mestre,” — iniciou um monólogo em seu pensamento enquanto escrevia o próximo parágrafo na lousa — “palavra que define a pessoa que adquiriu um conhecimento especializado em determinada área da ciência. Mesmo que seja satisfatório pensar que atingi tal formação, não me sinto privilegiado. Onde foi parar meu orgulho quando o desgaste me tomou?”

“Se na faculdade tivessem me dito como era ser professor, será que teria optado por essa profissão? Ou seria hoje um geógrafo e viveria viajando o mundo, ou pelo menos na cidade em que moro, diagnosticando e observando fenômenos naturais ou resultantes da ação humana? Poderia ganhar prêmios, dar palestras e…”

— Professor, é pra copiar isso tudo?! — foi interrompido pelo aluno.

— Sim, é basicamente o que vai cair no simulado do ENEM esse final de semana. — disse, quando na verdade queria dizer “Não, estou escrevendo de besta que eu sou! Estou testando o pincel há 15 minutos pra ver se ele escreve”. Voltou ao silêncio e parou por ali de se maldizer para evitar frustrações.

Considerava grave o fato de não ter recebido as felicitações de nenhum aluno. Não que o dia do professor fosse somente naquela data, mas gostaria de ouvir algum sinal de gratidão. Não lhe bastava que a escola ‘reconhecesse’ seu papel empírico — já que monetariamente esse reconhecimento não existia —, exibindo na sala dos professores um cartaz que diz em letras douradas: “Parabéns professor pelo dom da docência!”.

“A docência não é um dom!” — pensou quando viu o cartaz, e sabia que muitos professores concordariam (os menos romancistas, claro), pois era bem verdade que a docência é o fruto de uma dedicação extrema ao conhecimento. Ela é o resultado das noites viradas no trabalho da monografia, dos vários artigos publicados, das várias teses criadas, das pesquisas de campo e todo o investimento financeiro. Não foi algo dado, embora fosse mais fácil massagear o ego com a desculpa do dom divino. Foi uma conquista dele da qual não teve, pelo menos até então, a gratidão e o reconhecimento que esperava ter.

Talvez dissessem isso, em letras grandes e douradas, porque seria a forma mais viável (barata) de acalentar o professor e pôr panos mornos na desvalorização da figura do docente. Nenhum empresário da educação tem noção do quão completo um professor precisa ser, se tivesse trocaria seu salário com o dele. Desde dominar escrita, oratória, didática, flexibilidade a se posicionar, acompanhar, incentivar e ser um exemplo para uma geração, na maioria dos casos, bem mais nova e inexperiente que a dele.

O docente deveria — no ensino privado e público — ser tratado como alguém que (junto à família, sociedade e ao governo) é responsável pela formação do discente como individuo. Um indivíduo com conhecimento crítico e científico. Mas não era o que acontecia. Todos os dias o que era pedido pela empresa era apenas replicar o material dos livros, facilitar, para que o aluno pudesse passar na prova do vestibular.

Um refém na resistência: era assim que se sentia. Qualquer tentativa clara de fustigar a criticidade, se fosse percebida, poderia ser podada pela coordenação, pois o foco na maioria das vezes está no mercado. Tornar os alunos críticos e conscientes poderia despertar a compreensão de tal face escura do ensino e isso seria perigoso para a “educação privada” como um todo. O que ela queria era apenas manter os alunos dormentes, já que o importante é o outdoor anunciando a sua escola em primeiro lugar nos 3, 4 ou 5 vestibulares ao qual o fruto da lobotomia prestou.

Mesmo tentando, olhando para si, percebeu que era seu carcereiro. Aprisionando seu próprio conhecimento e o dos que antes dele formaram todos os que existem como cidadãos, que dominam (ou entendem) o código matemático, da fala e da escrita pelo menos. Uma lanterna embaixo da cama de um quarto escuro.

Então, onde estava com a cabeça quando quis ser um bendito professor?

Não tinha a resposta até a noite daquele dia, quando em sua quinta aula, após o sinal do intervalo, onde a maioria se dirigiu ao pátio, ele, exausto, sentou-se na cadeira e apoiou a cabeça nos braços sobre a mesa, quando foi surpreendido por um aluno que passava.

— Professor, o senhor está bem?

— Sim, cansaço apenas. Não lhe vejo mais nas aulas desde julho, o que houve?

— Estou indo para o University UK, no Reino Unido! Apresentei aquele projeto que lhe falei “Solos – A Influência Humana na Desertificação” e fui premiado! Eles me convidaram a participar desse intercâmbio na minha graduação. Sei que deve ser muito difícil passar o conteúdo dentro da sala de aula, mas devo ao senhor e ao seu incentivo essa vaga. Queria ter tido a oportunidade de ser seu aluno. Sinta-se ganhador junto comigo e, se lhe fizer melhor neste dia, penso em ser professor também! Obrigado mesmo! — despediu lhe dando um abraço e saiu.

Ficou em pé por alguns segundos vendo o aluno do terceiro ano que tanto lhe ‘perturbava’ após suas aulas, sobre um projeto que a própria escola não deu atenção por ser inviável financeiramente (mesmo cobrando absurdos nas mensalidades), partir para um destino novo porque acreditou e teve quem acreditasse nele. Lembrou de seus primeiros anos antes de se formar e de seus professores, que se permitiam conversar livremente após a aula incentivando e instruindo suas pesquisas, de todos os mestres a quem tem tanto carinho pela amizade que foi formada durante os anos de escola, e mais tarde nos anos da faculdade.

Na época, ele sabia e conhecia os professores pelo nome, que neles podia confiar seu direcionamento, um porto seguro na sua fase de descobertas e de certa instabilidade. E, voltando àquele momento, lembrou de outros alunos que o procuravam, poucos, mas que lhe deram as felicitações do seu dia.

Viu que embora lhe fossem podadas quase todas as tentativas de subverter a dormência proposta pelo “mercado da educação”, ainda existiam jovens como a Marina, o Pedro, Wagner, Júlio, Paulo, Milton, Fernando, que o buscavam no final da aula para pedir um feedback, uma opinião, um ânimo. E era o que ele fazia, pois a docência não se limita apenas à sala de aula.

Não sabia se seus professores sofreram com a mesma angústia na época, mas nunca deixaram transparecer e ele não podia permitir isso também. Mesmo que estivesse frustrado, ainda poderia fazer um bom trabalho na vida daqueles garotos e garotas, não devia se abalar e mesmo que parecesse absurdo, — nesse momento sorriu meio desconcertado — também não poderia desistir dos demais.

No final das contas não era um aluno no outdoor que lhe interessava, mas tornar isso possível correspondia ao seu desejo de interferir positivamente na vida de alguém, aliado a tentar melhorar as pessoas da sociedade que vivemos. Isso é que dava função ao seu trabalho. Era o aprendizado com a troca de experiências, vivenciar saberes diferentes e cuidar do futuro de pessoas estranhas como se fosse de um filho seu, era o que devia lhe motivar ainda mais. É saber que a gratidão, embora não ponha comida na mesa, lhe alimenta de algo que o dinheiro não pode comprar.

Daquele dia em diante, percebeu que existiam vários outros fatores que iam além de onde ele trabalhava. Que se na época a Ditadura Militar não conseguiu calar seus professores, não seria a Ditadura do Capital que iria torná-lo submisso. Não era nos alunos, onde sua didática exaurida parecia malhar no ferro frio, era nele que se encontrava o segredo de transformar aqueles pequenos meninos e meninas em mulheres e homens. E foi preciso relembrar o que foi um dia para saber quem ele é hoje, e o porquê de ser um bendito professor.

É primavera o ano inteiro

Sentaram-se próximos ao fim da ponte e podiam sentir os respingos da água do mar que se chocava contra as pedras. Ela deitou-se de costas e apoiou a cabeça em seu colo. Os dedos grossos acariciavam seus cabelos como se a penteasse lentamente. Ela fechou os olhos e ele olhou para o horizonte, lembrou-se de alguns anos atrás, quando a conheceu.

Era inverno — embora a cidade não tivesse as estações do ano bem definidas — e existia no ar um característico clima frio, melancólico, preguiçoso como domingos de uma semana qualquer. Já lhe disseram uma vez que após um inverno tão sombrio a primavera viria, embora ele não acreditasse mais na primavera.

Lembrar a estação da época não seria necessário em sua reflexão se a mesma não estivesse marcada pelo mesmo frio que habitava seu coração. Não era de se esperar algo melhor após o fim de mais um relacionamento.

Acreditou que ali seria em sua coleção, outra história de juras de amor interrompidas pela própria ocasionalidade, dos amores intensos e passageiros como fogo de palha. Mesmo ciente que eram laços que há muito tempo haviam se rompido, o costume e o apego lhe deixaram daquela forma, descrente.

Dos vários amores que o levaram a momentos de êxtase, todos definharam por terra, deixando apenas em frangalhos o que acreditava das peças de William Shakespeare. Na realidade, não existiam fugas em razão do amor que nascia entre um homem e uma mulher separados por famílias que se odiavam.

Decidiu que não cometeria o mesmo erro duas vezes, e seu romancista virou Raul Seixas ao afirmar em sua música que ninguém consegue ser feliz tendo amado uma vez, bastava uma vez. Entre álcool, cigarro e festas conseguiu se livrar daquele momento, não substituindo, mas aceitando que a vida é sim cheia de escolhas estúpidas e dentre elas a estúpida escolha de amar.

Desde então, o amor próprio era o que lhe movia. Não importa o quanto fosse tentador, poderia até deixar-se levar por alguns segundos e até tocar os lábios de várias mulheres, mas jamais com a intenção de amar outra vez.

Ela o olhou, notou seu olhar distante e a diferença de suavidade com que começou a alisar seus cabelos comparado como fazia agora, de maneira cuidadosa, mas rude. Ela colocou sua mão na dele e, voltando a si, sorriu para ela. Beijou-a na testa e voltou a olhar o mar.

Passados alguns meses que já estava de acordo com seu coração, sentiu uma batida estranha, mais forte, quando a viu entrar na sala da faculdade.

Com um coque amarrado de lado no topo da cabeça, uma calça roxa, uma camisa bege e um bolero de algodão, entrou na sala e ignorou o fato de estar atrasada e de interromper a aula do professor. Com o celular na mão e o caderno segurado pelo braço, foi caminhando lentamente sem tirar os olhos da tela. Chegou até uma das últimas cadeiras e sentou.

Aquilo lhe incomodou, na verdade lhe incomodava o fato dela ter atrapalhado a aula – afinal ele não perdoa ninguém – mas mesmo que não entendesse o porquê, achou meigo o jeito desleixado com que ela andava sem se importar com as coisas que estavam à sua frente.

Observou-a por alguns momentos na sala enquanto ela anotava o que o professor escrevia na lousa. A forma que seus dedos pequenos seguravam a caneta e como parecia se importar com cada letra que estava sendo desenhada no caderno.

Os dias foram passando e ele a observava chegar ao mesmo horário, atrasada, mas cada dia mais bonita, cada dia mais meiga. Até que um dia ela não veio e ele ficou curioso, se perguntando onde ela estaria. Estava indo contra tudo que prometera a si mesmo, mas não era amor, era o que lhe convinha no momento assim como seria com qualquer outra mulher — pelo menos era no que ele queria acreditar.

Quando se falaram pela primeira vez por telefone, sentiu a meiguice de sua voz e algumas semanas depois de trocas de olhares e conversas, estava tudo caminhando. Qualquer coisa ao alcance do desejo, uma simples aproximação, um beijo e quem sabe um pouco mais, menos amor.

Naquela noite, próximo ao início da primavera, observou como o ambiente estava diferente, o céu limpo sem estrelas, as flores começavam a surgir nas pequenas plantas no jardim. Sentou-se e aguardou ansiosamente. Então ela surgiu — como era linda — e antes que ele lhe dissesse qualquer coisa eles se abraçaram. O abraço durou mais que alguns segundos. Após isso conversaram e falaram um pouco de suas vidas diferentes e interessantes.

Estudaram-se até que o silêncio se estabeleceu enquanto os dois se olhavam nos olhos. Os corpos lentamente se aproximaram, cortejaram-se e pediram permissão ao beijo. Quando, enfim, bem próximos, ele investiu e ela recuou, abriu um sorriso com o canto da boca e depois o beijou.

Um beijo encaixado como se tivessem treinado antes um com o outro. Como se há muito se aguardasse embora não um para o outro.

Nada mais fazia sentido. Voltou para casa a pé, aproveitando que ela morava a poucos quilômetros de sua casa. Não sabia, aliás, sabia, só não queria aceitar o porquê dela não sair de sua cabeça. Não somente o beijo que o deixou em chamas, mas o abraço que ganhou naquele dia.

O abraço que o acolheu mesmo ele sendo tão maior que ela. O que parecia mesmo é que ela abraçara sua alma que descansou do tanto que havia sofrido. Não somente no passado, mas na vida que não lhe dava trégua. Novamente se via confrontado com seu juramento ao seu coração.

Os dias foram passando e a vontade de se encontrar e de ficar juntos era cada vez mais frequente. As horas passavam rápido quando estavam perto e devagar quando estavam longe. Era inexplicável como ela o deixava calmo, como conseguia, com seu jeito, deixá-lo entorpecido. E se isso não fosse amor, certamente era algo que nunca havia experimentado por nenhuma mulher ou por nenhuma outra coisa.

Reconheceu a grande mulher que encontrou no meio de tantas outras no mundo e baixinho disse que a amava, emocionado, pois não sabia encontrar uma palavra que explicasse o que sentia. Contra tudo que prometeu a pediu em namoro.

E com o passar dos anos, desde esse dia, muitos momentos especiais aconteceram e mereceriam ser lembrados — para isso passaria o dia pensando —, mas agora que a data que a conheceu se aproximava, lembrou-se do homem que era e do que se tornou.

Com ela, descobriu aos poucos que o amor romancista de Shakespeare ou das novelas não existe. Que aqueles “amores” que fracassaram não tinham sido vividos em sua profundidade, na verdade nem foi amor, e sim algo da superficialidade humana em acreditar que o amor era, de fato, sentido no coração.

Quando na verdade o amor é o que se constrói e o que foi construído ao longo do tempo. Em cada passo dado juntos, frágeis no começo, apoiando-se um no outro, suscetíveis a possíveis deslizes e desencontros, até o momento que os passos se tornam firmes e que um passa a confiar no outro. Confiar em todos os terrenos, até os mais escorregadios. Confiar que por mais que um fraqueje na caminhada, o outro estará lá para sustentar.

Descobriu então, ao apaixonar-se lentamente, sem pressa, que o amor estava no toque, no cheiro, no abraço, no sorriso, na presença e principalmente na ausência. Que amar era contemplar o outro como uma parte única de você, e tratá-lo não como um adereço, mas como um marca-passo do qual depende sua vida.

Amar é dar o melhor de si sem esperar em troca, pois quando se recebe amor — falo de amor verdadeiro — só se tem amor a retribuir.

E olhando para o horizonte, passando a mão nos seus cabelos, viu que o amor vem quando menos esperamos, e que quando ele chega, deve-se dar motivos para que queira ficar, pois quando se ama não importa o que aconteça, é primavera o tempo inteiro.

O paraíso é aqui

Quando observadas de longe, as dunas lembravam o formato das costas de um jacaré com a boca aberta, uma das lendas que deu à vila seu nome peculiar. Talvez fosse possível vê-lo melhor do mar pelos pescadores, mas ele via da caçamba de um “pau de arara”, segurando as malas para não caírem pela traseira do Ford D20 que o levava.

Subia, descia e às vezes parecia que ia afundar na duna antes de chegar ao destino. Era tudo muito novo, desde utilizar aquele transporte até o contato com o amontoado de areia que vez por outra caía nos olhos e na boca. Crocante, mas insossa.

Originalmente formada por pescadores e afastada da urbanização, sua popularidade foi alavancada no Brasil e no mundo depois do turismo descobrir a beleza do local. Pela manhã, nas ruas, o espaço era dividido entre as charretes, bugues, quadricículos e claro, as D20 carregando gente que não parava de chegar. Após cinco horas de viagem e quarenta minutos no “pau de arara”, pode descansar antes de sair à noite para conhecer a cidade.

Nas ruas, a iluminação pública era inexistente o que fazia com que o local ganhasse vida ao ser iluminado pelas lojas, padarias, sorveterias, bares, restaurantes e cafeterias. Embora isso o remetesse à zona urbana, os locais eram singelos e traziam aquele clima gostoso, exclusivo dos lugares cuja mão do homem não interviu.

O povo era simples, as crianças jogavam bola na rua em meio às árvores. Cachorros como em uma matilha desfilavam livremente. O chão era irregular, ora macia, ora dura, mas confortável o suficiente para tornar comum encontrar nativos ou mesmo turistas andando descalços.

A praia chamava atenção com seus 180º de horizonte aberto, sem nenhum prédio que atribuísse qualquer tom de cinza àquele azul escuro cheio de estrelas, cujo brilho poderia ser facilmente confundido com as lanternas dos pequenos barcos pesqueiros se aventurando em alto mar.

Caminhava como todo turista vislumbrando o local e aproveitando a areia que massageava os pés e entrava entre os dedos. Sentiu como se a realidade e as repetitivas voltas da rotina o tivessem, pela primeira vez, arremessado para um local mágico. Mas não era magia, nem mesmo uma terra mágica, era Jericoacoara, a quarta praia mais bela do mundo.

O local era dividido basicamente em três ruas, mas a Rua Principal — como era popularmente conhecida — centralizava todos os atrativos aos moradores e visitantes durante a noite. Abrigava também as banquinhas dos artesãos caracterizados com seus dreads, corpos magros, olhos vermelhos e a astuta e convincente lábia vendedora.

Exibiam seus trabalhos feitos em aço, cobre, couro e linha. Além dos colares com dente de tubarão, javali, búfalo, onça e até de lobo — ainda que desconfiasse se eram reais —, lindas pulseiras de pedras roladas, cristais e nomes escritos em um grão de arroz também faziam parte da arte. Se não fosse a falta de dinheiro, teria levado as peças únicas feitas por eles.

Ao chegar às famosas Barracas de Caipirinha foi convidado a tomar Xoxota, Duende Verde, Piriquita, Tangerica, Coco Loko, uma infinidade de bebidas misturadas, mas para ele sua cerveja lhe bastava.

No final da rua, olhou o céu estrelado e deitou-se na areia para melhor observá-lo. Foi quando um som grave seguido de um tom bem agudo, melancólico, chegou aos seus ouvidos com tamanha sutileza que o fez levantar-se imediatamente. Ficou por alguns segundos parado, olhando para todos os lados tentando identificar de onde o som vinha.

Estranhamente não havia ninguém ali, nem álcool suficiente ou qualquer outra substância que lhe trouxesse talvez uma alucinação. Continuava a ouvir quando o vento soprava de dentro da vila e decidiu que deveria voltar à rua para procurar o som que chamava sua atenção.

Deveria estar paranoico, mas não parava de pensar o porquê do vento lhe trazer tal som. Sensível como o próprio instrumento.

Caminhou alguns metros se distanciando da praia, rumo à pousada. Passou por todos os restaurantes, barzinhos que tocavam música argentina, espanhola, forró e até eletrônica.

Chegou à praça central e sentou-se no banco. Abriu outra cerveja esperando ouvir novamente o som e foi quando avistou um bar com uma árvore enfeitada na calçada como se saísse da boca de um crocodilo.

Os garçons, descalços e com roupas leves, eram estrangeiros. Falavam com um sotaque engraçado. Um deles preparava a pizza que rodava no ar como se dançasse ao som da música ao vivo. As luzes meio amareladas, charmosas, iluminavam um grande relógio de ponteiro como o Big Ben.

Sobre mesas baixas de madeira rústica, as luzes das velas iluminavam a face dos que olhavam extasiados o violinista. Sentado em um banco de madeira, pés descalços, tocava o violino de olhos fechados acompanhando o violeiro.

Os cabelos amarrados caíam sobre os ombros que se movimentavam com a sutileza e a agilidade com que as notas saíam do instrumento. Nos tons mais agudos, abria a boca e permitia que o violino atingisse a nota que sabia que sua voz jamais atingiria cantando.

Estava pasmo, não somente pela figura icônica em uma cidade também icônica, mas pela releitura que o instrumento dava às músicas já conhecidas da MPB e pela interpretação que o violinista dava a cada nota que saía de seu instrumento.

Levantou-se e ficou em frente ao palco, observando a graça daquele conjunto de arte, os pés que batiam na madeira do banco acompanhando à música, como um anjo que descia as escadas do paraíso tocando seu violino. Mas não era um anjo, era homem, nem era o paraíso, era a terra.

Enquanto isso, os dedos rapidamente deslizavam e davam vida às luzes, às velas e à alegria de todas as pessoas do bar. Até as que estavam de fora, em pé na rua ou sentados na calçada da praça, aplaudiam porque reconheciam o talento inebriante do rapaz, que não usava partituras, apenas sentia e tocava.

Assim, os dias ganhavam a mesma trilha sonora, entre os passeios pela praia e o assistir ao gigantesco pôr do sol, intenso, vermelho, aos poucos se tornar azulado, até que sumia na linha do horizonte que tanto amedrontou os navegantes quando acreditavam que a terra era chata.

A simplicidade do contato direto com a terra e com a natureza, com o mar e lagoas cristalinas, peixinhos que ficam presos em piscinas formadas pelo recuo da maré, formações rochosas monumentais esculpidas pelo vento e pelas dunas que se movimentam dando uma nova imagem a cada ano, mostravam como o lugar é único no mundo.

Entre as cordas de um violino que embalava a alegria da chegada, com toques sutis nas cordas de Sol à Mi, e a tristeza da partida, da última noite naquela parcela do mundo em que era impossível duvidar da obra universal do criador, resgatou seu mais profundo instinto humanista e reencontrou em si a rara essência divina enterrada pelo pó cinza das grandes cidades de concreto abissal.

Foi o quando ele me falou

Devido à rotina, virou costume chegar tarde a casa. Dirigiu-se à estante de mármore e pegou um uísque 12 anos — seu ano favorito. Desconsiderava o fato de ter sido diagnosticado socialmente como hipocondríaco. — Não é verdade. — Pensou enquanto tomava seu décimo comprimido de Benflogim e se servia com uma dose, embalado ao som de Mozart. Considerava aquilo apenas uma recreação, sua válvula de escape depois de um dia cansativo, de uma semana que passou tão lenta quanto à vontade de não permanecer nela.

Sabia que o Cloridrato de Benzinamida, agente ativo do Benflogim, associado a uma ou duas doses de uísque, aumentava a produção da dopamina no cérebro, gerando percepções visuais alteradas e distorcidas, efeitos semelhantes ao do LSD.

E mesmo que as náuseas parecessem romper seu estômago no dia seguinte, não era o efeito colateral um empecilho, pois isso ajudava a colocar a cabeça no lugar. O álcool por si só já o leva ao campo das ideias, mas faz isso ao passo em que o deprecia. Era preciso mais para fugir da realidade dos últimos meses.

Sentou à frente de seu aquário e ficou observando os peixes por algumas horas. Os viu bailar lenta e graciosamente. Percebeu que os dois, ele e os peixes, tinham muito em comum. Tentou evitar a comparação existencialista, mas não teve jeito. Foi transportado para dentro do aquário junto aos peixes e sentiu tudo que lá se passava.

Se observasse bem, os peixes que criava eram iguais a ele. Criaturas que trabalhavam em busca do propósito de sua existência, despertando todos os dias à procura de algo que os alimente, que os mantenha vivos, até que a exaustão lhes toma e eles descansam sem dormir.

Realmente era assim, acordando cedo todos os dias, enfrentando o mundo de desigualdades, sendo sugado de todas as formas, até que, no final do dia, ao chegar a casa, após seu remédio para dormir e a dose de uísque, desfrutava de um sono sintético tão rápido que a sensação era de um piscar de olhos.

E ao chegar novamente ao trabalho no dia seguinte, se familiarizava com o banheiro do local mais que com o banheiro de casa, a ponto de se incomodar com a sujeira. Como se fosse o seu banheiro emprestado para outros que não sabiam usar.

Uma rotina tão cansativa que nem mesmo conseguia desfrutar do que comprava com o seu salário. A TV nunca foi usada por mais de alguns minutos enquanto tomava café e via as primeiras notícias do dia. As flores da sacada murcharam e permanecem lá, murchas, sem ganhar um desfecho melhor.

Observou que o aquário não é formado somente por peixes, mas também por micro-organismos que transformam a amônia proveniente da urina e fezes, ou da própria matéria em decomposição, em nitrito e, por sua vez, as que o transformam em nitrato, alimentando e transformando-se em uma das peças que compõe a biodiversidade controlada. Microscópicas criaturas do mesmo criador que têm papel fundamental para os peixes que ali vivem.

Para ele, não era tão importante à presença desses seres — pessoas com essas funções sociais. Entretanto estava rodeado delas. Preguiçosos e sem propósitos, apenas procuram aproveitar-se dos restos de sua significância e na primeira oportunidade contaminam, adoecem e o levam à beira do fim.

— Provavelmente a vida de um peixe deve ser feliz já que até as bactérias o ajudam. — Constatou.

Concentrado em como o peixe se mexia e se distorcia diante de seus olhos, assustou-se com um que desavisadamente se chocou contra a parede de vidro do aquário. E mesmo sabendo que não era possível transpor aquela barreira, continuou tentando e se chocando várias vezes até que ele decidiu pôr a mão no vidro para assustar o peixinho. Voltando em seguida a sentar-se.

Talvez o peixe não conseguisse entender como é possível ver um ambiente tão grande e ao mesmo tempo estar limitado a 60 litros de água. Apenas 60 centímetros em um quarto de 4x6m. Não sabia que barreira era aquela que o impedia de continuar e desbravar os horizontes e talvez por isso sua insistência, sua loucura. Os peixes que um dia pularam a barreira de vidro do aquário morreram porque não havia aquilo que os ajudassem a sobreviver. Não é o que eles imaginaram.

Se ele fosse consciente como o ser que está à frente dele, com os pés para cima segurando um copo com uísque e gelo, diria que sua frustração era tanta quanto à dele, de olhar os horizontes e desejar, tentar alcançar, e mesmo encontrando meios dignos de conseguir, era a passos lentos. O reflexo da mesma lentidão à que alcançava seus objetivos. Quando alcançava, não tinha tempo de usufruir.

Lembrou que também se atirou algumas vezes além das barreiras que o impedia, sem sucesso. O destino foi o mesmo, e por pouco escapou do fim que levaram os bravos peixinhos que recolhia do chão de seu quarto. Fazia seus velórios no banheiro e os “enterros” no vaso sanitário.

Era a vida de um homem descartável. Assim como os “peixes descartáveis” muitas vezes comprados e colocados em aquários minúsculos, dado a crianças como bichinho de estimação e, depois de mortos, enterrados em cova rasa — ou no vaso como os dele —, e substituídos por outro que logo terá o mesmo destino.

Percebeu que dava a seus peixes algo que ele sabia que jamais teria. Isso se for verdade os que dizem que, para os peixes, quem troca a água do aquário é Deus. Sabia que dava a eles a oportunidade de ver Deus como ele era — embora não quisesse que seu Deus fosse um bêbado e hipocondríaco — e se sentiu plenamente eufórico e importante.

Levantou-se e zombou com um andado pomposo e psicótico — como imaginava que Deus andaria sabendo que era Deus — aproximando-se do aquário, passando a mão no vidro e com o rosto próximo a água falou: — Eu estou a observar-lhes, pude ouvir suas preces e eu os entendo.

Foi quando um peixe que passava ouviu e respondeu: — Não adianta se comparar comigo. Eu estou a te observar e você não é um peixe! ­— afastou-se nadando para longe daquele rosto assustado. Neste instante deu um pulo para trás atordoado, mal acreditando no que acabara de acontecer. O peixe ficou olhando-o por alguns instantes e depois voltou a seu comportamento natural aparente.

Devia ter exagerado na dose do Benflogim ou então chegou ao ápice de algum efeito não esperado. Ficou estagnado, confuso e apavorado. O que o surpreendia não era somente o fato de o peixe falar com ele, mas também por ele estar completamente certo. Sim, ele estava completamente certo.

Não podia simplesmente se amargurar e maldizer a vida. Se entregar como se não encontrasse mais formas de lutar, pois até mesmo os peixes de seu aquário vez por outra saltavam para a morte certa, na ânsia única e incontrolável de conhecer o que está além da fronteira do possível.

Eram apenas peixes que nasceram em cativeiro e provavelmente nunca fizeram uma reflexão sobre o que era esse instinto tão forte de liberdade, mas iam ao encontro do desconhecido movidos por essa força.

E, mesmo que pudesse considerar que estava chapado a ponto de fantasiar histórias em sua cabeça, ele sabia o que precisava ser feito, já fazia tempo que não tinha vida e foi preciso um peixe dizer a ele para que tudo fosse diferente.

Nos dias seguintes comprou um aquário de 200 litros e o decorou da forma mais natural possível, colocou todos os peixes lá dentro e os observou por alguns instantes. Ligou para o trabalho e pediu demissão, aliviado. Ligou para os amigos que há tanto tempo não via e convidou-os para um almoço. Assistiu à TV que comprou e que nunca havia ligado no seu canal favorito. Mudou os panos da mesa, as flores na varanda e tão somente tudo passou a fazer sentido.

Embora seus amigos não acreditassem na história que foi explicada após o almoço, perceberam junto a ele que essa é a mais pura verdade. Não é fácil se desvencilhar de tudo aquilo que nos vicia, mas é preciso criar coragem para mudar.

É preciso sacudir a poeira, principalmente quando a vida se torna tediosa e cansativa. Isso só fez dele mais um rebelde em busca da felicidade, limitado e cheio de barreiras criadas por ele mesmo. Foi preciso se conscientizar que tudo só depende única e exclusivamente de si mesmo.

Com o passar o tempo algumas coisas se normalizaram e percebeu, agora no final do dia, sentado novamente à frente do aquário sem os Benflogins e sem os analgésicos que, por alguma piada irônica da vida, poderia considerar que Deus tem formas estranhas de agir e nos fazer mudar. Suspeitando que ele possa usar os seres mais inacreditáveis para passar as mensagens mais importantes.

Agora, seu salvador nada feliz de um lado para o outro naquele ambiente que mais se aproximou do que sua memória primitiva e selvagem lhe permitia lembrar. Ainda que um aquário maior jamais consiga lhe dar algo melhor do que a liberdade, libertá-lo seria condená-lo a morte. O peixe ficou com a estranha sensação de que Deus permitiu que sua vida melhorasse consideravelmente mesmo que não entenda o porquê.

Apenas via Deus do lado de fora, além da barreira de vidro, sentado com as pernas para cima a observar-lhe com uma dose de uísque e gelo na mão, e um disfarçado sorriso infantil, emocionado.

A reflexão da despedida

Repetia em sua mente as palavras de Charles Baudelaire: “É preciso estar sempre embriagado. Eis aí tudo: é a única questão. Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo que rompe os vossos ombros e vos inclina para o chão, é preciso embriagar-vos sem trégua.”, e andando vagarosamente, previsto que seu tempo acabou, mudou seu rumo para onde tinha sido sua casa nos últimos meses.

Chegando ao bar, retira as cadeiras que estão rodeando a mesa deixando apenas a que serviria para seu uso. Não queria companhia. Nem mesmo a dos velhos amigos de copo que o tempo rompeu os ombros e inclinou-os ao chão. Um por um vencido e devedores de alguns anos à morte. Ele também se via assim. Por mais que nos outros dias lhe levasse às mais profundas gargalhadas, hoje não.

Pediu a primeira cerveja e não permitiu que o garçom o servisse. Serviu-se como gosta: copo americano cheio com colarinho. Segurou o copo com a mão trêmula e brindou com a garrafa para que nunca lhe falte à cerveja, que não lhe falte piedade e nem fé no novo caminho a seguir.

Talvez esse fosse mesmo o momento mais oportuno para se apegar a fé. — Quem seria o santo dos bêbados e moribundos? — Se perguntou enquanto entornava o copo. — Não há necessidade de fé se não se sabe ao certo para onde vai. — Concluiu frustrado.

Estar sempre embriagado foi o que lhe trouxe a esperança, não da vida, mas de que as dores e os pensamentos cessariam. O tempo passou diante dos olhos e tudo pouco a pouco foi se perdendo enquanto estava bêbado demais, bêbado a ponto de não sentir as coisas saírem do lugar e a vida escapar entre os dedos.

De fato, nada que se pregava como verdade vingou. Talvez fiquem apenas as lembranças de histórias bem vividas. Sim, pode dizer que foram bem vividas. Pensou na condição que o fez tomar o primeiro gole e nunca mais parar, nem mesmo agora que o bar cheira a tristeza e a cerveja não tem o mesmo sabor. Somente sabor de culpa.

Ele era um ser humano normal, apenas considerava que houve um erro de fabricação. Em determinada parte de seu corpo as células se multiplicavam de forma desenfreada. Descoberto tardiamente, estipulou-se que por mais alguns meses tudo seria diferente.

E ao ouvir o médico dizer com a voz branda que não há mais jeito, sem ter ninguém que segurasse a mão quando desmoronou em lágrimas, ganhou o estranho prazer de poder talhar em sua lápide uma frase de seu filme favorito.

Devia ter ouvido a quem só lhe quis bem, mas mesmo assim jogava com a vida. Não era tão novo, mas também não era velho. Seu corpo o traiu, só fingia que aguentava as noites viradas bebendo, fumando, fodendo e se drogando. Até chegou algum momento a acreditar que seus amigos de verdade estavam no bar, mas pouco a pouco todos se distanciaram, e agora mesmo, sentado a poucos metros, ninguém se importou com sua chegada. O que dirão de sua partida?

Irônica é a vida do homem que só pensa na egoísta necessidade de satisfazer suas carências imediatas esquecendo que tudo, inclusive a vida, tem data de validade. Seria incrível se pudesse se despedir de forma mais honrosa, mas já era tarde. Cada hora era uma hora diferente, pois o tempo passa de forma curiosa para quem se despede dela — constatou.

E se tivesse tomado rotas diferentes em sua existência será que esse seria seu fim? Ou temos um dia marcado para que nossa história, boa ou ruim, termine em um piscar de olhos?

Sempre se perguntou se era possível sentir quando sua data se aproximaria. Lembrou-se de tantas outras vezes que se deparou com ela indiretamente. Pensou em Mara, a garota dos olhos verdes que certo dia o beijou, sorriu, se divertiu como se fosse sua despedida.

Falou a última vez com a mãe que ligou preocupada perguntando quando ela chegaria a casa. Ao se aproximar o fim da madrugada o puxou pelo braço, olhou em seus olhos dizendo: — Me beija, essa pode ser a última vez que nos entendemos — e assim foi.

Naquela madrugada, ao voltar para casa, a vida deixou a matéria frágil e a amarga notícia que chegou pela manhã acordou Deus de tão intenso que foi seu choro. A menina dos olhos verdes, a quem lhe foi dado o presente de participar de seu último dia, deixava que ele tocasse na sua pele fria, alisando seus cabelos pretos e longos. Embalado pela música fúnebre e os choros das pessoas e das velas.

Será que se encontrariam dessa vez? Será que de tudo o que ouviu falar, de todas as crenças que foi proposto seguir, o que de verdade era a vida? Ele sabia que era nada, até saber da morte. E ela passou a ser tudo. É cruel saber o dia em que tudo não passará de saudade para uns e alívio para outros.

Encheu seu copo e bebendo o esvaziava. Comparou esse encher e secar do copo à vida. Sim, a vida é um símbolo, é apegar-se aos momentos e às pessoas. Somos os únicos animais que sentem a morte.

Temos um apego tão grande por ela que velamos um corpo como se não quiséssemos acreditar que aquela pessoa não irá mais fazer parte de nós. Como se a qualquer momento, entre as orações, ela pudesse despertar do “sono” e dizer que ficará tudo bem.

Quando a vida na verdade era — virando o copo da sexta garrafa — nada mais e nada menos do que o tempo em que algo começa e termina, assim como seu copo que estava cheio de vida e, em um segundo, cheio de morte.

E que essa falsa superioridade humana nada mais é do que esvaziar o copo lentamente por não saber qual o dia que ele ficará completamente vazio. É saber que a morte é a única certeza, mas não ter nenhum domínio sobre ela.

— Por que é tão difícil morrer? — Socou a mesa, embora lhe fosse dito que era rápido como pegar no sono. Só que não era aceitável que tudo teria um fim, nem mesmo que ele teria um fim. Era apenas o tempo se arrastando e o mundo girando em uma roda gigante. Não queria aceitar.

Passadas algumas semanas, o garçom lembrava daquele dia em que mais uma vez, após retirar todas as cadeiras da mesa, pediu sua cerveja sem permitir que ele o servisse. Serviu-se como gostava: copo americano cheio com colarinho. Brindou com a garrafa, balbuciando algumas palavras e virou o primeiro copo. De instante em instante olhando para o relógio como se contasse as horas.

Servia-se, observava a cerveja transbordar e depois a espuma baixar rente à beira do copo. Cuidadosamente com a mão tremula o levava à boca e secava. E assim como a cerveja que derramava para fora do copo ‘chorava’, ele chorou por alguns minutos antes de sair, sem pagar a conta e sem se despedir.

Agora descansa sob um gramado verde adubado da decomposição, identificado por uma lápide de mármore negro com traços feitos à mão. Talhado com a estranha frase escolhida por ele ainda em vida.

M.D
06/07/2012

“Lá vai ele. Um dos protótipos de Deus. Um mutante cheio de estilo nunca pensado para produção em massa. Estranho demais para estar vivo e raro demais para morrer.”

Terminal

“Bom dia pessoal, desculpe atrapalhar o silêncio da viagem de vocês. Eu me encontro-me aqui, vendeno caramelos de todo sabor. Tem de maçã verde, de uva e iorgute. Eu tô aqui porque preciso ajudar minha família, então peço a colaboração de vocês, boa viagem e fiquem com Deus!”

As mãos encardidas seguravam a caixinha com caramelos de todos os sabores, embora os únicos sabores que tinha fossem uva, maçã verde e iogurte. Chegou de mansinho, logo aprontou o olhar sofrido e entoou seu discurso, cantou cada palavra dita exaustivamente durante todo o dia como um padre no cântico de domingo.

Pensou que Deus o esqueceu e contra vontade passou a ser fiel à fome, à sede. Quem intercedeu por ele? Quase ninguém! Poucos tiraram dos bolsos as moedas de dez ou de cinco centavos e se quer o olharam no olho, sentiram sua fome, seu o medo, sua solidão, o desabrigo das madrugadas, os perigos, a ausência de um pai, de uma mãe ou de qualquer pessoa que fosse por ele. Quem intercedeu? Quase ninguém.

Fitou os olhos dos que não o ignoraram e agradeceu. Ninguém sabia se tinha nome ou história. Não tinha nada além de caixinhas com caramelos de todos os sabores, que só eram três. Correu ao se aproximar um fiscal e veio para nossa fila, de mansinho aprontou o olhar de lamento e entoou o discurso pronto, cantou seu discurso como um padre cansado no cântico de domingo.

Embora soubesse que esse seria apenas mais um dia da rotina daquele pobre garoto e de tantos outros que estão pelos terminais, entre o que restou da dignidade de um idoso abandonado, de um aleijado desamparado, de um aidético sem pensão, da mãe com o filho doente e tantos outros que usam dali como sustento de sua sub-existência, estava eu esperando o ônibus chegar.

Nas plataformas principais, os fiscais junto à Guarda Municipal ainda conseguem tanger essa parcela marginal da população para não sujar — mais ainda — a visibilidade do local. Nada mais apropriado do que este nome: terminal, já que ali vivem à espera do transporte que o levará à paz prometida, uma passagem cara e árdua que ninguém deseja para si. Sobrevivem dos restos e da caridade de quem ainda acredita que a miséria não é uma escolha.

Enquanto isso um homem revira o lixo, acha um copo de suco (creio eu) pela metade. Cheira-o, toma-o sem esboçar nenhum receio. Quando muitos evitam beber a água do bebedouro disponível aos passageiros, ele está ali a se alimentar dos restos. A se identificar com os restos.

Ajeita a blusa e exibe suas costelas e cicatrizes, percebeu que eu o observava e gesticulou com o dedo do meio de forma ofensiva. Aproximou-se dizendo “quem é você pra me julgar? É Deus?” e saiu balbuciando suas palavras de ódio e desespero. Mesmo que tenha me assustado e me prevenido de uma possível agressão física fiquei parado observando seu corpo fino como uma folha de coqueiro ao vento andando vagarosamente e descoordenado procurando a próxima lixeira.

À minha frente, um senhor de certa idade defende ao ver a cena que tem que haver uma ação urgente para tirar os pedintes dos terminais para termos paz, mas continuo em silêncio e não prolongo a conversa. Retirá-los seria apenas uma medida que mascara os problemas da sociedade. É assim que é feito desde os primórdios quando a capital junto a elite se instalou e empurrou dos centros o máximo que pode da pobreza, deixando as pessoas nas margens, amontoados em casas pequenas. E aqueles que nem isso conseguiram, nem mesmo montar sua casa de madeira e papelão, são os mesmos que estão pedindo esmolas nas ruas e terminais.

Mal sabia aquele homem que o seu pensamento que defendia com tanta veemência seria uma das causas principais deles estarem ali. Marginalizados, esquecidos, rechaçados.

Outra mulher se prontificou a dizer que isso era falta do que fazer, que deveriam procurar emprego, nem que fosse de catador de sucata. Provavelmente pela sua “fala clara” e pelas vestes, a mulher parecia ter tido uma boa criação, mas o garoto que vendia caramelos de todos os sabores me fez lembrar Lindoberto, “Pito” como o chamávamos.

Pito passou grande parte da sua infância brincando entre os ônibus nos terminais. Nas oportunidades que sentava com alguém que o alimentava, contava sua triste história. Seu pai era alcoólatra, batia na mãe e foi morto na mesa de um bar com um gargalo quebrado enterrado em sua garganta. Sua mãe, sem condição de manter a casa, foi despejada com ele ainda pequeno e foram parar nos parentes, nas ruas e por fim nos terminais onde era mais seguro.

De lá, Pito passou a vender pastilhas e chicletes junto com sua mãe que um dia sumiu sem se despedir. Não o procurou mais.

Quais eram então as referências daquele garoto? Um homem trabalhador que o amava e amava sua esposa? Não. Suas referências eram os gritos da mãe, o choro ao ser despejada, o enterro sem velório, as palavras de amor que nunca saíram da boca do pai e nenhuma oportunidade de dizer que o amava, não porque não o amava, mas porque ele nunca estava sóbrio para olhar nos olhos do filho sem perder a paciência e açoitá-lo.

E mesmo que tentasse, sem educação, história ou alguém que nele acreditasse, seu futuro não seria diferente. “Ou pedir ou roubar” disse-me, e preferiu pedir. Sua história estava sendo escrita ali, naquelas colunas cinzas que sustentaram seu cansaço e nos bancos que lhe serviam de cama na madrugada. Criei um vínculo com aquele garoto, e todos os dias quando vinha eu comprava pastilhas, ele agradecia e perguntava como foi meu dia.

Mantive esse hábito até que um dia passei de taxi numa rua próxima ao terminal, quase às 3 da manhã e o taxista desacelerou para passar num quebra-molas feito pela comunidade local. Logo à minha frente estava ele, fumando crack junto a outros tantos. Baixei a janela e gritei por seu apelido, ele me olhou e saiu correndo. Nos dias seguintes ele não veio mais.

Apareceu quase um mês depois e tudo que havia de criança nele havia sumido. Suas mãos vazias dessa vez só pediam. Não havia cântico, não havia nada. Passou por mim e me encarou com um olhar cinza, tão sem cor como a própria falta de esperança, eu não o reconheci.

Não me pediu nada, passou direto por mim e por todas as filas.

Meses se passaram e não havia mais sinais daquela criança. Na mesma rua onde se drogava foi encontrado morto. Magro, sem cabelos e deitado em posição fetal.

A tristeza tomou conta de mim e sem perceber fiquei emocionado, com o olhar perdido. Os dois que me levaram a essa viagem nas lembranças olhavam para mim perguntando se eu estava bem. Fechei a cara e calado continuei.

Em poucos instantes aquele garoto terminou a sua fala, já o tinha visto por várias vezes ali, pequenino, pedindo esmolas, e hoje, rapazinho ainda continua com este fardo.

Estava numa grande encruzilhada emocional: não sabia se dava esmola ou se não dava. Só queria a todo custo sair daquele local, de pessoas cansadas, doentes, miseráveis. Não porque eu era melhor que aquilo, mas porque quando se olha nos olhos da falência a mesma toma conta de você e não há como fugir.

Entro no ônibus e deixo minha inquietação na mente, remoendo por todo o caminho, lembrando de Pito e de tantos outros anônimos em situações parecidas, que estão nos terminais à procura de algo melhor, porque metade de alguma coisa ainda é melhor que nada de alguma coisa. Questionando-me se um dia a caixinha de caramelos de todos os sabores em suas mãos dará lugar a um lápis, um caderno, um prato de comida, uma junção em oração agradecendo a Deus pela oportunidade de viver de forma mais digna, ou se suas mãos segurarão a arma, o cachimbo e serão presas por algemas militares.

O quanto é cruel um futuro entoando o discurso capitalista que diz serem dadas a todos as mesmas oportunidades sem considerar que o homem não é somente altruísmo e sim que existem inúmeros fatores sociais, familiares, geográficos que condicionam aquelas pessoas a estarem naquela situação degradante.

E embora não tenha me despedido de Pito, ao comprar dois caramelos daquele menino, vi em seu rosto um sorriso largo de criança e o desejei boa sorte, coisa que queria ter dito a Pito antes dele pegar o seu ônibus para a eternidade.

MyWorld

Sentou-se em sua poltrona de couro próximo à janela e ordenou com um gesto do dedo que ela reclinasse. Acomodou-se enquanto ela iniciava um vibrar leve, relaxando a musculatura das costas que não estavam cansadas, nem tensas, mas adorava a vibração que seguia da lombar à nuca. De fato, não faziam mais poltronas daquela forma.

Usava um roupão de seda e pantufas de algodão, surrados, mas prazerosamente acomodados a seu corpo. Observava a grama, seu cachorro Flôfi rosnar para o regador e seus filhos brincarem em um campinho de futebol construído por ele. Viu o mais velho marcar mais de 50 gols, todos comemorados com um sorriso no canto da boca.

Eram dez horas da manhã e há pouco acordara. Sua esposa aparecia a cada trinta minutos, com seus longos cabelos escuros e o olhar marcante, perguntando se ele queria mais café. Encerrava sua atenção dispensada com um “eu te amo” dito do jeito que só ela sabe. Ali era um felizardo. Aos 30 anos, tinha tudo que muitas pessoas jamais conseguiriam até o final de suas vidas.

Isso porquê soube mesclar as necessidades da vida cotidiana — o que muitos antropólogos e psicólogos consideravam como o mal da era moderna — com a tecnologia, criando o MyWorld: um mundo virtual onde tudo era possível ser revivido, de forma sensorial, por meio de uma simples fotografia.

Ao carregar a foto de um parque ou uma praça, o usuário, por um tempo pré-programado, poderia sentir a grama nos pés se quisesse por ela caminhar, assim como o cheiro das flores se quisesse cheirá-las. Apresentou àquele mundo instantâneo, imediatista e frenético uma nova forma de viver.

O único limite que sua invenção impunha era que nada além do ambiente fotografado poderia ser recriado. Só era possível revivenciar uma foto de cada vez, sem ser possível construir uma história em cima daquele momento. Se a foto fosse de um campo, ele estaria nele apenas. Se fosse de um jantar, também estaria nele apenas. Se fosse um pôr do sol, o veria várias vezes até que desistisse e fosse vivenciar outra fotolembrança.

Mesmo com tais limitações foi um sucesso, afinal, quem não tinha um celular nas mãos? Com o avanço tecnológico da produção de imagens digitais geradas a partir de dispositivos portáteis, com qualidade cada vez superior, e a possibilidade do armazenamento infindável, as pessoas incansavelmente adotaram o hábito da fotografia ou da Self.

Refeições, viagens, ocasiões especiais, envoltas nessa compulsividade de registar. E no final das contas, ao ver posteriormente as imagens, confortavam-se com a felicidade da lembrança de algo que não foi vivido de fato.

Aos montes, o software saiu das prateleiras levado por pessoas ansiosas em preencher as lacunas que existiam em suas memórias. Em pouco tempo, Eliphas ganhara os píncaros da glória. Estava em todos os jornais, em todas as revistas, em todas as casas.

Enquanto saboreava seu café meio amargo lembrou-se do convite inusitado que recebeu de um dos homens mais poderosos do mundo. Amahad Tulipa pediu para que comparecesse às pressas em sua mansão construída sobre o gelo do Polo Sul.

Ao chegar, foi convidado para a sala onde havia a última versão do MyWorld e os dois puderam reviver um momento único da vida de Amahad, belo e trágico: O nascimento do primeiro filho e a morte da esposa Judite no parto.

Amahad Tulipa contou que na época, enquanto a criança nascia, Judite estendeu a mão para segurar a dele que naquele momento estava ocupada fotografando o parto. Só parou com os cliques quando a mão de sua amada caiu bruscamente junto com sua pressão e instantes depois estava morta na maca. A foto era exatamente essa: Judite com a mão estendida, seu rosto vermelho e seu filho recém-nascido chorando.

Amahad, ao terminar de explicar o acontecido, linkou a foto no software transportando-os para aquele dia fatídico. Mesmo que Judite não pudesse lhe dizer nada, Amahad ficava ali, segurando a sua mão dizendo que a amava. Sentindo a textura macia de sua pele que costumava acariciar sua barba nas noites de intenso frio.

Pôde voltar aquele momento e olhar em seus olhos ainda com vida. Ver seu rosto vermelho, olhos lacrimejados e o semblante da mais pura felicidade.

Ao terminar o acesso desta fotolembrança junto Eliphas, Amahad desabou em lágrimas abraçando-o. Graças a ele pôde segurar a mão de sua esposa e logo depois pegar seu filho nos braços. Tocou a mão dela incontáveis vezes, segurou seu filho no colo outras incontáveis vezes e o faria até a morte.

Aquilo o emocionou também. Sentiu um misto de tristeza e satisfação. Tristeza óbvia, mas confortada por ser a pessoa que pôde viabilizar aquele momento para o pobre infeliz, mesmo que depois Tulipa tenha lhe dito que…

— Amor, quer mais café? — Sua esposa interrompeu seu raciocínio e o silêncio.

— Não, meu amor. — Respondeu Eliphas, sorrindo.

— Tudo bem. Eu te amo.

Viu mais um gol de seu filho, deixou Amahad para trás, e pensou em como aquele garoto estava incrivelmente astuto naquele dia. Encontrou outra posição mais confortável na cadeira e fechou os olhos.


Os principais jornais pelo mundo informaram:

“Eliphas Abmael, o criador do MyWolrd, é encontrado morto em seu escritório. ”

“Eliphas Abmael levou a tecnologia com ele? Quais serão os avanços da MyWolrd Company?”

“O conceituado criador do MyWolrd, Eliphas Abmael, está morto!”

“Perdemos o pai da tecnologia moderna, Eliphas Abmael.”

E o principal jornal trouxe na capa:

“Aos 105 anos morre Eliphas Abmael o criador do MyWorld”
Noiro Amil, julho, Jornal Digital – Retrô – Edição: 179689

No escritório foi encontrado apenas o necessário: uma cadeira, o birô e o aparelho que conectava as fotografias ao MyWorld. Havia uma seleção de 100 fotos, grande parte delas dos filhos e da esposa, mortos prematuramente em um acidente envolvendo o carro da família e um motorista que usava seu smarthphone enquanto dirigia.

O aparelho ligado exibia por um tempo prolongado a penúltima foto, a de um dos momentos mais obscuros da vida do inventor: a visita que fez a Amahad Tulipa, o homem mais rico do mundo, no ano de 2420. Não se sabe para que o magnata o chamou, mas as informações que saíram em todos os jornais é que ele havia sido advertido sobre o que tinha criado.

A última foto era de um Natal. Eliphas tinha 30 anos e estava com Birdie, o primeiro e único amor de sua vida. Ela aparece como uma imagem borrada, saindo pela porta como quem lhe perguntava algo. Eliphas focou na sua velha poltrona que herdou de seu pai e em seus filhos que jogavam bola.

Sobre a mesa, também fora encontrada uma carta que, segundo a perícia, foi escrita pelo inventor:

“Amahad Tulipa estava certo. Evoluímos para algo que não podemos mais controlar. Talvez, na época em que desenvolvi o MyWorld, tivesse a melhor das intenções, mas fiz sem lembrar das palavras de meu sábio pai que falava algo sobre o inferno estar cheio delas. O que eu fiz, agora vejo com clareza, foi condicionar mais ainda a situação doente em que as pessoas se encontravam.

Ninguém estava mais preocupado em vivenciar os momentos, e o que veio para ajudar nos tornou escravos. Vi homens pagando pessoas para fotografar a formatura do filho, ou entrando em profunda depressão por vivenciar uma realidade que jamais seria a dele. Foram inúmeros os suicídios, inclusive o de Amahad, que sumiu nas geleiras certo dia pela manhã. Ele me avisou que não aguentaria.

Meu mundo criado com tanto carinho me traiu. De todas as formas tentei, mas não consegui recriar o momento presente. Simplesmente porquê o presente nada mais é do que uma fração de segundos, e o que sentimos no presente é algo tão subjetivo e espontâneo que não importa de qual sentimento falamos, logo ele será substituído por saudade.

Tulipa me mostrou que com o tempo a saudade vira culpa. Viveríamos tantas vezes aquela ilusão que não nos permitiríamos aceitar que deixamos todas as possibilidades escaparem diante dos olhos, diante dos cliques incessantes de uma máquina de fotografar. Fotografamos saudade.

Deixei escapar este momento de aceitar mais uma xícara de café, a última que minha esposa serviria, perdi o momento de jogar bola com meus filhos, de fazer o último gol com eles, por estar preocupado em fotografar. Uma foto estranha com o vulto de minha amada e um gol que nunca saiu no enquadramento.

Peço desculpas por tal crueldade, infelizmente estou velho demais para reverter o erro. Uma vida para perceber que momentos podem se repetir, mas que a intensidade do que se viveu, ficará somente na memória. E visto que, por velhice, minha hora se aproxima, fico enfrentando a saudade em minha última lembrança de um dia feliz.”

Eliphas Abmail

Os vagões da linha 777

Quando deu por si, estava de pé em uma estação de trem. Seu corpo estava dormente, mas ainda era possível senti-lo. Percebeu que estava ao lado de pessoas de todos os tipos com aquele estranho espectro esbranquiçado que emana a alma humana. Sabia disso porque pôde notar outras vezes quando teve contato com alguns parentes que haviam morrido.

Pelo que percebeu das longas filas que se formavam até onde a vista alcançava, ele não estava na matéria, mesmo que fosse estranho estar como matéria no mundo dos espíritos. Isso nunca foi menos assustador, mesmo depois de tanto tempo tentando trabalhar sua mediunidade. De toda forma, estava estranhamente confortável, talvez conseguisse agir naturalmente por saber que a vida pós-morte era real.

Descobriu sua vidência ainda cedo, quando via seu bisavô sentado na velha cadeira de balanço na sala. Nunca foi algo nítido, mas quando passava pela porta em direção à cozinha o via de relance e quando voltava a focar os olhos via somente a cadeira se balançando.

Sua mãe, uma kardecista, dizia ser ‘normal’ e que, mais cedo ou mais tarde, este mundo se revelaria. Sempre com um sorriso no rosto enfatizava que era preciso maturidade para entendê-lo. Quisera fosse fácil agir com naturalidade ao acordar de madrugada e ver sua tia, morta há alguns dias, aparecer sentada na beirada de sua cama, olhando-o. Foi um susto tão grande que saiu correndo pelos corredores a ouvindo dizer “não se assuste, meu querido”.

Depois disso passou a dormir na sala, mas não foi diferente. Sempre que alguém se aproximava de sua rede o fazia despertar, mas não tinha coragem de se desembrulhar do cobertor para ver quem estava de pé ao seu lado. Apenas preferiu — mesmo que sua mãe tenha dito para não ter medo deles— não arriscar desmaiar ou enfartar de medo.

Certo dia acordou de madrugada e sentiu novamente a presença, desta vez distante de sua rede, e decidiu seguir as orientações de sua mãe ao perguntar o que ele queria. — Estou enlouquecendo! – Balbuciou, enquanto olhava pela brecha do lençol.
No quarto onde sua mãe dormia, não havia porta e, encostado no portal, viu um homem alto e largo, com a mão no paletó, que observava sua mãe dormir.

Chegou a perguntar, com a voz trêmula, o que ele queria, mas a estranha figura branca se desfez diante de seus olhos. Alguns anos depois, descobriu nas coisas de sua mãe uma foto de seu pai, que havia falecido nos primeiros anos após seu nascimento, com o mesmo paletó e a mesma aparência. Sua mãe lhe explicou que por algum motivo ele ainda não tinha ido embora da terra.

“São apenas memórias” — pensou enquanto caminhava pela estação, tentando reconhecer o local. Era tudo tão real. Não sabia como tinha ido parar ali, mas pelo que sua sábia mãe lhe contava, as viagens astrais eram assim, e que logo ‘acordaria do transe’, provavelmente na mesma praça onde sentou no banco para fumar um cigarro.

Caminhou até a última parada quando o apito do trem rompeu o silêncio. Lá do fundo pôde vê-lo se aproximando, gigantesco e imponente. Despejando no ar uma grossa camada de fumaça vermelha que se estendia cobrindo os sete vagões de ferro fundido.

Todos se levantaram ainda sem esboçar nenhuma mudança no semblante. Quando o trem parou e as portas se abriram, rapidamente entraram, e estando no meio deles foi levado pela multidão. Tentou escapar, mas eram tão fortes e amontoados que o carregaram para o último vagão do trem.

O trem partiu, e tendo a ciência que seu corpo não pertencia à viagem daquelas almas, tinha que, o quanto antes, chegar à cabine do maquinista e pedir para que ele parasse o trem que ganhava velocidade. Apitava sete vezes, depois mais sete, e o ranger do ferro se suavizava sendo trocado pelo ruído característico do percorrer da roda nos trilhos.

Ao situar-se, notou como o último vagão era festeiro, parecia ser o mais pesado também. Várias pessoas exorbitantemente gordas se empanturravam de doces e comidas. Comiam compulsivamente e olhavam-no como se fossem devorá-lo. Alguns vomitavam e — não compreendia tamanha ferocidade — voltavam a comer junto ao vômito. Passando cuidadosamente entre as banhas de homens e mulheres que comiam como porcos, enchendo as mãos de comida e engolindo sem mastigar, seguiu para o próximo vagão.

Logo ao ser notado, um homem escondeu todos os relógios de pulso que tinha, e levantou a gola da camisa para disfarçar os vários colares de ouro e prata. Tinha o corpo curvado e seu pescoço sangrava devido ao peso excessivo. Outro, pálido, contava um bolo de dinheiro dentro de uma das várias maletas abarrotadas de cédulas. Uma mulher, muito bonita e bem vestida, escondeu suas mãos com anéis de brilhantes que ocupavam todos os espaços dos dedos inchados e roxos. Foi caminhando entre eles espantado com a quantidade de riqueza que possuíam e mesmo sem entender tal mesquinhez, passou para o outro vagão.

No quinto vagão, uma mulher tentou tirar sua roupa enquanto um homem a penetrava por trás, seguido de outro homem a penetrá-lo. Outros homens e mulheres se masturbavam ao ver a cena. Velhos e jovens se promiscuíam diante dele que correu para não ser atacado. Uma mulher transava com quatro homens como em um emaranhado de cobras em seu frenético acasalamento. Passou rapidamente entre todos que se sodomizavam com os mais estranhos objetos. Agora, pela primeira vez, se viu chocado e preocupado com o que poderia encontrar pela frente.

Por pior que fosse, ao entrar no próximo vagão, foi recebido com um forte soco na barriga e foram direcionadas várias palavras de profundo ódio. Enquanto tentava se recompor, as pessoas em volta brigavam e se cuspiam, mostravam os dentes, se esmurravam e quebravam tudo ao seu redor. Distribuiu alguns socos, o que possibilitou que ele conseguisse passar pelo meio da confusão, e ao sair, desviou de uma cadeira que foi arremessada em sua direção antes de atravessar para o próximo vagão.

Mesmo que não fosse vantajoso exibir um hematoma roxo, uma mulher se aproximou, no outro vagão que acabara de entrar, e lhe ofereceu gelo enquanto elogiava seu hematoma. Estranhamente não conseguia tirar os olhos dele. Em um surto, começou a chocar a cabeça contra a parede de ferro tentando conseguir o mesmo hematoma, entrando em desespero ao não conseguir. E todos então, se chocavam contra a parede para ter aquele hematoma roxo. — Por que você tem e eu não? — Repetiam para ele, que saiu assustado sorrateiramente sabendo que o último vagão estava próximo, e que logo ele esclareceria toda aquela confusão.

No penúltimo vagão pôde descansar. — Meu Deus o que acontecera? Onde aquela viagem iria acabar? Será que o maquinista — seja ele quem for — não se importava com a situação deplorável daquelas pessoas? Por que ele não acordava daquele pesadelo espiritual? O que aconteceu com meu corpo abandonado na praça? — Eram os pensamentos que rodeavam sua cabeça atordoada.

Neste vagão, as pessoas estavam deitadas em um estado de sonolência e letargia absurda. O vagão tinha TVs, sons, bebidas, comidas, mas nada acontecia porque ninguém queria sair de seu canto confortável para pegar qualquer coisa à disposição. Todos apáticos e inertes. Profundamente tristes e petrificados. Tendo conseguido descansar um pouco e recuperar o fôlego perdido nos outros vagões, caminhou ao sétimo.

Ao entrar no último vagão, antes da casa das máquinas, se protegeu como pôde, por não saber o que esperar. Existia uma estranha calma e as pessoas mantinham distância uma das outras. Todas elas carregavam um saco enorme com o nome “ego” escrito. Todos mantinham seus narizes empinados, não conversavam porque julgavam serem uns mais importantes que os outros, mas a essa altura do campeonato não queria mais saber de condolências, apenas queria abrir a porta do maquinista e pedir para ele parar.

Entretanto, à medida que caminhava cauteloso, — para seu desespero — viu que não havia nenhuma porta. Apenas as marcas de ferro soldado a maçarico. Enquanto dirigia-se à cabine do maquinista percebeu que naquele vagão havia um canto que não tinha sido preenchido. A cadeira estava ocupada apenas por um dos sacos pretos com os dizeres “ego”, ao lado de um homem alto e de terno.

Ao se aproximar reconheceu que aquele era o mesmo homem que estava a olhar para sua mãe naquela madrugada assustadora de sua infância, o mesmo homem que encontrou nas fotos guardadas por tantos anos em um baú de lembranças.

Um frio lhe correu a espinha ao ver que o homem olhou nos seus olhos e esticou o braço para lhe dar um bilhete de passagem do trem, com seu nome escrito, data, hora e o número da sétima cadeira.

Ao pegar o bilhete notou pela primeira vez que seu braço, assim como seu corpo, também emanava o mesmo espectro esbranquiçado do qual sabia, e agora entendia o porquê de estar assim.